Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
4 minutos min de leitura

Contradição corporativa: por que a cocriação falha diante do “comando-e-controle”?

A cultura de cocriação só se consolida quando líderes desapegam do comando-controle e constroem ambientes de confiança, autonomia e valorização da experiência - especialmente do talento sênior.
A Talento Sênior é uma empresa de Talent as a Service, que promove a trabalhabilidade de profissionais 45+ sob demanda. Faz parte do Grupo Talento Incluir e é idealizadora do Hub Sênior para Sênior. Foi finalista do ‘Prêmio Inovação Social da Fundação MAPFRE’, na categoria “Economia Sênior” e é acelerada pela Seniortech Ventures. Foi uma das startups convidadas a participar do Fórum ‘Davos Innovation Week’, sobre inovação em Davos (2024) para apresentar o conceito pioneiro de Talent as a Service (TaaS) na contratação de profissionais maduros.
Juliana Ramalho é CEO da Talento Sênior - A Talento Sênior é uma empresa de Talent as a Service, que promove a trabalhabilidade de profissionais - e sócia-fundadora da Talento Incluir - um ecossistema da diversidade e inclusão pioneiro no Brasil. Além das operações da consultoria, é responsável por inovação, tecnologia e expansão internacional. Com 20 anos de experiência no mercado financeiro, passou por diversas áreas no banco Santander, incluindo a superintendência de área de estratégia. É formada em engenharia pela Escola Politécnica (USP), pós-graduada pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (USP), MBA internacional na Columbia Business School, em NYC e com Formação Executiva em Mercado da Longevidade pela FGV. Co-autora do livro Economia Prateada — Inovações e oportunidades

Compartilhar:

Vivemos a era do mindset ágil, da inovação aberta e da cocriação. Do CEO ao gestor, todos falam em dar voz à base, em construir soluções em conjunto e em valorizar a diversidade de perspectivas. No entanto, por trás da fachada moderna de post-its e workshops, uma sombra persiste: o comando-e-controle. No momento da pressão, do aperto no orçamento ou de um desafio complexo, a liderança, quase que por reflexo, retorna à sua zona de conforto mais antiga, o controle rígido.

Essa dicotomia entre o discurso de cocriação e a prática de comando-e-controle é o principal freio para a agilidade, o catalisador do “quiet quitting” e o inimigo número um da nova “arquitetura de talentos” que as empresas precisam desesperadamente construir. O problema não está na tecnologia ou no contrato de trabalho, mas no software mental do líder que insiste em tratar o talento como um recurso a ser controlado e não como uma capacidade a ser orquestrada com autonomia.

O modelo de comando-e-controle tem raízes profundas na história industrial e militar. Nesses contextos, o controle rígido era, de fato, a única forma de garantir a produção em massa e a segurança. As antigas regras da CLT, por muito tempo, refletiram essa necessidade protetiva.

Hoje, porém, esse modelo se transformou em uma ‘muleta de gestão’. É infinitamente mais simples para um gestor monitorar o tempo de cadeira e a pontualidade do que se debruçar sobre a complexidade de medir a qualidade e o valor da entrega de cada indivíduo. A jornada fixa e o controle de presença viraram a “desculpa” perfeita para a dificuldade em liderar por metas e confiança.

É esse desencontro entre o contrato de trabalho moderno e a gestão antiga que gera frustração: quando um profissional, sênior ou júnior, domina a automação e entrega seu resultado em menos tempo, o comando-e-controle o penaliza, exigindo o preenchimento de tempo com tarefas irrelevantes. O talento, em vez de ser premiado pela produtividade, é controlado pela “presencialidade”.

A cocriação genuína, por outro lado, exige autonomia, diálogo bidirecional e, acima de tudo, confiança mútua. É o processo de construir soluções em conjunto, em que a experiência do sênior se mistura à agilidade do júnior. A cocriação falha quando é apenas um exercício de relações públicas. O líder convoca a reunião, “ouve” a base, mas a decisão final já está pronta. A equipe percebe rapidamente que sua contribuição foi puramente teatral. O resultado é o cinismo e o desengajamento imediato. O profissional sênior (45+), que tanto precisa ser incluído na chamada Arquitetura de Talento, é a vítima dupla dessa contradição: ele é rejeitado pelo comando-e-controle tradicional, por ser visto como inflexível e caro, e, ao mesmo tempo, sua experiência acumulada é desconsiderada pela cocriação de fachada, pois a liderança resiste a desapegar do controle hierárquico. O resultado é um desperdício silencioso de inteligência que o mercado, faminto por experiência e resultados, não pode mais se dar ao luxo de sustentar.

É aqui que o modelo talento como serviço (TaaS, na sigla em inglês) e o conceito de “trabalhabilidade” entram como o teste de coragem para a liderança. O TaaS é, por definição, incompatível com o comando-e-controle. Você não pode monitorar o horário do “C-level as a service” que está em outro projeto; você só pode monitorar a qualidade e o prazo da entrega.

O líder que contrata um sênior 50+ sob demanda é forçado, pela natureza do contrato, a operar 100% sob o pilar da confiança. O TaaS funciona como um espelho para a gestão: se a empresa consegue gerenciar um talento de alta complexidade em regime sob demanda, baseada apenas em confiança e resultado, por que não aplica essa mesma filosofia ao seu time CLT? O TaaS prova que é possível liderar com foco absoluto em resultados mensuráveis. A Trabalhabilidade, por sua vez, exige que o profissional 45+ seja um extreme learner, com autonomia e foco em gerar valor em diferentes contextos, e o líder que entende a Arquitetura de Talento precisa fornecer o ambiente de confiança para que ele prospere.

O salto da maturidade de uma organização reside na capacidade do líder de desativar o velho software mental do comando-e-controle. Substituí-lo exige apenas duas coisas: clareza estratégica e autonomia dirigida. O líder define o “onde” (a estratégia e o objetivo) com precisão, e a equipe (CLT e TaaS) cocria o “como chegar lá“’”. A cocriação de verdade não é um método; é uma cultura de confiança. A prova de que essa cultura está instalada é a facilidade com que a empresa integra e valoriza a experiência sênior, sob qualquer formato de vínculo. O talento sênior, ao migrar para a liberdade da ”trabalhabilidade” e do TaaS, está nos mostrando o caminho. O futuro do trabalho exige líderes cocriadores e dispostos a desapegar do controle.

Compartilhar:

A Talento Sênior é uma empresa de Talent as a Service, que promove a trabalhabilidade de profissionais 45+ sob demanda. Faz parte do Grupo Talento Incluir e é idealizadora do Hub Sênior para Sênior. Foi finalista do ‘Prêmio Inovação Social da Fundação MAPFRE’, na categoria “Economia Sênior” e é acelerada pela Seniortech Ventures. Foi uma das startups convidadas a participar do Fórum ‘Davos Innovation Week’, sobre inovação em Davos (2024) para apresentar o conceito pioneiro de Talent as a Service (TaaS) na contratação de profissionais maduros.

Artigos relacionados

ESG: uma pauta de sobrevivência empresarial

O ESG deixou de ser uma iniciativa reputacional ou opcional para se tornar uma condição de sobrevivência empresarial, especialmente a partir de 2026, quando exigências regulatórias, como os padrões IFRS S1 e S2, sanções da CVM e acordos internacionais passam a impactar diretamente a operação, o acesso a mercados e ao capital. A agenda ESG saiu do marketing e entrou no compliance – e isso redefine o que significa gerir um negócio

Inovação virou desculpa para má gestão

Quando a inovação vira justificativa para desorganização, empresas perdem foco, desperdiçam recursos e confundem criatividade com falta de gestão – um risco cada vez mais caro para líderes e negócios.

Inovação & estratégia
24 de janeiro de 2026
Inovação não falha por falta de ideias, mas por falta de métricas - o que não é medido vira entusiasmo; o que é mensurado vira estratégia.

Marina Lima - Gerente de Inovação Aberta da Stellantis para América do Sul

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
23 de janeiro de 2026
Se seus vínculos não te emocionam, talvez você esteja fazendo networking errado. Relações que movem mercados começam com conexões que movem pessoas - sem cálculo, sem protocolo, só intenção genuína.

Laís Macedo - Presidente do Future Is Now

3 minutos min de leitura
Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
22 de janeiro de 2026
Se a IA sabe mais do que você, qual é o seu papel como líder? A resposta não está em competir com algoritmos, mas em redefinir o que significa liderar em um mundo onde informação não é poder - decisão é.

João Roncati - CEO da People+Strategy

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de janeiro de 2026
Como o mercado está revendo métricas para entregar resultados no presente e valor no futuro?

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

5 minutos min de leitura
Inovação
20 de janeiro 2026
O volume e a previsibilidade dos instrumentos de fomento à inovação como financiamentos, recursos de subvenção econômica e incentivos fiscais aumentaram consideravelmente nos últimos anos e em 2026 a perspectiva é de novos recordes de liberações e projetos aprovados. Fomento para inovação é uma estratégia que, quando bem utilizada, reduz o custo da inovação, viabiliza iniciativas de maior risco tecnológico, ajuda a escalar e encurtar o tempo para geração de valor dos projetos.

Eline Casasola - CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89 empresas

5 minutos min de leitura
Liderança
19 de janeiro de 2026
A COP 30 expôs um paradoxo gritante: temos dados e tecnologia em abundância, mas carecemos da consciência para usá-los. Se a agenda climática deixou de ser ambiental para se tornar existencial, por que ainda tratamos espiritualidade corporativa como tabu?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

7 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
17 de janeiro de 2026
Falar em ‘epidemia de Burnout’ virou o álibi perfeito: responsabiliza empresas, alimenta fundos públicos e poupa o Estado de encarar o verdadeiro colapso social que adoece o país. O que falta não é diagnóstico - é coragem para dizer de onde vem o problema

Dr. Glauco Callia - Médico, CEO e fundador da Zenith

7 minutos min de leitura
Liderança, ESG
16 de janeiro de 2026
No início de 2026, mais do que otimismo, precisamos de esperança ativa - o ‘esperançar’ de Paulo Freire. Lideranças que acolhem perdas, profissionais que transformam desafios em movimento e organizações que apostam na criação de futuros melhores, um dia de cada vez.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
15 de janeiro de 2026
A jornada de venda B2B deve incluir geração de demanda inteligente, excelência no processo de discovery e investimento em sucesso do cliente.

Rafael Silva - Head de parcerias e alianças da Lecom

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG
14 de janeiro de 2026
Cumprir cotas não é inclusão: a nova pesquisa "Radar da Inclusão" revela barreiras invisíveis que bloqueiam carreiras e expõe a urgência de transformar diversidade em acessibilidade, protagonismo e segurança psicológica.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança