Cultura organizacional

As reuniões (e o ranço) têm futuro?

A identidade do colaborador pode ser reconhecida e fortalecida nas reuniões e isso não acontece por e-mail. Abolir esses eventos não adianta. Outros formatos devem ser elaborados, permitindo construir e viver experiências significativas e conectivas
Designer de relações profissionais, Daniela fundou a Consultoria Daniela Cais, especialista em Comunicação Interpessoal aplicada a ambientes corporativos e hubs de inovação. Mestre em Fonoaudiologia pela PUC-SP, TEDx Speaker e facilitadora de treinamentos de renomadas instituições nacionais e internacionais. Mentora de programas de desenvolvimento de carreiras e negócios, como BNDES Garagem, RME - Rede Mulher Empreendedora e Wadhwani Foundation.

Compartilhar:

E se as organizações abolissem as reuniões de suas rotinas?

Muita gente se queixa da agenda repleta de reuniões, e não é raro dizer que algumas delas poderiam ser um e-mail.

Certamente, nesses casos há desperdício de tempo e de energia. Mas, a razão para isso acontecer tem muito mais a ver com a forma de gerir a reunião do que com o assunto ou o projeto em discussão.

De modo geral, as reuniões têm uma pauta e a discussão é exposta para que as pessoas se manifestem à medida que desejam falar ou que são questionadas sobre o assunto, entendendo que assim se propicie a fluência natural da comunicação.

No entanto, há marcadores que demonstram que nem sempre há espaço para todos falarem, onde há interrupções e silenciamentos não há fluência, mesmo assim, eles passam despercebidos porque foram naturalizados, historicamente. Isto gera desinteresse e repulsa à situação.

Ted Rau, linguista alemão, cocriador da sociocracia para todos, escreveu que não imaginamos o quanto a ideia de “deixar rolar a conversa” em reuniões de trabalho é menos libertadora e muito mais opressiva. Se repararmos bem, segundo ele, quem fala detém a palavra em quase todas as reuniões, muitas vezes desestimulando ou mesmo impedindo que pessoas introvertidas, menos articuladas ou com cargos menores se expressem. Além disso, quando numa sala de reunião apenas alguns falam, as informações e pontos de vista de quem não fala são suprimidas, ou seja, colhe-se menos informações, menos impressões, menos ideias. Nesse ambiente, consequentemente, a escuta é refratária e rasa.

## Mas por que insistimos neste modelo falido de reunião?
A minha hipótese é que temos necessidade de encontros e conversas por sermos seres sociais, precisamos de interação e conexão interpessoal. Por meio das interações nós criamos, construímos, solucionamos… Nada disto acontece por e-mail ou qualquer aplicativo de mensagem, porque falta o essencial.

## Quantas boas ideias podem nascer em uma reunião bem gerida?
Posiciono-me em defesa das reuniões, pois quando nos reunimos estamos dizendo, de maneira até rudimentar, que somos parte do mesmo grupo, a nossa identidade pode ser reconhecida e fortalecida nas reuniões, podendo derivar pertencimento, curiosidade, engajamento e muito mais.

É neste contexto, sentido coletivamente, que os participantes se comprometem com as decisões, se corresponsabilizam pelos resultados e desenvolvem o espírito da colaboração.

Ou seja, reuniões devem ser espaços de escuta, aprimoramento e reparação, onde os objetivos são acordados e os processos são definidos. Se houver alinhamento, é possível que se ganhe celeridade, com menos ruídos de comunicação e mais celebrações.

A liderança que conhece e aproveita os sentidos de se realizar reuniões mantém a segurança no percurso e na equipe, pois sabe que construiu relações com autonomia e intimidade suficientes para fazer acontecer.

E, mesmo em uma empresa tradicional, com hierarquia vertical, a gestão saudável das reuniões pode permitir a diluição do peso do poder dos cargos (para arejar as ideias ou fortalecer as equipes) sem que isso signifique desordem ou descontrole.

Por esses argumentos, fica claro que reuniões são eventos positivos e necessários para as organizações, concorda?

Então, como desfazer o ranço que se criou em torno das reuniões?

Sem titubear eu digo que é exercitando a intencionalidade da comunicação e privilegiando as relações interpessoais, naturalizando (aí sim) as rodadas de discussão. Tão simples que nem parece inovação.

A rodada é uma abordagem que preconiza que todos falem em reuniões, cada um na sua vez, garantindo que os participantes tomem suas posições, façam observações, manifestem suas impressões, sem que seja preciso atropelar o outro, ou interromper sua fala. É um dos princípios da sociocracia que neste recorte nos serve para resgatar o sentido perdido das reuniões.

É inovador porque desafia o status quo propondo a quebra de um hábito antigo das empresas repetido até pelas mais disruptivas.

Evidentemente que, neste modelo, se alguém não quiser falar o fará intencionalmente, exercendo sua autonomia. Isto é muito diferente de não falar por falta de oportunidade ou por qualquer tentativa de obstrução.

Esta dinâmica reflete a intenção dos discursos, facilita a organização das informações, potencializa a escuta atenta e profunda, conferindo às reuniões o cumprimento das expectativas como espaço de trocas, evolução, alinhamento e motivação das equipes, comitês e grupos.

Sabemos que padrões internalizados e repetidos ao longo dos anos não se modificarão de uma hora para outra, que a cultura das organizações (ou de grande parte delas) é impregnada por hábitos que desconectam e acentuam desigualdades – é o caso de muitas reuniões.

Daí a importância de batalharmos pela mudança da mentalidade e do comportamento para transformar as atitudes, com reconhecimento do lugar de convívio e colaboração, salutar para as relações profissionais.

Que tal se, ao invés de abolirmos as reuniões da rotina profissional, propuséssemos formatos melhores que nos permitam construir e viver experiências significativas e conectivas?

Compartilhar:

Artigos relacionados

E se envelhecer não fosse apenas uma consequência do tempo?

Pesquisas recentes indicam que o envelhecimento biológico pode ser medido, acompanhado e, em determinadas dimensões, influenciado. A partir dessa nova compreensão, cresce o interesse por abordagens capazes de identificar riscos precocemente e promover trajetórias de saúde mais duradouras ao longo da vida.

Por que a IA se tornou membro essencial em equipes de manutenção preditiva?

A evolução da manutenção preditiva está levando a inteligência artificial para além da detecção de falhas. Sistemas multiagentes especializados começam a atuar como apoio para diferentes perfis profissionais, conectando análises técnicas, indicadores operacionais e recomendações de ação em um único fluxo de trabalho. O resultado é uma tomada de decisão mais rápida, contextualizada e alinhada às necessidades da operação.

Estamos dispostos a arriscar o futuro da humanidade pelo resultado no curto prazo?

Quando compreendemos que nossas decisões impactam pessoas que ainda nem nasceram, o futuro deixa de ser uma ideia abstrata e passa a exigir compromisso concreto. A partir de uma visão inspirada nos saberes indígenas e na interdependência entre pessoas, comunidades e natureza, o texto defende a construção de respostas coletivas para problemas que exigem uma compreensão mais ampla e integrada da realidade.

Liderança, Estratégia
15 de outubro de 2026 14H00
Inspirado pela trajetória de Rafael Nadal retratada no documentário Rafa, o artigo propõe uma reflexão sobre a forma como empresas constroem seus planejamentos estratégicos.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

5 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
15 de outubro de 2026 08H00
Processos, políticas e estratégias não surgem sozinhos. Eles são resultado das escolhas feitas diariamente por quem exerce liderança e influencia decisões. Embora tenham sido concebidos há mais de dois mil anos, os Niyamas oferecem reflexões surpreendentemente atuais para organizações que desejam construir culturas mais conscientes, coerentes e alinhadas aos desafios do presente.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, ESG
14 de outubro de 2026 14H00
A tecnologia tem papel decisivo na aceleração da agenda climática, mas a mudança acontece quando informações se transformam em escolhas. Entre indicadores, investimentos e decisões estratégicas, são as pessoas que continuam definindo o ritmo e a profundidade da transformação sustentável.

Fernando Beltrame - CEO da Eccaplan

Oferecido por Eccaplan
3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
14 de outubro de 2026 08H00
Quando a Nintendo rompeu uma parceria estratégica com a Sony diante do mundo inteiro, o que parecia uma derrota humilhante tornou-se o ponto de partida para uma das maiores inovações da história dos negócios. Um caso exemplar de como líderes podem transformar atrito, oposição e conflito em crescimento.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

9 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
13 de outubro de 2026 14H00
Um teste aparentemente simples, aplicado em uma fábrica japonesa, revela por que algumas organizações encontram talentos onde outras enxergam apenas falta de experiência. O artigo oferece uma perspectiva provocativa sobre a escassez de talentos e sobre como empresas podem identificar capacidades que currículos nem sempre conseguem revelar.

Marta Ferreira

7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
13 de outubro de 2026 08H00
Nem sempre as pessoas que mais contribuem para os resultados são aquelas que aparecem melhor nos indicadores individuais. Em muitas organizações, existe um trabalho invisível que conecta equipes, transfere conhecimento, reduz conflitos e faz o restante do sistema funcionar. O artigo propõe uma reflexão sobre os limites dos modelos tradicionais de avaliação de desempenho e alerta para um risco pouco percebido: demitir quem sustenta as relações e a colaboração de um time pode custar muito mais do que qualquer planilha é capaz de mostrar.

Átila Persici Filho - Consultor de gestão estratégica, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e conselheiro de inovação

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
12 de outubro de 2026 18H00
Por trás de cada iniciativa de inteligência artificial existe uma negociação raramente explicitada. Compartilhar conhecimento, revisar respostas, adaptar processos e sustentar a transição exige tempo, esforço e exposição. Antes de atribuir a resistência à mudança a uma questão cultural, talvez seja preciso entender quais incentivos estão sendo oferecidos para que as pessoas escolham cooperar.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

9 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
12 de outubro de 2026 14H00
Durante anos, a automação corporativa esteve associada à eliminação de tarefas repetitivas e operacionais. Agora, uma nova etapa começa a ganhar espaço: a integração entre RPA, inteligência artificial, APIs e agentes autônomos para coordenar processos inteiros de ponta a ponta.

Daniel Torres - CEO da Roboteasy

5 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
12 de outubro de 2026 08H00
Por muito tempo, compliance foi visto como a última etapa antes da aprovação de um projeto. Hoje, organizações mais maduras estão adotando uma abordagem diferente: envolver a área desde o início para construir soluções viáveis, seguras e aderentes às expectativas de governança e integridade.

André Tourinho - Gerente de Integridade da Eldorado Brasil Celulose

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
11 de outubro de 2026 14H00
Treinamentos costumam ser vistos como solução para desafios de desempenho, cultura e transformação. Mas existe uma pergunta que raramente aparece nas discussões sobre desenvolvimento: o ambiente de trabalho favorece os comportamentos que a organização deseja incentivar? O artigo mostra por que o sucesso de qualquer programa depende menos do conteúdo ensinado e mais da coerência entre estratégia, liderança e mecanismos de gestão.

Lauro Xerfan Neto - Conselheiro empresarial, consultor e professor na USP EACH e na FIA LabFin Provar

10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução