Compliance ferido, investigações em andamento, demissões e reprimendas a gestores. O RH, que tem uma importante missão de desenvolvimento de pessoas, hoje se vê na pele de delegacia interna. Os sinais se multiplicam nas empresas, e a pergunta que fica é: o que está acontecendo de verdade?
Parte da resposta está no excesso de ruído. Fala-se muito, e muito alto. Por isso, tenho recomendado aos executivos que acompanho um exercício raro: silêncio e reflexão. Antes de condenar o líder que grita, humilha e desrespeita a própria equipe (a ironia está no adjetivo: quem comanda destrói justamente a sua fonte de riqueza), vale entender do que é feita a autoridade.
O atalho que sai caro
Para começar, o que autoridade não é. Poder de cargo, politicagem e voz mais alta não a constroem. São atalhos, e atalhos cobram pedágio: denúncias, desmotivação, clima tóxico e, por fim, turn-over. A sangria começa sempre pelos melhores, que têm opções e saem primeiro. Ficam os medianos, e o líder, sem perceber, eleva o tom para compensar. Eis a tempestade perfeita, com trilha sonora incluída.
A fórmula em três ingredientes
A autoridade legítima é construída, e sua receita tem três componentes: conhecimento, comunicação e comportamento.
Conhecimento. Engana-se quem pensa que se trata do domínio técnico. Ele ajuda, em muitos casos, mas o que pesa é o conhecimento em gestão e em ferramentas de liderança. É ele que faz priorização, delegação, acompanhamento e direcionamento funcionarem com base em objetivos. Quando está presente, as entregas aparecem, o comprometimento aflora e o ambiente se torna colaborativo. Surge, enfim, um time de verdade, e não um agrupamento de pessoas sentadas perto umas das outras.
Comunicação. Ouvir, pedir, demandar e transmitir uma ordem são práticas que se aprendem, e não dons de nascença. Ouvir com empatia, vale dizer, é reconhecer como válido o argumento do outro antes de debater, e não ensaiar a réplica enquanto ele ainda fala. Bem conduzida, a comunicação desenvolve pessoas e organiza o fluxo de trabalho. Mal-conduzida, produz retrabalho e conversa de corredor.
Comportamento. Saber ler o ambiente e jogar o jogo corporativo é o que cria as conexões necessárias para que o trabalho flua. Costumo resumir assim: se o jogo corporativo é xadrez, jamais tente jogar truco. Blefar e gritar “seis!” no meio da reunião rende pouco numa partida que premia estratégia.
A conta que ninguém quer fechar
A ausência desses três ingredientes na formação dos futuros líderes gera ambientes cada vez mais difíceis de suportar. Corrigir o rumo não é modismo nem “mimimi”: é garantir resultado com saúde mental, duas metas que, ao contrário do que se supunha, caminham juntas.
Para refletir (e responder): se a sua equipe avaliasse hoje a sua autoridade, apontaria conhecimento, comunicação e comportamento, ou apenas o seu cargo e o seu volume? Qual desses ingredientes mais falta nas lideranças que você conhece.
Pense nisso com carinho.




