Inovação & estratégia
5 minutos min de leitura

Confiar decisões clínicas aos algoritmos exige mais do que tecnologia

Entre a inovação e o risco, este artigo discute até onde se deve confiar na IA dentro do contexto clínico. A tecnologia, sem dúvidas, amplia capacidades, mas ainda depende de dados de qualidade, supervisão humana e confiança para cumprir seu potencial.
Diretora da unidade Healthcare da Interplayers, hub de negócios da saúde e bem-estar, reconhecida por suas iniciativas disruptivas e tecnologia de ponta.

Compartilhar:

Por anos trabalhando na interseção entre saúde e tecnologia, convivi com uma pergunta recorrente: a IA teria espaço na saúde? Hoje, essa questão já foi respondida pela prática. O que ouço de clientes, parceiros e profissionais do setor é outra coisa: até onde podemos confiar nela?

A pergunta muda de forma dependendo de quem a faz. Alguns querem entender o que a IA pode substituir. Outros estão preocupados com os riscos.

A inteligência artificial já faz parte da rotina clínica, organiza prontuários, analisa exames de imagem, alimenta plataformas de telemedicina, responde pacientes em chatbots e apoia condutas médicas. O problema não é mais se ela está presente. É que ainda não decidimos, com clareza, até onde estamos dispostos a confiar nela.

A resposta honesta é: não completamente. E reconhecer isso não é desacreditar a tecnologia, é o contrário. O entusiasmo com a inovação costuma avançar mais rápido do que a maturidade estrutural, regulatória e cultural necessária para sustentá-la com segurança. Na saúde, esse descompasso tem consequências reais.

Diferente de outros setores, aqui os erros não significam apenas perda financeira ou falha operacional. Significam impacto direto na vida das pessoas. Uma recomendação equivocada, um viés algorítmico não identificado ou uma interpretação incorreta de dados podem comprometer diagnósticos, atrasar tratamentos e gerar danos irreversíveis.

O paradoxo é que a IA tem potencial justamente para reduzir parte dessas vulnerabilidades. Uma pesquisa do Medscape com mais de 1.200 médicos brasileiros mostra que 52% acreditam que ela pode diminuir erros clínicos, graças à capacidade de processar grandes volumes de dados com rapidez e precisão. Em radiologia e diagnóstico por imagem, 39% dos médicos já reconhecem benefícios concretos.

Mas o mesmo levantamento traz um contraponto importante: 83% consideram que há alta probabilidade de pacientes receberem informações incorretas ao usar IA para autodiagnóstico sem supervisão médica. O receio é legítimo. A tecnologia está ocupando um espaço de autoridade que ainda não está completamente preparada para assumir sozinha.

Esse é o ponto central do debate. A IA funciona melhor como ferramenta de apoio do que como substituta da decisão clínica. O algoritmo identifica padrões invisíveis ao olhar humano, correlaciona milhões de informações em segundos, sugere hipóteses com velocidade impressionante. Mas ele não lê contexto emocional, não percebe vulnerabilidade social, não interpreta nuances comportamentais, dimensões que continuam sendo essenciais no cuidado em saúde.

Há ainda outro limite: a qualidade da IA depende diretamente da qualidade dos dados que a alimentam. E esse permanece um dos maiores gargalos brasileiros. O estudo “Inteligência artificial na saúde”, conduzido pelo Cetic.br em parceria com o Cebrap, aponta que deficiências na integração, padronização e governança de dados são uma das principais barreiras para o avanço da área. Sem bases organizadas e interoperáveis, os algoritmos aprendem de forma limitada, e potencialmente enviesada.

Ao mesmo tempo, o Brasil tem uma oportunidade rara. O SUS é frequentemente citado como diferencial estratégico pela escala e diversidade de suas bases de dados. Poucos países possuem um sistema capaz de gerar informações tão abrangentes sobre uma população tão heterogênea. Bem estruturado, isso poderia colocar o país em posição privilegiada para desenvolver soluções mais precisas e adaptadas à nossa realidade. O problema é que volume de dados não é sinônimo de qualidade. Sem governança sólida, o risco é transformar abundância de informação em desorganização digital, e no setor de saúde, desorganização de dados também é risco clínico.

A isso se soma uma preocupação crescente com segurança cibernética. Segundo o relatório “Cost of a Data Breach” da IBM, o setor de saúde registrou os maiores custos médios de violação de dados no Brasil em 2024, chegando a R$ 10,46 milhões por incidente. Num ambiente cada vez mais digitalizado, proteger informações sensíveis deixou de ser uma questão técnica para se tornar um imperativo ético.

Enquanto isso, o mercado não espera. Os investimentos em healthtechs na América Latina cresceram 37,6% em 2024, alcançando US$ 253,7 milhões, segundo o relatório “HealthTech Recap” do Distrito. A IA está no centro desse movimento, impulsionando startups de gestão clínica, análise de dados, diagnósticos e personalização do cuidado.

Mas conveniência não é confiança. Há uma diferença importante entre usar algoritmos para tornar processos mais eficientes e delegar integralmente decisões clínicas a sistemas automatizados. O debate mais maduro sobre IA na saúde passa exatamente por esse equilíbrio.

O futuro provavelmente se constrói em modelos híbridos: inteligência artificial e inteligência humana atuando de forma complementar. A tecnologia assume tarefas operacionais, análises preditivas e processamento massivo de dados. médicos e profissionais de saúde continuam responsáveis pela interpretação crítica, pela empatia, pela comunicação e pela decisão final.

Para isso, porém, será preciso avançar em regulação, formação médica, educação digital e governança de dados. A pesquisa do Medscape indica que mais da metade dos médicos brasileiros reconhece ter baixo conhecimento sobre IA, embora considere essencial aprender. Não existe adoção segura sem preparo técnico e cultural.

A saúde sempre foi construída sobre confiança: entre médico e paciente, entre instituições e sociedade, entre ciência e cuidado. A inteligência artificial pode fortalecer essa relação, mas somente se for desenvolvida com transparência, supervisão humana e responsabilidade ética.

A discussão sobre IA na saúde deixou de ser apenas tecnológica. Ela agora envolve governança, responsabilidade e, acima de tudo, confiança. A IA pode ajudar a tornar a saúde mais eficiente. Mas somente pessoas serão capazes de mantê-la humana.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A natureza da liderança: o que os patos, as formigas e as árvores podem nos ensinar?

A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza?

Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

RoT ou HoT: a métrica que vai separar os projetos de IA que geram valor dos que apenas consomem orçamento

Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

As empresas não estão tendo resultados com IA. E a culpa é toda delas! 

Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Nem todo problema precisa de inteligência artificial

A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
7 de agosto de 2026 14H00
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de agosto de 2026 09H00
Programas de startups, laboratórios de inovação e investimentos em inteligência artificial tornaram-se comuns nas grandes organizações. O problema é que poucas conseguem transformar experimentação em resultado de negócio. O artigo discute como estruturar processos que convertam conhecimento externo em decisões estratégicas capazes de gerar crescimento, adaptação e vantagem competitiva.

Roberta Barros - Gerente de Strategy, Innovation & Ventures na Deloitte.

7 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
6 de agosto de 2026 17H00
Tarifas, conflitos geopolíticos, rupturas nas cadeias de suprimentos e mudanças regulatórias expõem uma fragilidade comum em muitas organizações: a dependência de um único cenário de futuro. Ao analisar os efeitos recentes do tarifaço sobre produtos brasileiros, o artigo argumenta que a verdadeira vantagem competitiva não está em prever corretamente o próximo choque, mas em construir operações capazes de se adaptar rapidamente a diferentes realidades sem comprometer resultados.

Átila Persici Filho - CINO, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação.

12 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
6 de agosto de 2026 08H00
Trinta e cinco anos após a criação da Lei de Cotas, a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho continua sendo medida principalmente pelo número de contratações. O desafio agora é outro: garantir experiências de trabalho dignas, acessíveis e capazes de promover desenvolvimento, pertencimento e crescimento profissional.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
5 de agosto de 2026 14H00
Promover talentos internos, contratar no mercado ou recorrer a executivos por projeto são decisões cada vez mais frequentes em empresas que crescem e se transformam. Mas a escolha mais importante acontece antes disso: compreender qual problema realmente precisa ser resolvido. O artigo discute por que muitas organizações se concentram em preencher posições rapidamente, quando deveriam dedicar mais tempo a entender a natureza, a duração e a complexidade dos desafios que enfrentam.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
5 de agosto de 2026 08H00
A mobilização que o maior evento esportivo do mundo desperta revelou algo poderoso sobre os brasileiros: nossa capacidade de nos unir em torno de um objetivo comum. Mas por que essa mesma energia raramente se traduz em avanços estruturais para o país?

Laura Jane Pereira de Souza - Administradora de empresas, consultora e mentora

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
4 de agosto de 2026 14H00
O retorno obrigatório ao trabalho presencial tem sido defendido como uma solução para desafios de gestão, colaboração e produtividade. O artigo propõe uma reflexão: organizações de alta performance gerenciam pessoas pela presença ou pelo valor que entregam?

Marta Ferreira

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Estratégia
4 de agosto de 2026 de 2026
Durante um dos maiores congressos de RH do mundo, uma provocação ganhou destaque: o futuro da área não será definido por sua capacidade de justificar sua relevância, mas por demonstrar, com dados e resultados, o impacto que gera para o negócio. Em um cenário marcado por inteligência artificial, novas formas de trabalho e pressão crescente por resultados, o RH é chamado a assumir um papel cada vez mais estratégico.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

3 minutos min de leitura
Liderança
3 de agosto de 2026 14H00
Christopher Nolan levou a Odisseia de volta às conversas contemporâneas. Este artigo aproveita a trajetória de Odisseu para discutir um dos desafios mais invisíveis das organizações: reconhecer quando estratégias que garantiram sobrevivência no passado passaram a limitar confiança, aprendizagem e crescimento no presente.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
3 de agosto de 2026 08H00
Por que relações saudáveis deixaram de ser apenas uma questão de clima organizacional para se tornarem um fator estratégico de competitividade? O artigo mostra como a confiança entre pessoas e áreas influencia diretamente a velocidade de execução dos negócios.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo