Durante décadas, a inovação no setor automotivo foi assunto de portas fechadas. O desenvolvimento de novos produtos ficava concentrado em centros de engenharia restritos, com foco na eficiência mecânica e no desempenho de cada veículo isoladamente. A convergência entre eletrificação, conectividade e direção autônoma mudou essa equação. Hoje, o veículo inteligente soma novas camadas de tecnologia ao conjunto mecânico e eletrônico, e o desafio deixou de estar só dentro dele: passou a incluir a forma como ele se relaciona com a cidade ao seu redor.
Pense no trânsito de uma grande capital brasileira e coloque nele um caminhão elétrico, silencioso por natureza e equipado com recursos semiautônomos. A convivência na via muda. Pedestres, ciclistas e motoristas perdem referências com as quais sempre contaram, como o ronco do motor ou o contato visual com quem está ao volante em certas manobras. Para quem lidera o setor, a pergunta estratégica passa a ser outra: como fazer essa frota se comunicar com segurança e de forma intuitiva, sem impor a quem divide a rua uma carga de estímulos e sinais que as pessoas ainda não estão acostumadas a interpretar?
Do problema humano à validação tecnológica
Responder a dilemas dessa complexidade exige sair do isolamento corporativo, como podemos observar na pesquisa conduzida para Volkswagen Caminhões e Ônibus (VWCO) através da parceria entre o VoxarLabs (UFPE), a EyeFlow, startup especializada em visão computacional, e o CESAR, centro de inovação sediado no Porto Digital (Recife), com fomento da Embrapii.
O objetivo da iniciativa foi conceber interfaces externas distribuídas e apoiadas por visão computacional, Inteligência Artificial e comunicação V2V (vehicle-to-vehicle) e V2X (vehicle-to-everything), capazes de tornar a operação de caminhões elétricos e autônomos mais previsível e amigável nas cidades. O ponto de partida foi, justamente, a escuta ativa de pedestres, ciclistas e motoristas para mapear percepções e receios reais no trânsito. Com o uso de IA na análise de dados e na modelagem de cenários, a equipe multidisciplinar desenvolveu protótipos conceituais validados por especialistas, ainda em níveis mais baixos do TRL 4, em que as interfaces são simuladas em ambientes digitais que mimetizam a rua. O ganho tangível para o gestor de inovação é a mitigação de risco do investimento ao validar a usabilidade e a segurança humana antes da escala industrial.
Equação estratégica e financeira do trabalho em rede
Esse movimento reflete uma mudança estrutural na tomada de decisão das montadoras e sistemistas. Nenhuma corporação detém, sozinha, a agilidade de uma startup de nicho, o rigor metodológico de um Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT) e o domínio de todas as tecnologias emergentes. Ao conectar-se a um ecossistema maduro, a indústria compartilha riscos técnicos e acelera seu time-to-market.
Especificamente no cenário brasileiro de pesquisa, a articulação de instrumentos como a Embrapii e o programa MOVER (Mobilidade Verde e Inovação), enquanto alavanca financeira decisiva nessa arquitetura, criou condições concretas para viabilizar PD&I de alta complexidade. Quando bem gerida em rede, uma pesquisa exploratória destrava avenidas de longo prazo, e, na própria colaboração com a VWCO, a confiança construída na etapa conceitual impulsionou a estruturação de novos projetos conjuntos.
Imersão como ferramenta de gestão
Para que essa engrenagem funcione, contudo, a alta liderança precisa encurtar a distância entre os centros decisórios tradicionais e os polos onde a experimentação acontece na prática. É com esse propósito que iniciativas como o Innovation Journey ganham espaço estratégico na agenda de executivos de todo o país, inclusive em trilhas dedicadas junto ao Hub de Mobilidade. A frente criada por CESAR, Learning Village e Automotive Business busca fortalecer esse ecossistema dinâmico de colaboração entre grandes empresas, startups e pesquisadores, desenhando soluções inovadoras e discutindo avanços significativos para o setor.
Ao abrir as portas para imersões presenciais de ecossistemas como o do Porto Digital, que integra mais de 500 empresas e instituições no centro histórico do Recife, cria-se uma ponte direta entre estratégia e execução. Nessas jornadas, tomadores de decisão saem das salas de reunião para dialogar diretamentecom pesquisadores de IA, designers, cientistas de dados e empreendedores que já estão testando as soluções da próxima década.
Para os líderes que conduzem a transformação da mobilidade, o aprendizado central é que as soluções de inovação que sobrevivem ao teste do asfalto e se desdobram em novas iniciativas são ativos que não se compram prontos na prateleira.. Isso porque tal inovação resulta, justamente, da capacidade de orquestrar ecossistemas abertos, alavancar mecanismos de fomento com inteligência e manter as pessoas no centro de cada decisão tecnológica, independentemente de elas estarem dentro ou fora dos veículos.




