Pense num desenvolvedor de Recife, com oito anos de experiência em dados, que trabalha remotamente para uma empresa em Amsterdã sem nunca ter saído do país. Quem o recrutou nunca tinha ouvido falar da universidade onde ele se formou, nem dos cursos e certificações que ele acumulou ao longo da carreira, alguns em instituições brasileiras, outros em plataformas estrangeiras. Do outro lado da tela, alguém precisou entender e validar o que cada documento queria dizer: o que ele estudou, em que nível, o que sabe fazer de fato. Hoje, essa leitura costuma se apoiar em entrevistas longas, testes práticos e nas poucas certificações globais que o recrutador reconhece. E, no fim, quem decide o valor da formação dele é quem está lendo, com as referências que tem.
A cena é comum e mostra o lado humano de um tema que costuma ser tratado como técnico: quem define o que o conhecimento de uma pessoa significa, e onde esse significado fica guardado.
O mundo já sabe ler
Parte do problema já tem solução. Padrões abertos como o Open Badge 3.0 permitem emitir credenciais digitais que qualquer sistema do mundo consegue abrir e conferir em segundos, com a autenticidade registrada em blockchain. Uma credencial emitida em Recife pode ser verificada em Amsterdã com um clique, sem tradução e sem espera.
Ainda assim, países da Europa e da Ásia foram além do padrão e construíram sobre ele trilhos próprios: infraestruturas públicas de credenciais, com regras definidas pelo Estado sobre quem pode emitir, como as competências são descritas e onde esse registro fica guardado.
Daí vem uma pergunta legítima: se o padrão já é internacional, para que um país precisaria de um trilho próprio? A resposta está na diferença entre ler e compreender. O padrão garante que a credencial seja lida em qualquer lugar. Quem define o que ela significa é quem governa o trilho por onde ela passa: quais competências existem, como são descritas, em que língua, com que critérios de avaliação, quem está autorizado a emitir e quem enxerga o conjunto das trajetórias.
Esse significado carrega muito do país que o produz. O jeito como o Brasil forma um enfermeiro, um professor ou um engenheiro reflete as escolhas pedagógicas, as necessidades do nosso sistema de saúde, a experiência acumulada das nossas universidades e a língua em que ensinamos. É conhecimento produzido aqui, um ativo intelectual do país. Quando a descrição das competências fica a cargo de quem está fora, esse ativo passa a ser lido por outras lentes, com critérios pensados para outra realidade.
Europa e Ásia escolheram cuidar do significado
A União Europeia oferece o exemplo mais completo. Os países europeus adotaram os mesmos padrões abertos que o resto do mundo e construíram, em cima deles, uma infraestrutura pública. O Europass emite credenciais digitais de aprendizagem, e até o fim de 2026 cada Estado-membro precisa oferecer aos cidadãos uma carteira digital capaz de guardar documento de identidade e diploma.
O detalhe mais revelador está na forma como a Europa lida com as diferenças entre os países. O Quadro Europeu de Qualificações funciona como um dispositivo de tradução: cada país mantém o próprio sistema de qualificações e apenas o relaciona à referência comum. A França segue formando à francesa, a Alemanha à alemã, e as duas se entendem. A taxonomia europeia de competências e ocupações existe em 28 línguas, porque a língua em que uma competência é descrita também faz parte de quem a descreve.
Na Ásia, a Índia levou para a educação a mesma lógica de infraestrutura pública digital que já aplicava à identidade e aos pagamentos, e soma mais de 260 milhões de identidades acadêmicas verificadas. Singapura criou o OpenCerts, sistema público de certificados acadêmicos registrados em blockchain, adotado desde 2019 pela maior parte das instituições de ensino do país.
Os Estados Unidos seguiram outro caminho, deixando para o mercado a tarefa de se autorregular. O resultado é um ecossistema vibrante e disperso: 1,85 milhão de credenciais distintas, oferecidas por mais de 134 mil provedores, segundo o levantamento Counting Credentials 2025, do Credential Engine. Os padrões abertos permitem ler essas credenciais; o significado de cada uma fica a cargo de quem a emite.
Os exemplos da Europa e da Ásia mostram que um país pode estar inteiramente conectado ao mundo e, ao mesmo tempo, manter nas mãos das próprias instituições o sentido do que ensina. É esse o modelo de excelência que o Brasil tem diante de si.
Soberania e governança como identidade
O governo federal tem descrito a soberania digital como a governança das próprias dependências tecnológicas, organizada em três pilares: onde os dados residem, quem opera as plataformas e quem desenvolve a tecnologia. Levando em conta essa tríade, a escolha por padrões abertos permite que o país siga conectado ao mundo sem ficar preso a um único fornecedor: os dados podem mudar de lugar, a operação pode trocar de mãos e a tecnologia pode ser desenvolvida por qualquer um.
Levada para a formação das pessoas, essa agenda ganha uma dimensão menos visível e talvez a mais importante: a soberania intelectual. Um trilho público de credenciais permitiria ao Brasil descrever as competências dos seus profissionais com referências próprias, como a Classificação Brasileira de Ocupações, que desde a origem dialoga com a classificação internacional da Organização Internacional do Trabalho. Permitiria definir quem pode emitir, com um registro público das instituições autorizadas, o que também mantém cada credencial verificável independentemente da plataforma em que foi emitida. E permitiria enxergar, de forma agregada e respeitando a titularidade de cada cidadão, onde estão as competências do país e onde elas faltam.
Esse último ponto ganha peso porque a qualificação do brasileiro já acontece em muitos lugares. A 5ª Pesquisa de Empregabilidade do Instituto Semesp mostra que 84,6% dos egressos fizeram alguma formação depois da graduação, a maior parte em cursos online, cursos livres e certificações profissionais, muitas vezes oferecidos por plataformas globais. Cada uma dessas credenciais descreve um pedaço do que o profissional brasileiro sabe fazer, e hoje elas ficam espalhadas, cada uma no formato de quem emitiu. Num trilho comum, ancorado no CPF e no gov.br, elas se somariam à trajetória de uma mesma pessoa, que continuaria dona de cada comprovante.
O Brasil sabe construir trilhos
Com o Pix, o país mostrou que sabe construir uma infraestrutura pública que a população inteira adota e sobre a qual o mercado inova; em poucos anos, ele se tornou o meio de pagamento mais usado do país. O gov.br, por sua vez, já reúne 175 milhões de usuários. Na educação, o diploma digital já é obrigatório na graduação e as diretrizes curriculares mais recentes organizam a formação por competências. Somado a isso, iniciativas estaduais avançam, como no Paraná, que regulamentou as microcredenciais prevendo o registro em blockchain. As peças estão na mesa. Falta o trilho que as una.
A pergunta que costuma surgir nesse debate é se um trilho próprio afastaria o Brasil do mundo. O passaporte ajuda a responder. Ele é emitido pelo Estado brasileiro, com regras brasileiras, e é aceito em qualquer aeroporto porque segue um padrão internacional comum. Soberania e abertura convivem nele há gerações. Com as credenciais de competência pode acontecer o mesmo: um trilho público brasileiro, construído sobre os padrões abertos que o mundo já lê, coloca o país dentro da conversa global com sotaque próprio.
A escolha começa agora
O trilho público está em construção. Enquanto ele se desenha, as instituições de ensino e as empresas que emitem credenciais já fazem a sua parte: organizam a formação por competências, adotam o Open Badges como padrão, descrevem cada competência com referências brasileiras e internacionais ao mesmo tempo e garantem que o comprovante pertença a quem aprendeu. É esse trabalho que vai permitir ao país conectar as peças quando o trilho estiver pronto.
Voltemos ao desenvolvedor de Recife. Num Brasil com trilho próprio, a empresa de Amsterdã conferiria a trajetória dele em segundos, descrita com as referências do país que o formou e compreensível para quem o contrata. A formação dele seria lida pelo que de fato é, e o Brasil continuaria sabendo o que forma e onde seus profissionais fazem diferença, inclusive quando trabalham para o mundo sem sair de casa.

A POK desenvolve infraestrutura de credenciais verificáveis em blockchain no padrão Open Badge 3.0, trabalhando para que microcredenciais e badges de competência se articulem com o diploma digital e o registro do MEC.
Fontes para conferência editorial (uso interno, não publicar)
Europass, European Digital Credentials for Learning · https://europass.europa.eu/en/european-digital-credentials-learning
Carteira Europeia de Identidade Digital: prazo até o fim de 2026, inclui diplomas (Euronews, 16/09/2026) · https://www.euronews.com/2026/09/16/eu-digital-wallet-24-of-27-members-will-miss-the-deadline
Quadro Europeu de Qualificações: países relacionam seus quadros nacionais à referência comum · https://en.wikipedia.org/wiki/European_Qualifications_Framework
ESCO disponível em 28 línguas (Comissão Europeia) · https://esco.ec.europa.eu/en/about-esco/escopedia/escopedia/esco-languages
Índia: 26,35 crore (263,5 mi) de APAAR IDs verificados, dados de 02/07/2026 (PIB, Governo da Índia) · https://www.pib.gov.in/FactsheetDetails.aspx?id=150693&NoteId=150693&ModuleId=16®=6&lang=1
Singapura, OpenCerts: blockchain, desde 2019, maior parte das instituições (OCDE, Observatory of Public Sector Innovation) · https://oecd-opsi.org/innovations/opencerts/
EUA: 1,85 mi de credenciais, 134 mil+ provedores (Credential Engine, Counting Credentials 2025, 09/12/2025) · https://credentialengine.org/2025/12/09/new-report-finds-1-85-million-credentials-and-opportunities/
Soberania digital como controle de dependências, três pilares, padrões abertos (Convergência Digital, 03/09/2026) · https://convergenciadigital.com.br/governo/governo-redefine-soberania-digital-e-quer-reduzir-dependencia-tecnologica/
CBO elaborada com referência na ISCO/CIUO da OIT (IBGE, Concla) · https://concla.ibge.gov.br/documentacao/cronologia/cbo.html
Instituto Semesp, 5ª Pesquisa de Empregabilidade: 84,6% fizeram formação após a graduação · https://www.semesp.org.br/pesquisas/5a-pesquisa-de-empregabilidade/
UNESCO IESALC: plataformas globais entre os principais provedores de microcredenciais na região · https://www.iesalc.unesco.org/en/articles/unesco-iesalc-releases-key-study-microcredentials-and-their-impact-higher-education-latin-america
gov.br: 175 mi de usuários (MGI, 24/03/2026, via Telesíntese) · https://telesintese.com.br/gov-br-chega-a-175-milhoes-de-usuarios/
Open Badges 3.0 (1EdTech) · https://www.1edtech.org/standards/open-badges




