Na mitologia grega, os centauros eram seres metade homens, metade cavalos. Na parte de cima, a racionalidade e inteligência e, na parte de baixo, a força bruta e o instinto animal. Não parecia haver um domínio de uma parte sobre a outra, mas este ser simbolizava justamente a dualidade da natureza humana. Porém, nos mitos, a maioria dos centauros era retratada como seres selvagens e brutais. E, em algumas exceções, quando a sabedoria humana predominava, estes se tornanavam mestres respeitados.
Ao longo da história da humanidade, vemos simbolicamente o surgimento de centauros que nascem a partir da colaboração intensa entre homens e máquinas. Porém, assim como na mitologia, esta colaboração nem sempre tem os melhores resultados. Um exemplo disto foi o acidente do vôo 447 da AirFrance em 2009, em que cristais de gelo congelaram e bloquearam os tubos que mediam a velocidade da aeronave, desativando o piloto automático e, reações inadequadas da tripulação provocaram a sua queda no Oceano Atlântico. Na ausência do funcionamento da parte “máquina do centauro”, a “parte humana” foi incapaz de agir de forma autônoma. No julgamento do caso, houve responsabilidade compartilhada entre falhas de equipamento e falta de treinamento adequado.
Trazendo para a realidade em que vivemos com a ascensão da inteligência artificial generativa, teremos cada vez mais exemplos desta colaboração intensa, o que representa muito além do perigo do desemprego massivo, um risco enorme de segurança, como ciberataques avançados, riscos biológicos e perda de controle sobre sistemas autônomos. Assim como no caso do vôo da AF, não importa em qual parte o centauro falhar, todos serão condenados.
Apesar de tudo isto parecer muito distante para quem tem está “apenas” implementando automações de IA no seu dia a dia, a reflexão mais importante acaba sendo sobre o discernimento. Existem teses sendo defendidas em Harvard de que este discernimento é sustentado por dois pilares complementares que, assim como músculos, precisam ser exercitados: a intuição, que nos permite perceber e registrar padrões profundos antes mesmo de conseguirmos nomeá-los, e o “taste”, que é a capacidade de escolher a ação mais contextual e crítica diante de um problema, ou o “bom gosto humano”.
Como gestores, passamos a enfrentar novos dilemas diariamente como, por exemplo, entre a produtividade que acelera no curto prazo com a IA generativa que entrega respostas lógicas e constrói relatórios estruturados em segundos e o impacto no longo prazo da “atrofia” profissional, quando as pessoas perderem sua capacidade de resolver problemas difíceis sozinhas. Além disto, existe um risco enorme em sermos convencidos por “formas bonitas” e persuasivas geradas pela IA e não conseguir separá-las do que são conteúdos corretos ou que sejam de fato boas recomendações para uma determinada análise. Outro risco importante é que como a IA é treinada para gerar respostas em cima de médias e dados existentes, ela acaba trazendo soluções mais padronizadas e até mesmo previsíveis para as questões que têm camadas de complexidade muito maiores, que exigem debate, criatividade e inovação humanas.
Enquanto sofremos uma pressão constante por entregas mais rápidas e por um maior volume de processamento de tarefas, somos seduzidos para delegá-las. Neste sentido, é importante orientar os times para quando forem resolver problemas complexos, exercitarem suas hipóteses livremente sem o suporte da tecnologia em um primeiro momento, até mesmo para poderem confrontar e ter profundidade crítica para as respostas posteriormente geradas pela máquina.
Apesar de parecerem óbvios, se você passar a observar com atenção, irá perceber todos estes dilemas e novos que surgirão a cada dia. A grande questão que ainda não está clara é se como humanidade, teremos capacidade de aceitar a responsabilidade de nos tornarmos Centauros e de convivermos com esta dualidade de forma saudável, e se saberemos os momentos em que uma parte deverá sim ter domínio sobre a outra.
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