Estratégia
5 minutos min de leitura

Como arquétipos e alter egos podem ajudar a construir marcas fortes e líderes que inspiram

Antes de falar, sua marca já se revela - e, sem consciência, pode estar dizendo exatamente o contrário do que você imagina.
Cristiano Zanetta é empresário, palestrante TED e referência nacional em humanização. Autor de "A Ciência do Batman", atua há mais de duas décadas em projetos sociais voltados à saúde, reconhecidos por instituições como a Warner Bros., Exército de SC e Federação Brasileira de Hospitais. Sua trajetória inspiradora será retratada no filme "O Homem por Trás da Máscara". Também é professor na USF, onde leciona a disciplina de Cuidado Humano.

Compartilhar:

Antes de comunicar valor ao mercado, marcas e líderes já estão dizendo algo sobre quem são e como atuam. Isso acontece todos os dias, em cada decisão, conversa e escolha de posicionamento. No entanto, quando identidade, intenção e ação caminham juntas, essa presença se torna clara, confiável e inspiradora. É justamente nesse ponto que entram os arquétipos e os alter egos: dois recursos capazes de fortalecer marcas e apoiar líderes na construção de uma atuação mais consciente e memorável.

Embora muitas vezes confundidos, eles têm naturezas distintas. Os arquétipos são símbolos universais que já existem no imaginário coletivo e servem para conectar a marca ao público. Já o alter ego é uma criação individual, uma ferramenta psicológica de performance. Enquanto o arquétipo define como você é visto, o alter ego define como você age, permitindo acessar recursos internos que sua personalidade cotidiana talvez não sustente.

Compreender quando e como utilizar cada um desses recursos permite que líderes e gestores deixem de reagir automaticamente ao contexto e passem a conduzir, de forma mais intencional, a própria narrativa e o impacto que geram.

Arquétipo

Os arquétipos operam no campo externo da marca, ancorados no inconsciente coletivo, e têm como função central facilitar a compreensão e o reconhecimento imediato. Fundamentados na psicologia analítica de Carl Gustav Jung, eles não servem para criar personalidades artificiais, mas para alinhar marcas a padrões universais de significado já existentes na psique humana.

No contexto de branding, a definição clara de um arquétipo reduz o esforço cognitivo do público. A marca passa a ser compreendida pelo significado que sustenta suas decisões. De acordo com Jung, há 12 padrões clássicos, e para fins de gestão podemos organizar em quatro grupos orientadores de cultura e posicionamento:

● Estabilidade e estrutura: Criador, Governante e Cuidador.
● Pertencimento e conexão: Cara Comum, Amante e Comediante.
● Maestria e transformação: Herói, Fora da Lei e Mago.
● Autonomia e sabedoria: Inocente, Explorador e Sábio.


A eficácia desse uso depende da coerência. Quando há desalinhamento entre o padrão simbólico comunicado e o comportamento, instala-se uma dissonância cognitiva, enfraquecendo a percepção de autenticidade. Marcas fortes ativam, de forma consistente, essas estruturas simbólicas, tornando sua presença memorável e confiável ao longo do tempo.

Embora o conceito de arquétipo tenha sido sistematizado por Carl Jung dentro da psicologia analítica, ele não se limita a essa abordagem. Na prática, muitas pessoas compreendem e aplicam arquétipos a partir de outras perspectivas, que funcionam como linguagens diferentes para acessar estados internos semelhantes.

Uma dessas leituras é a energética, comum em outras tradições, abordagens integrativas e sistemas simbólicos contemporâneos, nas quais os arquétipos representam qualidades de energia – como ação, presença, clareza ou receptividade – que podem ser ativadas conforme a necessidade.

Alter Ego

Se o Arquétipo define quem somos, o Alter Ego resolve como agimos. Ele opera como um mecanismo de autodistanciamento (self-distancing) – conceito que também é aplicado na Logoterapia de Viktor Frankl – no qual o indivíduo se afasta momentaneamente de suas inseguranças para executar a ação exigida pela situação. Ao adotar uma perspectiva externa sobre si mesmo, torna-se possível reduzir respostas automáticas e atuar com maior controle emocional sob pressão.

Grandes nomes já utilizaram desse recurso não para fingir ser quem não são, mas para ativar um estado mental de alta performance. Kobe Bryant “Black Mamba” e Beyoncé “Sasha Fierce” utilizavam essas personas como chaves psicológicas para deixar o medo e a timidez em segundo plano e focar na execução.

Para o líder que deseja inspirar, o Alter Ego funciona como um interruptor interno. Ao utilizar um gatilho simbólico como um objeto, uma roupa ou um ritual, ele sinaliza para si mesmo a transição para um estado de ação deliberada. Isso permite liderar pelo exemplo, superando a hesitação natural e agindo com a coragem que a equipe espera.

O estudo ‘The Batman Effect’, publicado no jornal Child Development pela pesquisadora Rachel E. White buscou compreender o impacto da identificação com super-heróis no desempenho e perseverança das crianças diante de tarefas desafiadoras.

Ao todo, 180 crianças com idade entre quatro e seis anos foram selecionadas para participar do estudo. Elas foram submetidas a uma tarefa chata no computador, com a orientação de realizá-la por um período de dez minutos. Como forma de evitar o tédio, um iPad estava disponível ao lado delas, permitindo que pudessem jogar caso perdessem o interesse na atividade. No entanto, havia uma condição: as crianças que optassem por se vestir como um super-herói teriam que se questionar durante a tarefa se o super-herói escolhido estaria trabalhando duro naquele momento.

Os resultados desse estudo revelaram uma ligação entre a adoção do alter ego de super-heróis e a perseverança demonstrada pelas crianças. Em particular, as crianças que se vestiram como super-heróis, como o Batman, exibiram uma maior capacidade de concentração e determinação em comparação com aquelas que não utilizaram fantasias. Acredita-se que o ato de se identificar com um personagem poderoso e adotar seus traços de caráter tenha estimulado as crianças a se esforçarem mais e resistirem à tentação do iPad.

Ética, coerência e consciência da sombra

Seja pela via narrativa dos Arquétipos ou pela performance do Alter Ego, a construção de marcas fortes exige um fundamento ético inegociável. Toda amplificação simbólica carrega potência e, inevitavelmente, risco. Quanto maior a capacidade de influência, maior deve ser o compromisso com a coerência entre o que se projeta e o impacto que se gera.

É aqui que precisamos encarar o conceito junguiano de Sombra. Todo arquétipo e todo alter ego projetam luz, mas também escondem um lado não integrado – excessos, vaidades ou distorções que, se ignorados, podem facilmente te sabotar. Trabalhar a sombra não é eliminá-la, mas assumir consciência de seus limites para que ela não opere no comando invisível das decisões.

A ética, portanto, não é um adorno; é o eixo gravitacional da marca. É ela que impede que a performance vire manipulação e que a narrativa vire ficção. Arquétipos dão o sentido; Alter Egos emprestam a coragem. Mas é a ética que garante a sustentação. Sem esse lastro, tudo não passa de encenação.

Compartilhar:

Artigos relacionados

2026 após o hype de 2025: Menos discurso, mais critério em IA

Não é uma previsão do que a IA fará em 2026, mas uma reflexão com mais critério sobre como ela vem sendo usada e interpretada. Sem negar os avanços recentes, discute-se como parte do discurso público se afastou da prática, especialmente no uso de agentes e automações, transformando promessas em certezas e respostas em autoridade.

Estratégia
29 de janeiro de 2026
Antes de falar, sua marca já se revela - e, sem consciência, pode estar dizendo exatamente o contrário do que você imagina.

Cristiano Zanetta - Empresário, palestrante TED e escritor

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de janeiro de 2026
Se o seu RH ainda preenche organogramas, você está no século errado. 2025 provou que não basta contratar - é preciso orquestrar talentos com fluidez, propósito e inteligência intergeracional. A era da Arquitetura de Talento já começou.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior e Cris Sabbag - COO da Talento Sênior

2 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
27 de janeiro de 2026
Não é uma previsão do que a IA fará em 2026, mas uma reflexão com mais critério sobre como ela vem sendo usada e interpretada. Sem negar os avanços recentes, discute-se como parte do discurso público se afastou da prática, especialmente no uso de agentes e automações, transformando promessas em certezas e respostas em autoridade.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

0 min de leitura
Lifelong learning
26 de janeiro de 2026
O desenvolvimento profissional não acontece por acaso, mas resulta de aprendizado contínuo e da busca intencional por competências que ampliam seu potencial

Diego Nogare

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
25 de janeiro de 2026
Entre IA agentiva, cibersegurança e novos modelos de negócio, 2026 exige decisões que unem tecnologia, confiança e design organizacional.

Eduardo Peixoto - CEO do CESAR

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
24 de janeiro de 2026
Inovação não falha por falta de ideias, mas por falta de métricas - o que não é medido vira entusiasmo; o que é mensurado vira estratégia.

Marina Lima - Gerente de Inovação Aberta da Stellantis para América do Sul

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
23 de janeiro de 2026
Se seus vínculos não te emocionam, talvez você esteja fazendo networking errado. Relações que movem mercados começam com conexões que movem pessoas - sem cálculo, sem protocolo, só intenção genuína.

Laís Macedo - Presidente do Future Is Now

3 minutos min de leitura
Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
22 de janeiro de 2026
Se a IA sabe mais do que você, qual é o seu papel como líder? A resposta não está em competir com algoritmos, mas em redefinir o que significa liderar em um mundo onde informação não é poder - decisão é.

João Roncati - CEO da People+Strategy

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de janeiro de 2026
Como o mercado está revendo métricas para entregar resultados no presente e valor no futuro?

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

5 minutos min de leitura
Inovação
20 de janeiro 2026
O volume e a previsibilidade dos instrumentos de fomento à inovação como financiamentos, recursos de subvenção econômica e incentivos fiscais aumentaram consideravelmente nos últimos anos e em 2026 a perspectiva é de novos recordes de liberações e projetos aprovados. Fomento para inovação é uma estratégia que, quando bem utilizada, reduz o custo da inovação, viabiliza iniciativas de maior risco tecnológico, ajuda a escalar e encurtar o tempo para geração de valor dos projetos.

Eline Casasola - CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89 empresas

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança