O burnout tornou-se um dos temas mais recorrentes nas organizações. Em muitos casos, a explicação adotada segue um caminho conhecido: falta de resiliência individual, dificuldade de lidar com pressão ou carência de competências emocionais. As respostas organizacionais acompanham essa lógica – treinamentos comportamentais, programas de bem-estar, ações de mindfulness e campanhas sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Embora essas iniciativas possam ter valor complementar, os dados sugerem que elas não atacam a raiz do problema.
No Brasil, a pesquisa “Panorama do Bem-Estar Corporativo 2026” indica que 86% dos trabalhadores relataram sintomas de burnout no último ano, e 39% vivenciam esses sintomas de forma recorrente, semana após semana. Outros estudos apontam que mais de 30% dos trabalhadores brasileiros já apresentam diagnóstico clínico da síndrome, colocando o país entre os de maior incidência no mundo.
Quando um fenómeno atinge essa escala, torna-se improvável que a explicação esteja apenas no indivíduo. Em qualquer outra área da gestão, padrões repetidos dessa natureza seriam interpretados como falha sistémica, e não como fragilidade humana.
Burnout como feedback do sistema
Sistemas produzem exatamente os resultados para os quais foram desenhados. Quando o trabalho exige esforço contínuo acima do limite sustentável, o efeito acumulado tende a surgir não como um evento isolado, mas como desgaste crónico.
Essa leitura não é nova. Décadas antes de o burnout ganhar protagonismo no debate corporativo, o Toyota Production System (TPS) já tratava a sobrecarga como um sinal inequívoco de erro no desenho do trabalho.
Diferentemente da interpretação simplificada do lean como “produzir mais com menos”, o TPS sempre enfatizou a criação de sistemas estáveis e sustentáveis. A filosofia da Toyota parte do princípio de que o trabalho deve ser desenhado para respeitar as capacidades humanas, reduzindo esforço desnecessário — físico, mental e cognitivo.
Nesse contexto, surge o conceito de Muri.
O que é Muri e por que ele importa
Muri refere-se à sobrecarga irracional ou excessiva imposta às pessoas. Não se limita ao esforço físico. Em ambientes administrativos, de serviços ou de trabalho intelectual, o Muri manifesta-se sobretudo como sobrecarga cognitiva: decisões constantes, mudanças frequentes de prioridade, ausência de padrões claros e exigência permanente de adaptação.
Na prática, o Muri torna-se visível quando:
- o sistema só funciona com esforço extraordinário de algumas pessoas
- metas são definidas sem considerar a capacidade real das equipes
- prioridades mudam com frequência, sem critérios claros
- improvisação substitui processos bem definidos
- horas extras e multitarefa deixam de ser exceção
Esses elementos não indicam alta performance. Indicam compensação humana para falhas estruturais.
Quando o Muri é normalizado, o sistema passa a depender de pessoas “chave” que absorvem a instabilidade. O custo aparece ao longo do tempo: exaustão, queda de qualidade, retrabalho e, eventualmente, burnout.
Sob essa ótica, o burnout deixa de ser um problema psicológico isolado e passa a ser entendido como feedback tardio de um sistema mal desenhado.
Implicações para líderes e organizações
A Toyota nunca tratou a sobrecarga como uma questão de atitude individual. O princípio de respeito às pessoas sempre esteve associado à responsabilidade de desenhar sistemas de trabalho previsíveis, estáveis e sustentáveis.
Para líderes e profissionais de gestão, isso implica uma mudança de foco. Antes de investir exclusivamente em iniciativas para aumentar resiliência ou engajamento, é necessário questionar o próprio desenho do trabalho.
Algumas perguntas ajudam a revelar o problema:
- Onde o trabalho só acontece com esforço extra constante?
- Quem sustenta o sistema quando algo sai do planeado?
- O ritmo de trabalho é previsível ou predominantemente reativo?
- Os processos reduzem ou ampliam a carga mental das pessoas?
Essas perguntas deslocam a conversa do comportamento individual para a responsabilidade organizacional.
Talvez o avanço no combate ao burnout não esteja em pedir que as pessoas se tornem mais resilientes, mas em desenhar sistemas que não dependam do esgotamento humano para funcionar.




