Cultura organizacional, Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
4 minutos min de leitura

Como o fetiche geracional domina a agenda dos relatórios de tendência

Relatórios de tendências ajudam, mas não explicam tudo. Por exemplo, quando o assunto é comportamento jovem, não dá pra confiar só em categorias genéricas - como “Geração Z”. Por isso, vale refletir sobre como o fetiche geracional pode distorcer decisões estratégicas - e por que entender contextos reais é o que realmente gera valor.
Carol é antropóloga, regional coordinator EPIC - Latam e CO-CEO da Kyvo.

Compartilhar:

É amplamente aceito que entender o comportamento dos mais jovens é um movimento essencial para empresas e organizações que investem em inovação e buscam possibilidades futuras de negócios.

Nesse cenário, os relatórios de tendências emergem como uma das ferramentas privilegiadas de embasamento para tomada de decisões em distintos contextos corporativos. A pesquisa de tendências, por exemplo, busca prever padrões de comportamento futuros a partir da análise das práticas e necessidades atuais dos consumidores ou usuários de produtos e serviços.

Na prática, entretanto, quando o objetivo é identificar tendências que possam embasar ações de valor para o negócio, o que se espera de um relatório de previsões nem sempre corresponde ao que esse tipo de material se propõe a entregar.

Porque a pesquisa de tendências pode ajudar as organizações no mapeamento de determinadas necessidades e valores, isso se for lida como o que de fato é: um material que busca compreender a situação atual do mercado e fazer previsões a partir de um olhar generalista.

O fato é que os relatórios em questão, em sua pretensão universalista, apresentam tendências sem pessoas, análises desencarnadas de relações que são, de fato, mediadas por sujeitos. O resultado é um “fetiche geracional”, ou seja, a atribuição de poderes quase “divinos” ou “sobrenaturais” a categorias geracionais como Geração Z, Millennials ou Baby Boomers. 

Em crítica recente aos métodos utilizados nos relatórios de projeção, o sociólogo e atual head de previsões do Reddit, Matt Klein, aponta que muitos deles apenas repetem palavras-chave já publicadas em relatórios anteriores, ano após ano, apresentando seus resultados como inéditos.

Mas essa crítica não significa abandonar o relatório de tendências como material relevante de apoio ao entendimento de transformações em curso em determinadas realidades. Não. Mas o entendimento de que este apresenta uma visão de mercado global respondendo, ao mesmo tempo, às expectativas localizadas no tempo e no espaço.

Quer um exemplo? Certa vez, um cliente do mercado financeiro procurava identificar tendências que pudessem embasar ações para que se gerasse valor em anos futuros. Sob essa perspectiva, a ideia foi partir de um relatório de tendências e gerações o qual trazia previsões de comportamento e consumo voltadas aos jovens dos Estados Unidos e europeus, marcadas por um universalismo que pouco falava sobre a diversidade e complexidade das vidas reais dos jovens brasileiros.

Nesse caso, percebemos que outros fatores contribuíram mais para os comportamentos e percepções dos clientes. Por exemplo, o momento no ciclo de vida pessoal, a rotina, a renda e a configuração familiar apareceram nos relatos com maior peso nas relações dessas pessoas com as próprias finanças.

Também identificamos que os papéis de gênero impactavam na rotina e no tempo que a pessoa tinha para pensar em si mesma. Por exemplo, enquanto uma mãe aproveitava o tempo “livre” para oferecer a seus filhos um jantar um pouco melhor, um pai da mesma idade aproveitava esse tempo saindo para surfar. As mensagens sobre finanças não impactam essas duas pessoas da mesma forma, a atenção disponível em cada um dos casos era diferente, as percepções sobre “valor alto” também mudaram e isso impactava, por exemplo, decisões sobre usar cartão de crédito ou débito.

Essas distinções não seriam captadas se o cliente analisasse apenas os dados internos e os cruzasse com os estudos geracionais. E esse é um papel importante da pesquisa qualitativa: trazer à tona aspectos relevantes que os números podem mascarar e informar o processo de decisão considerando contextos mais complexos.

Portanto, recorrer ao relatório de tendências como instrumento privilegiado da pesquisa com os usuários é uma realidade cada vez mais comum em um mercado que privilegia a velocidade da entrega à sua qualidade. Podemos, então, a partir de uma análise social, entender os próprios relatórios como uma ferramenta cultural de criação de mundos.

Mas temos que lidar com o reducionismo em pesquisa, qual seja: a imposição de uma determinada linguagem como parâmetro para todas as traduções. É nesse sentido que a imposição de categorias geracionais para falar sobre juventudes de maneira genérica, em qualquer lugar do mundo, pouco ajuda quando desejamos conhecer as práticas e padrões de comportamento de jovens que vivem, consomem e produzem em contextos sociais e culturais específicos. Porque a objetividade resiste à simplificação da análise. Mas o fetiche geracional não.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quando tudo vira conteúdo, o que ainda forma pensamento?

A inteligência artificial resolveu a escala do conteúdo – e, paradoxalmente, tornou a relevância mais rara. Em um mercado saturado de vozes, o diferencial deixa de ser produzir mais e passa a ser ajudar a pensar melhor, por meio de curadoria, experiências e comunidades que realmente transformam.

Fornecedores, riscos e resultados: a nova equação da competitividade

Em um mundo em que pandemias, geopolítica, clima e regulações desmontam cadeias de fornecimento inteiras, este artigo mostra por que a gestão de riscos deixou de ser operação e virou sobrevivência – e como empresas que ainda tratam sua cadeia como “custo” estão, na prática, competindo de olhos fechados.

Apartheid climático: Quando a estratégia ESG vira geopolítica

A capitulação da SEC diante das regras climáticas criou dois mundos corporativos: um onde ESG é obrigatório e outro onde é opcional. Para CEOs de multinacionais, isso não é apenas questão regulatória, é o maior dilema estratégico da década. Como liderar empresas globais quando as regras do jogo mudam conforme a geografia?

Cultura organizacional
13 de janeiro de 2026
Remuneração variável não é um benefício extra: é um contrato psicológico que define confiança, engajamento e cultura. Quando mal estruturada, custa caro - e não apenas no caixa

Ivan Cruz - Cofundador da Mereo

5 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Estratégia
12 de janeiro de 2026
Empresas que tratam sucessão como evento, e não como processo, vivem em campanha eleitoral permanente: discursos inflados, pouca estrutura e dependência de salvadores. Em 2026, sua organização vai escolher maturidade ou improviso?

Renato Bagnolesi - CEO da FESA Group

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
9 de janeiro de 2026
Alta performance contínua é uma ilusão corporativa que custa caro: transforma excelência em exaustão e engajamento em sobrecarga. Está na hora de parar de romantizar quem nunca para.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
8 de janeiro de 2026
Diversidade não é jogo de aparências nem disputa por cargos. Empresas que transformam discurso em prática - com inclusão real e estruturas consistentes - não apenas crescem mais, crescem melhor

Giovanna Gregori Pinto - Executiva de RH e fundadora da People Leap

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de janeiro de 2026
E se o maior risco estratégico para 2026 não for uma decisão errada - mas uma boa decisão tomada com base em uma visão de mundo desatualizada?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB – Global Connections

8 minutos min de leitura
Estratégia, ESG
6 de janeiro de 2025
Com a reforma tributária e um cenário econômico mais rigoroso, 2026 será um divisor de águas para PMEs: decisões de preço deixam de ser operacionais e passam a definir a sobrevivência do negócio.

Alexandre Costa - Gerente de Pricing e Inteligência de Mercado

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
5 de janeiro de 2026
Inovar não é sinônimo de começar do zero. A lente da exaptação revela como ideias e recursos existentes podem ser reaproveitados para gerar soluções transformadoras - da biologia às organizações contemporâneas.

Manoel Pimentel - Chief Scientific Officer na The Cynefin Co. Brazil

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Cultura organizacional, Tecnologia & inteligencia artificial
2 de janeiro de 2026
Em 2026, não será a IA nem a velocidade que definirão as empresas líderes - será a inteligência coletiva. Marcas que ignorarem o poder das comunidades femininas e colaborativas ficarão para trás em um mundo que exige empatia, propósito e inovação humanizada

Ana Fontes - Fundadora da Rede Mulher Empreendedora e do Instituto RME. Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU Brasil e Membro do Conselho da Presidência da República - CDESS.

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de janeiro de 2026
O anos de 2026 não será sobre respostas prontas, mas sobre líderes capazes de ler sinais antes do consenso. Sensibilidade estratégica, colaboração intergeracional e habilidades pós-IA serão os verdadeiros diferenciais para quem deseja permanecer relevante.

Glaucia Guarcello - CEO da HSM, Singularity Brazil e Learning Village

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de dezembro de 2025
Segurança da informação não começa na tecnologia, começa no comportamento. Em 2026, treinar pessoas será tão estratégico quanto investir em firewalls - porque um clique errado pode custar a reputação e a sobrevivência do negócio

Bruno Padredi - CEO da B2B Match

2 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...