Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
6 minutos min de leitura

Como o design de “todo dia” marginaliza os 60+ no Brasil

Enquanto o Brasil envelhece, muitas empresas seguem desenhando experiências para um usuário que já não existe. Este artigo mostra que quando a tecnologia exige adaptação do usuário, ela deixa de servir e passa a excluir.
Co-fundador da Kyvo, designer com mais de 15 anos de experiência trabalhando com soluções inovadoras focadas no ser humano. Pós-Graduado em Design Centrado no Usuário pela Universidade Positivo, espe

Compartilhar:

O Brasil está envelhecendo, mas boa parte das empresas ainda opera como se o País continuasse jovem. Essa talvez seja uma das contradições mais visíveis da transformação social brasileira nas últimas décadas. Enquanto a transição demográfica altera o perfil da população, reorganiza o consumo e redefine a demanda por serviços, grande parte das jornadas digitais segue sendo concebida a partir de um usuário implícito que é rápido, íntimo da tecnologia, confortável com automações e habituado a códigos de navegação que estão longe de ser universais. O resultado é um desalinhamento cada vez mais evidente entre o mundo real e a lógica com que produtos e serviços digitais continuam sendo desenhados.

Nesse ponto, cabe um detalhamento: a Organização Mundial da Saúde e a legislação brasileira consideram idosa a pessoa com 60 anos ou mais.

O fato é que esse atual contingente de idosos brasileiros representa um naco relevante na formação de riquezas da nação. Estima-se algo como R$ 1,8 trilhão. Portanto, não se trata de um grupo periférico ou residual, mas de uma parcela crescente da população que já ocupa lugar central na vida econômica e social brasileira.

Ainda assim, o envelhecimento brasileiro parece não ter sido plenamente incorporado à inteligência de mercado, ao desenho de serviços nem à cultura de inovação das empresas. Em tese, a digitalização deveria ampliar a autonomia, simplificar processos e facilitar o acesso. Na prática, porém, ela frequentemente produz o efeito inverso: torna experiências mais opacas, mais rígidas e mais excludentes para quem não se encaixa no modelo de usuário presumido pelos sistemas. Parte desse descompasso decorre de uma busca histórica dos times de produto por soluções universais, capazes de atender a todos de forma padronizada, ao mesmo tempo em que ganha força, no debate contemporâneo, a agenda da hiper personalização – que reconhece a diversidade de perfis, capacidades e contextos de uso e aponta para a necessidade de experiências mais adaptativas e inclusivas.

É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a ser também social, cultural e política. Segundo o report Antietarismo: Um Convite à Comunicação Inclusiva, produzido por Maturi e Febraban, o etarismo, ou ageísmo, é uma forma silenciosa de preconceito que afeta diferentes gerações, mas se torna especialmente cruel com a população 60+, justamente porque empurra esse grupo para um lugar de invisibilidade. O problema não está só no modo como os idosos aparecem na publicidade, na comunicação institucional ou no discurso das marcas. Ele também se manifesta quando produtos, interfaces e canais de atendimento são concebidos como se envelhecer fosse uma exceção incômoda ao padrão desejável de consumidor.

Esse é o ponto central que ainda custa a amadurecer no debate empresarial: a dificuldade de atender adequadamente a população com 60 anos ou mais não é uma simples falha operacional. É um problema de inclusão. É um problema de cidadania. É, em muitos casos, uma barreira concreta ao exercício de direitos.

À luz do Estatuto da Pessoa Idosa e da legislação brasileira sobre acessibilidade, não basta que serviços estejam formalmente disponíveis. Eles precisam ser compreensíveis, utilizáveis e realmente acessíveis. Em um cotidiano atravessado por aplicativos, autenticações digitais, centrais remotas, plataformas de compra, agendamentos on-line e autosserviço, uma jornada mal desenhada não representa apenas desconforto. Ela pode significar a impossibilidade de acessar saúde, mobilidade, consumo, informação e atendimento. Vale considerar, ainda, que o envelhecimento envolve mudanças nos padrões cognitivos – como processamento mais lento, maior necessidade de confirmação e preferência por sequências mais explícitas – que levam muitas pessoas idosas a construir caminhos de uso diferentes dos previstos pelos sistemas. Ignorar esses modos de pensar e agir não é apenas um descuido de design, mas um erro de compreensão sobre quem, de fato, está do outro lado da interface.

A fricção aparece, com frequência, no próprio desenho das interfaces. Segundo o estudo “The Impact of UI Design Elements on Cognitive Performance in Elderly Mobile Application Users”, publicado no Journal of Emerging Trends and Novel Research, grande parte das aplicações móveis amplamente utilizadas ainda apresenta elementos que dificultam a navegação de usuários idosos, como botões pequenos, baixo contraste e organização visual pouco explícita. Pode parecer detalhe, mas não é. Quando a experiência exige decifração constante, a tecnologia deixa de servir ao usuário e passa a exigir que o usuário se adapte a ela.

Há, nisso tudo, um vício recorrente do discurso corporativo sobre inovação: o de confundir sofisticação com simplificação aparente. Em nome da fluidez, eliminam-se mediações. Em nome da agilidade, condensam-se instruções. Em nome da eficiência, automatiza-se tudo. Mas, muitas vezes, o que se chama de simplificação é apenas a transferência da complexidade para o usuário. E, quando esse usuário é uma pessoa mais velha, a consequência pode ser a exclusão silenciosa.

As dificuldades não são apenas operacionais. Também são físicas, sensoriais e operacionais. Segundo o artigo “What If My Face Gets Scanned Without Consent”, sistemas de reconhecimento facial e leitores biométricos apresentam taxas de falha mais elevadas entre idosos. O envelhecimento altera a elasticidade da pele, a textura das digitais, os contornos do rosto e outros elementos que influenciam o desempenho dessas tecnologias. Em vez de promover acesso simplificado, a biometria passa a operar como uma barreira adicional.

Esse tipo de ruptura na experiência não é irrelevante. Segundo relatório da TrustCloud, empresas podem perder entre 65% e 85% de potenciais clientes durante processos de onboarding digital em razão de fricções, quebras de confiança e ausência de suporte em momentos críticos. Embora esse dado apareça com frequência em discussões sobre serviços financeiros, seu raciocínio vale para praticamente toda a economia.

Outro ponto decisivo é a retirada progressiva do atendimento humano. Dados da Age UK mostram como o fechamento de pontos físicos e a migração acelerada para canais exclusivamente digitais criaram zonas de desassistência para a população idosa. Quando o suporte presencial desaparece e o atendimento é substituído por fluxos robotizados ou chatbots incapazes de interpretar nuances da dúvida humana, o usuário perde sua principal rede de segurança.

É por isso que adaptar jornadas digitais à população com 60 anos ou mais não deveria ser visto como gesto pontual ou paliativo. Trata-se de reconhecer a sociedade tal como ela é. O estudo “A Estratégia do Ouro Gris“ ajuda a explicitar essa inversão necessária: muitas organizações ainda olham para o envelhecimento como problema, quando deveriam enxergá-lo como variável estrutural do presente.

Mais do que rever interfaces, será preciso rever mentalidades. Isso implica abandonar a ficção do usuário médio e passar a projetar para pessoas reais. Estudos mostram que pequenas alterações técnicas podem reduzir significativamente erros e abandono de tarefas.

No fim, talvez o verdadeiro teste da maturidade digital das empresas brasileiras não esteja em sua capacidade de adotar a tecnologia mais nova, mas em sua disposição de torná-la utilizável para quem envelhece. Persistir em jornadas digitais excludentes é insistir num modelo de desenvolvimento que amplia desigualdades e compromete a relevância. A população 60+ não é exceção. É parte central do presente brasileiro.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que o marketing precisa sair da própria bolha

As grandes ideias raramente surgem da repetição das mesmas referências. Em uma época de acesso democratizado à informação e às tecnologias, o diferencial competitivo passa a ser a qualidade das perguntas que fazemos. Ao refletir sobre arte, cultura e criatividade, o artigo argumenta que as marcas mais inovadoras serão aquelas capazes de formar pessoas que aprendam a observar, conectar e interpretar o mundo de formas que ainda não foram exploradas.

Por que alguns eventos entram para a história e outros são esquecidos na semana seguinte

Por trás dos maiores eventos do mundo existe um trabalho que começa muito antes da abertura dos portões. Leitura de cenário, curadoria estratégica, construção de comunidade e a capacidade de reunir as pessoas certas explicam por que alguns encontros se tornam plataformas de influência, inovação e negócios, enquanto outros permanecem apenas como eventos.

O fim da guerra fiscal: como a Reforma Tributária pode mudar a logística brasileira

Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Saudável, gostoso e acessível: a equação que desafia a indústria de alimentos no Brasil 

Reduzir açúcar, sódio e gorduras sem comprometer sabor, performance culinária e competitividade de preço tornou-se uma das equações mais complexas da indústria de alimentos. O artigo explora como mudanças regulatórias, comportamento do consumidor e inovação tecnológica estão redefinindo estratégias de produto, marketing, cadeia de suprimentos e crescimento no setor de bens de consumo.

A fadiga de decidir em tempos de excesso

Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.

Quanto custa quando o sistema para? Alguns minutos fora do ar podem custar milhões

À medida que organizações se tornam dependentes de ambientes digitais para sustentar suas operações, a indisponibilidade de sistemas passa a representar muito mais do que uma questão técnica. O artigo mostra por que calcular o impacto real de uma falha exige uma visão integrada entre tecnologia, finanças, operação e governança, e como essa análise pode orientar decisões críticas sobre modernização e resiliência dos negócios.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de julho de 2026 08H00
Este artigo propõe uma reflexão sobre por que atenção, presença, pensamento crítico e conexão humana podem se tornar os ativos mais valiosos de uma era cada vez mais dominada pela tecnologia.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

6 minutos min de leitura
Cultura organizacional
30 de julho de 2026 14H00
Tecnologias, processos e estratégias podem mudar rapidamente. O que diferencia organizações resilientes é a capacidade de preservar os princípios que orientam decisões e comportamentos, transformando a cultura em um elemento de coerência em meio à mudança contínua.

Diego Alegre - CEO do Arquipélago "Culturas que transformam"

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de julho de 2026 07H00
A agricultura é uma das grandes forças econômicas do Brasil, mas seus mecanismos de inovação ainda são pouco compreendidos fora do setor. Este artigo parte de uma conversa com Jonas Hipólito, CEO da Biotrop, para observar como ciência, bioinsumos, biodiversidade, dados e competição global começam a redesenhar a próxima etapa da produtividade agrícola.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

21 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
29 de julho de 2026 14H00
Enquanto parte do mercado ainda vê a indústria como “velha economia”, empresas como WEG e John Deere mostram uma realidade diferente: na era da inteligência artificial, o ativo mais valioso pode não ser o algoritmo, mas os dados únicos gerados por ativos físicos que ninguém mais consegue reproduzir.

Átila Persici - COO da Bolder

8 minutos min de leitura
Liderança
29 de julho de 2026 07H00
Embora a presença feminina no mundo do trabalho tenha avançado de forma consistente nas últimas décadas, os desafios permanecem. Neste artigo, a autora propõe uma mudança de perspectiva: menos foco nos obstáculos e mais atenção às alavancas capazes de impulsionar transformações. Entre elas, destaca-se uma competência cada vez mais valiosa em tempos de incerteza: a capacidade de administrar paradoxos e liderar pela lógica do “E”, integrando eficiência e inovação, resultado e cuidado, racionalidade e sensibilidade.

Betania Tanure - PhD, Sócia fundadora da BTA, membro do Conselho de Administração do Magalu e da MRV e cofundadora do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 14H00
Rampas, tecnologias assistivas e conformidade regulatória são apenas o ponto de partida da inclusão. Entre a conformidade técnica e a adoção real existe um elemento frequentemente negligenciado: a cultura. Este artigo explora como a Inteligência Cultural pode determinar o sucesso ou o fracasso de estratégias globais de inclusão.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor e Clara Choen - Fundadora da Savant Consulting

12 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 08H00
Inspirado pelo legado de Oscar Motomura, o artigo questiona uma das crenças mais difundidas da gestão contemporânea: a ideia de que a transformação acontece apenas por meio das pessoas. A verdadeira mudança, argumenta o autor, depende da capacidade de revisar as estruturas invisíveis que moldam comportamentos, decisões e culturas organizacionais.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
27 de julho de 2026 14H00
Após anos de perda de passageiros e desafios financeiros, o transporte coletivo brasileiro ganha um novo marco regulatório que busca ampliar fontes de financiamento, reduzir desequilíbrios tarifários e criar condições para mais investimentos em qualidade, eficiência e experiência do usuário.

Vinicius Ladeira - Diretor Adjunto Nacional do SEST SENAT

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
27 de julho de 2026 08H00
Enquanto o debate sobre inteligência artificial continua concentrado em modelos, automação e produtividade, uma outra transformação acontece nos bastidores: a tensão gerada entre a democratização e a concentração de poder que pode definir a próxima fase da economia global.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

8 minutos min de leitura
Liderança
26 de julho de 2026 13H00
Após décadas em grandes empresas, o autor trocou a segurança da carreira corporativa pelo desafio de empreender na gastronomia. Nesta reflexão, mostra por que os princípios que sustentam uma multinacional - planejamento, processos, gestão financeira e foco no cliente - são exatamente os mesmos que garantem o sucesso de um restaurante.

Caio Fontenelle - Fundador dos restaurantes Figueira, Oliv e Pepper Jack

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo