Estratégia e Execução
Oferecido por:

Como ser um conselheiro eficiente

Especialista da Rotman School que já foi chairman de oito empresas ensina como o trabalho do conselho de administração, e de cada um de seus membros, pode ser melhor

Compartilhar:

> **Saiba mais sobre David R. Beatty**
>
> **Quem é:** professor de gestão de estratégia da Rotman School of Management, ligada à University of Toronto, do Canadá, e diretor de seu Clarkson Centre for Business Ethics and Board Effectiveness.
>
> **Experiência prática:** Beatty participou de conselhos em cerca de 40 organizações em cinco locais diferentes, e foi chairman em oito empresas de capital aberto.

Conselhos de administração representam os acionistas de companhias de capital aberto, validando resultados financeiros, protegendo seus recursos, aconselhando os CEOs. Com grande senso de responsabilidade, dedicação e esforço, cada conselheiro aprende o máximo possível sobre a empresa em questão e contribui com insights e recomendações tão bons quanto aquilo que os diretores-executivos costumam propor, ou ainda melhores. 

No mundo ideal é assim. 

Mas, e no mundo real? Para responder a essa pergunta, cada 

empresa tem de checar se conta com “acionistas ativistas”. Quando os conselhos fazem bem seu trabalho, não há oportunidades para ativismo. Quando não fazem,  há. Para David Beatty, da Rotman School of Management, que estuda a eficácia dos boards, o ativismo dos acionistas e investidores  tem crescido bastante no mundo, e isso significa, sem dúvida, que os conselhos estão indo mal. 

Nesta entrevista, o especialista discute em detalhes o papel dos boards em orientar e supervisionar companhias de capital aberto, discorre sobre governança em empresas familiares, oferece recomendações para os conselheiros e os três Ts que eles devem dominar e compartilha sua ideia sobre a importante participação de diretores-financeiros para destravar o desempenho dos boards.

**Os conselhos têm mudado seu jeito de ser?**

Sim. Sinceramente, costumávamos ser bem preguiçosos. Os conselhos costumavam ser vistos como “recompensa” por serviços prestados. Eram inchados em número de membros e com frequência negligentes no desempenho de suas tarefas. 

Isso acabou – em parte, devido a circunstâncias externas, como os tombos que aconteceram no mercado de capitais. Há uma noção cada vez maior de que os conselhos têm de ser menores, trabalhar mais e ser mais especializados. E que precisam ser capazes de engajar seus membros para fazer um bom trabalho. 

Um estudo que vi afirmava que conselheiros de empresas listadas no índice S&P 500 [da Bolsa de Nova York] passavam uma média de 240 horas por ano dedicados a essa função, por empresa. Isso inclui tempo gasto em casa estudando, tempo atuando em comitês e tempo em reuniões do conselho propriamente ditas. É pouco. Hoje, esse número deveria ser no mínimo 50% maior – e, se um conselheiro potencial não consegue dispor de 300 a 350 horas por ano para isso, não deveria nem pensar em assumir o trabalho.

Imagine: mesmo 300 horas anuais são pouco tempo se comparadas às cerca de 3 mil horas que cada membro da equipe de gestão devota a seu trabalho – e a maioria desses executivos já passou a vida toda trabalhando no setor em foco. Por isso, um conselheiro, mesmo que seja muito talentoso e que trabalhe duro, poucas vezes é capaz de agregar valor ao que uma equipe de gestão experiente já faz no dia a dia dos negócios. Além de cumprir as funções de fiscalizar e supervisionar, o único aspecto em que os conselheiros realmente conseguem agregar valor é ao oferecer um ponto de vista diferente sobre o ambiente competitivo e as mudanças nesse ambiente. 

Aí é que entra o tino de negócios geral de um conselheiro para ajudar a diretoria-executiva a pensar a estratégia e os objetivos específicos em três a cinco anos para a frente. É aí que os membros de um conselho de administração têm chances reais de fazer a diferença.

**Na média, quão bem os conselhos estão se saindo nas grandes companhias?**

Não muito bem. Veja a longa lista de desempenhos péssimos no início deste século e o colapso do setor financeiro em 2008, que destruiu US$ 1,2 bilhão em valor para o acionista. A gente precisa se perguntar: “Onde estavam os conselheiros?” 

Conselhos de companhias de capital aberto têm se saído tão mal, que houve um crescimento enorme do ativismo dos acionistas nas empresas. Não é incomum hoje ver um CEO assumir o controle da agenda e ser reticente quanto ao valor potencial que o conselho pode agregar ao negócio. 

**O que pode ser feito para mudar isso?**

Na verdade, acho que diretores-financeiros podem ter um papel importante nisso. Eles têm a habilidade singular de destravar o potencial do conselho – sabem os números, entendem o negócio e vivem com a equipe de alta gestão, mas não se sentem donos do negócio da mesma maneira que os gestores operacionais. 

Um diretor-financeiro, além disso, está em uma posição única para trabalhar com outros executivos C-level, ajudando-os a entender do que o conselho precisa para ser mais efetivo.

**Como você vê o papel do presidente do conselho?**

O maestro da Boston Philharmonic Orchestra Benjamin Zander certa vez contou que, aos 45 anos de idade, descobriu ser a única pessoa no palco a não emitir sons. Seu trabalho, percebeu, era “apenas” criar coisas incríveis com os talentos individuais que estavam a sua frente. Essa é uma ótima descrição do trabalho de um chairman: trazer à tona o melhor dos talentos sentados à mesa na reunião do conselho, tanto os conselheiros como os executivos. 

Um chairman é responsável por três Ts: reunir indivíduos com a combinação certa de talentos (o primeiro T), usando seu tempo (o segundo T) para obter o melhor efeito possível, e garantindo que o tom geral (o terceiro T) seja aberto, transparente e produtivo.

Talento e tempo são componentes relativamente fáceis da tarefa do presidente do board. A parte difícil é o terceiro “T”, do tom, algo difícil de sentir e de administrar. O tom se divide em dois subcomponentes: confiança e tensão. Tem de haver confiança em torno da mesa do conselho, entre os membros, e tem de haver confiança entre o conselho e a diretoria-executiva. 

Ao mesmo tempo, tem de haver certa tensão entre o conselho e o CEO, e entre o CEO e seu time executivo, uma vez que eles têm trabalhos diferentes a fazer. O chairman deve garantir que todos se afinem para tocar bem.

**Por falar em tensão, o sr. acha que um CEO pode ser chairman?**

Definitivamente, não. Não consigo ver qualquer desculpa para essa prática. A explicação é que a mesma pessoa não pode fazer as duas tarefas; é difícil demais para a raposa supervisionar o galinheiro. E esse tipo de problema pode se agravar se o CEO colocar outros amigos e colegas próximos para compor o conselho, pessoas que sempre concordam com ele.

Nos Estados Unidos, por exemplo, não vejo essa prática mudando tão cedo, mas há alternativas: um conselheiro-líder, por exemplo, com pulso firme, pode assumir o controle da situação e garantir que, ao longo do tempo, o conselho seja independente da gestão. Mas é um trabalho ainda mais difícil do que já é o trabalho usual. 

Então, se esse conselheiro-líder fez tudo o que podia fazer e não conseguiu estabelecer uma interface efetiva aberta, transparente e criativa entre o conselho e a gestão, ele deve renunciar. Eu, por exemplo, já fiz isso em um conselho em que o CEO era o chairman.

**Por quanto tempo os conselheiros devem servir a um conselho de administração?**

É muito difícil se livrar dos conselheiros, então sou definitivamente a favor de mandatos limitados, qualquer que seja o custo disso. Por exemplo, o Reino Unido decidiu que, em empresas de capital aberto, nove anos são suficientes; eles podem estender isso a 12, mas a partir de nove anos um conselheiro já não pode integrar os comitês de auditoria, contratações ou remuneração. Assim, sua utilidade real cai para cerca de 60%, e ele costuma sair.

Isso também traz à tona a questão das avaliações do conselho. Essa é uma prática que cresceu ao longo da década passada – os conselhos formalmente se sentam juntos e se avaliam. A avaliação pode ser feita em conversas um a um e/ou por escrito. É possível conduzi-la só internamente ou com especialistas externos. 

Quando sou o presidente do conselho de uma empresa, tendo a alternar avaliações no papel e conversas um a um. Todo ano, sento-me com cada conselheiro e percorro uma agenda extensa de perguntas sobre os três Ts: o talento do conselho, o uso do tempo e o tom. Sempre no segundo ano, complemento isso com um questionário de seis páginas que pergunta a cada um em mais detalhes sobre o funcionamento do conselho. Peço que uma terceira pessoa leia as respostas e as repasse diretamente ao comitê de governança, para que qualquer crítica do presidente do conselho também possa ser incluída nos resultados. 

Também há as avaliações por pares, que não são muito comuns nos conselhos, e podem ser problemáticas. Quando sou presidente do conselho, não uso avaliações por pares. Mas seu propósito básico é bom: uma avaliação aberta e sincera dos colegas em relação a certos padrões de desempenho. A avaliação por pares é para ser útil aos indivíduos, não danosa. 

Confio mais no contato contínuo com meus colegas conselheiros. Se alguém está com mau desempenho, é função do presidente do conselho identificar isso, buscar ajuda dos conselheiros mais experientes e agir. Como chairman, pedi a duas pessoas que deixassem conselhos, e é uma tarefa ingrata. Mas, nos dois casos, senti que os benefícios da continuidade das pessoas seriam suplantados pelos custos potenciais. 

**Como um conselho de administração pode determinar se a equipe executiva da empresa está fazendo os trade-offs certos entre desempenho de curto prazo e saúde de longo prazo?**

Esse é outro tópico que eu, como conselheiro, levantaria com o chairman durante reuniões fechadas. Pergunte: “Alguém mais acha que as decisões de investimento estavam sendo tomadas mais do ponto de vista do preço da ação nos próximos seis meses do que quanto aos interesses de longo e médio prazo da empresa?” Só colocar isso como tópico de discussão pode ser uma ferramenta muito poderosa.

No Canadá, e em muitos países, empresas de capital aberto com controle familiar têm resultado significativamente melhor em relação ao resto do mercado. Instintivamente, elas têm um horizonte de investimento mais longo – afinal, você não investe na educação de seus filhos para o próximo trimestre, não é? CEOs de empresas familiares pensam em prazos maiores do que os CEO que vêm de fora e ganham opções de ações. A duração média no cargo de um CEO profissional nos EUA é de cinco anos – como ele não vai pensar em prazos mais curtos?

Felizmente, a maioria dos países ainda tem predomínio de empresas familiares e de CEOs que fizeram carreira na organização. 

_© Rotman Management_

_Editado com autorização da Rotman School of Management, da University of Toronto. Todos os direitos reservados._

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que você deve reconsiderar a rota enquanto ela ainda funciona

Poucos elementos são tão perigosos quanto um sistema que parece funcionar bem o suficiente para não ser questionado. No universo das parcerias, resultados de curto prazo podem mascarar desalinhamentos estratégicos, limitações de escala e modelos que já não atendem às necessidades futuras da empresa.

Diversidade não é tendência. É teste de autenticidade.

Dados recentes mostram uma queda significativa na representação de grupos historicamente sub-representados na comunicação das empresas. Mais do que uma questão de imagem, a mudança reacende discussões sobre consistência, coragem institucional e a capacidade das marcas de sustentar seus valores quando eles deixam de ser consenso.

O que o gestor intermediário recebe, além da cobrança?

Lideranças são constantemente cobradas a desenvolver equipes engajadas, seguras e resilientes. Mas o que acontece quando elas recebem a responsabilidade pela mudança sem tempo, recursos ou autonomia para promovê-la? Uma reflexão sobre o limite entre responsabilidade individual e responsabilidade organizacional.

Headless: a empresa precisa funcionar fora da própria tela

Conversar com um assistente para resolver uma demanda parece simples para o usuário. Para as organizações, porém, isso exige uma transformação muito mais profunda: explicitar processos, organizar capacidades de negócio e construir uma arquitetura capaz de conectar intenção, decisão e execução de forma confiável. É nesse encontro entre inteligência artificial e arquitetura headless que surge uma nova lógica para o futuro das operações empresariais.

Vendas, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de agosto de 2026 18H00
A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

Carol Manciola - CEO da Conectas

Oferecido por:
6 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
27 de agosto de 2026 15H00
Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
27 de agosto de 2026 08H00
O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

Jefferson Nesello - Cofundador & Managing Partner na Zaxo M&A Partners e Conselheiro de Empresas

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
26 de agosto de 2026 14H00
A norma exige que as empresas avaliem fatores como jornada, ritmo, metas, autonomia e organização do trabalho. Em nenhum momento a NR-1 fala sobre diagnósticos individuais. Ainda assim, grande parte das organizações respondeu com pesquisas de saúde mental e mapeamentos de sintomas. Agora, com a suspensão temporária das multas pelo STF até setembro, surge uma oportunidade rara: abandonar as respostas equivocadas e voltar à pergunta original que a norma sempre fez sobre o trabalho, e não sobre as pessoas.

Claudia Cavallini - Psicóloga, psicanalista e professora convidada da HSM

Oferecido por:
8 minutos min de leitura
Marketing & growth, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de agosto de 2026 08H00
Freelancers, consultores, creators e pequenas agências estão redesenhando a lógica de crescimento no marketing digital. Em vez de ampliar estruturas, apostam em tecnologia para expandir capacidade, ganhar eficiência e aumentar resultados. O desafio agora não é apenas fazer mais em menos tempo, mas construir operações capazes de escalar com inteligência, previsibilidade e qualidade.

Renan Caixeiro - Cofundador e CMO do Reportei

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
25 de agosto de 2026 14H00
O artigo mostra que inovação não é um destino nem um grande projeto isolado, mas um processo contínuo de testar hipóteses, aprender com evidências e evoluir com intenção estratégica.

Thomas Rebergue - Chief Business Officer da GINGA

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
25 de agosto de 2026 08H00
O artigo demonstra que a criatividade deixa de ser atributo exclusivo da inovação e passa a ocupar um papel central na capacidade das organizações de compreender problemas complexos e construir soluções que gerem valor no longo prazo.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up, futurista e especialista em sustentabilidade e live marketing.

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Marketing & growth, User Experience, UX
24 de agosto de 2026 14H00
A antiga disputa entre e-commerce e lojas físicas perdeu sentido. O consumidor atual transita naturalmente entre ambientes digitais e presenciais, esperando uma experiência única, integrada e sem atritos. O artigo mostra por que o sucesso no varejo já não depende da força de um canal específico, mas da capacidade de conectar dados, tecnologia, atendimento e conveniência para construir jornadas fluidas e relevantes em todos os pontos de contato com a marca.

André Seibel - CEO do Circuito de Compras

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
24 de agosto de 2026 08H00
Existe uma crença silenciosa nas empresas de que profissionais experientes precisam ter opinião sobre tudo e discordar de quase todos. O problema é que posicionamento não é sinônimo de oposição. Neste artigo, o autor provoca uma reflexão sobre como a necessidade de marcar território pode comprometer relacionamentos, confiança e crescimento na carreira, e por que profissionais verdadeiramente influentes são aqueles que contribuem para a qualidade das decisões, independentemente de quem trouxe a ideia para a mesa.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento Empresarial

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Inovação & estratégia
23 de agosto de 2026 13H00
As grandes ideias raramente surgem da repetição das mesmas referências. Em uma época de acesso democratizado à informação e às tecnologias, o diferencial competitivo passa a ser a qualidade das perguntas que fazemos. Ao refletir sobre arte, cultura e criatividade, o artigo argumenta que as marcas mais inovadoras serão aquelas capazes de formar pessoas que aprendam a observar, conectar e interpretar o mundo de formas que ainda não foram exploradas.

Rui Piranda - Sócio-fundador da ForALL

Oferecido por:
4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução