Cultura organizacional
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Chega de olhar pelo retrovisor

A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.
CIO da Tempo, professor de MBA na USP/ESALQ e FIAP, palestrante e especialista em Inteligência Artificial, Transformação Digital e Produtos Digitais. Com mais de 20 anos de experiência executiva, liderou programas de tecnologia, inovação, dados e IA em multinacionais, empresas investidas por Private Equity e operações críticas de grande escala na América Latina. É graduado em Tecnologia pela UNINTER, possui MBA em Inovação e Empreendedorismo pelo BI International em parceria com a Babson College, além de formação executiva em Transformação Digital pelo MIT Sloan Executive Education e em Governança Corporativa pela Fundação Dom Cabral.

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Toda empresa tem um ritual parecido no início do mês. Alguém apresenta um relatório contando o que aconteceu no mês anterior. O time discute, aponta causas, promete corrigir. É um ritual necessário, mas ele tem um defeito estrutural que quase ninguém questiona: ele descreve um passado que já não pode ser mudado.

Em mais de vinte anos gerindo tecnologia em operações de grande escala, aprendi que esse ritual não é falha de execução, é falha de desenho. A empresa constrói toda a sua régua de gestão em cima de espelho retrovisor, porque durante décadas foi a única tecnologia disponível para enxergar alguma coisa. Isso mudou. E a maioria das lideranças ainda não percebeu o tamanho da mudança.

Por que gerimos olhando para trás

Dashboard, relatório, reunião de resultado, todos esses rituais têm uma característica em comum: eles só existem depois que o fato já aconteceu. A tecnologia de gestão tradicional é fundamentalmente um espelho retrovisor bem construído. Ela mostra com precisão de onde você veio, mas não muda em nada a estrada à sua frente.

Um executivo que só enxerga pelo retrovisor está, na prática, sempre reagindo. Corta custo depois que o resultado veio ruim. Retém cliente depois que ele já decidiu cancelar. Contrata reforço depois que a operação já travou. A gestão vira uma sucessão de apagar incêndio, e o time inteiro aprende a admirar quem apaga incêndio rápido, em vez de admirar quem evita que o incêndio comece.

O que muda quando o para-brisa aparece

Modelos preditivos fazem algo que o relatório tradicional nunca conseguiu: eles olham para o padrão histórico e projetam à frente, não atrás. Não estão certos sempre, nenhuma previsão está, mas mudam radicalmente o ponto em que a decisão é tomada. Em vez de decidir depois que o cliente cancelou, a empresa decide antes, quando ainda existe uma janela de ação.

Acontece que coordenar movimentos com objetivo de antecipar o comportamento de clientes antes que o problema se manifestasse na ponta é algo que nunca fomos treinados para fazer. Nenhum MBA nos programou para isso.

Modelos preditivos obrigam os executivos a pensar olhando para frente. Não que não façam, eles fazem, mas sempre numa camada muito de expectativas e metas. Um modelo preditivo pode dar um grau de certeza que o executivo nunca teve de ninguém do seu time. Em vez de perguntar por que o cliente cancelou, o time passa a perguntar quais clientes estão mostrando o padrão de quem costuma cancelar, e o que fazer com essa lista antes que ela vire cancelamento de verdade. A pergunta mudou de tempo verbal, e isso muda tudo na cultura de decisão de uma empresa.

O retrovisor não desaparece, mas perde o posto de protagonista

É tentador achar que o para-brisa substitui o retrovisor por completo, e esse é um erro que muitas empresas cometem ao adotar modelos preditivos. O retrovisor continua tendo função: ele valida se a previsão fez sentido, ajusta o modelo, corrige a rota quando o padrão muda. O problema não é usar o retrovisor. É continuar dirigindo a empresa olhando só para ele, tratando o para-brisa como um recurso opcional, de nicho, usado apenas em um projeto piloto isolado dentro de uma área.

A virada de verdade acontece quando a informação preditiva deixa de ser um relatório especial que alguém consulta de vez em quando e passa a fazer parte do ritual central de decisão da empresa. Isso exige coragem, porque significa admitir que parte da régua de gestão tradicional, construída em cima de resultado fechado, perde relevância diante de um sinal que aponta para o que ainda vai acontecer.

O que isso exige de quem lidera

Gerir olhando para frente é desconfortável de um jeito que gerir olhando para trás nunca foi. O relatório do mês passado é um fato consumado, ninguém discute a realidade dele, só discute a causa. Uma previsão é uma probabilidade, e trabalhar com probabilidade exige uma tolerância a incerteza que grande parte das lideranças não foi treinada para ter.

O executivo que lidera bem com dados preditivos não é o que acredita cegamente em todo número que o modelo entrega. É o que sabe fazer as perguntas certas sobre a confiança daquela previsão, sobre em que situações o modelo historicamente erra, e sobre o custo de agir com base numa previsão que pode não se confirmar, comparado ao custo de não agir e deixar o problema se instalar. Isso é julgamento, não é operação de ferramenta, e é exatamente o tipo de competência que separa quem realmente lidera com dado de quem apenas expõe um dashboard bonito em reunião.

A régua de gestão da empresa também precisa mudar

Não adianta ter o modelo preditivo mais sofisticado do mercado se a régua de avaliação de resultado continua sendo construída inteiramente em cima do que já aconteceu. Se a empresa só reconhece e premia quem resolveu o problema depois que ele estourou, ninguém vai se dedicar a evitar que o problema estoure, mesmo tendo a informação na mão para isso.

Empresas que realmente migram do retrovisor para o para-brisa mudam também a forma como avaliam performance. Passam a reconhecer o time que reduziu o número de incêndios, não só quem foi mais rápido apagando. Isso é uma mudança cultural, não tecnológica, e costuma ser mais difícil de implantar do que qualquer modelo de machine learning.

O futuro pertence a quem decide antes

A tecnologia para enxergar à frente já existe e está acessível para praticamente qualquer empresa dispostas a investir nela. O que falta, na maioria dos casos, não é o modelo. É a coragem de reorganizar o ritual de gestão em torno de uma pergunta diferente da que fazemos há décadas.

A pergunta deixou de ser o que aconteceu e por quê. Passou a ser o que está prestes a acontecer e o que fazemos com essa informação antes que vire fato consumado. Quem continuar liderando só pelo retrovisor vai seguir sendo bom em explicar o passado. Quem aprender a liderar pelo para-brisa vai ser quem realmente muda o futuro do negócio.

Nota sobre fontes e referências

Nota do Autor

Os textos foram construídos a partir da minha experiência como executivo de tecnologia ao longo de mais de vinte anos, combinada com pesquisa que fiz sobre o tema para embasar os conceitos e trazer rigor à argumentação. Abaixo, as fontes que pesquisei e usei como referência.

  • Human + Machine: Reimagining Work in the Age of AI, de Paul R. Daugherty e H. James Wilson (Harvard Business Review Press, 2018). Fonte da ideia central de times híbridos, onde pessoas e máquinas decidem junto, e não mais em sequência.
  • Prediction Machines, mesma referência acima. Sustenta a parte do texto sobre porque julgamento continua sendo a competência que diferencia um bom executivo.
  • Machine, Platform, Crowd, de Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee (W. W. Norton, 2017). Reforça a ideia de que ganho real de produtividade exige mudança organizacional, não só substituição de tarefa por máquina.


Os exemplos práticos, os cases e as críticas aos hábitos de gestão corporativa vieram da minha vivência como CIO e como professor de MBA em produtos digitais com IA.

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