Estratégia, Liderança
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Da mesa do bar à sala do CEO: Quando geopolítica vira assunto corporativo sério

O bar já entendeu que o mundo virou parte do jogo corporativo. Conflitos, tarifas e decisões políticas estão impactando negócios em tempo real. A pergunta é: o CEO entendeu ou ainda acha que isso é “assunto de diplomata”?
Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Palestrante, Mentor, Conselheiro, Membro da Comissão de Tecnologia do movimento 30% Club Brazil, Embaixador da Board Academy BR, Colunista da HSM Management e da Revista RI e Especialista do Gerson Lehrman Group e da Coleman Research.

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A cerveja está na mesa, a resenha está animada. Entre uma piada e um meme político, alguém solta:
— “Você viu que o Trump quer taxar o Brasil de novo?”

Outro emenda:

— “Como é que vão fazer uma COP em Belém, sem aeroporto decente?”

E mais um fecha o giro:

— “Se a China invadir Taiwan, ferrou até com o preço do seu iPhone.”

O bar já entendeu: o mundo virou um tabuleiro hiperconectado, e cada jogada feita a milhares de quilômetros tem impacto direto aqui, no bolso, na logística, no clima e, sim, nos negócios.

Enquanto isso, em algumas salas de diretoria, o PowerPoint segue com previsões de margem, projeções de ROI, e eventualmente uma “análise de riscos regulatórios” tímida no rodapé da apresentação.

Mas a verdade é uma só: se a geopolítica já chegou à mesa do bar, ela não pode mais faltar na mesa do CEO.

Tarifas, conflitos, cortes de investimento, instabilidade institucional, decisões judiciais de alto impacto, acordos climáticos internacionais. Nada disso é periférico. Tudo isso influencia diretamente decisões de negócio, estratégias de expansão, reputação de marca e confiança dos investidores.

A pergunta é: você, como líder, já está pensando como diplomata? Porque o mundo está exigindo mais do que uma boa leitura de balanços. Ele está cobrando visão de contexto. E contexto, hoje, é global.

Geopolítica deixou de ser “tema técnico”, agora, é sobrevivência executiva

Durante muito tempo, geopolítica foi tratada como um item de rodapé nos relatórios estratégicos. Um fator externo, uma variável para o time de relações institucionais ou um gráfico em apresentações de economistas convidados. O tipo de assunto que circulava nos fóruns de Davos e raramente entrava no comitê de investimento da empresa.

Mas esse tempo acabou.

Hoje, a velocidade com que decisões políticas e eventos globais interferem no ambiente de negócios é brutal. A guerra na Ucrânia alterou cadeias logísticas inteiras, o Mar Vermelho virou zona de risco para exportadores e as sanções cruzadas entre EUA, Europa e China mudaram o jogo da tecnologia global. E o recente tarifaço de Donald Trump contra produtos brasileiros, em pleno ano eleitoral, foi mais do que um gesto protecionista. Foi um golpe direto em setores inteiros da nossa economia. Isso impacta contratos, projeções e até bônus executivo.

Mas não é só lá fora.

No Brasil, instabilidade institucional, ataques ao STF, polarização crônica e ciclos de insegurança jurídica passaram a afetar diretamente o custo do capital, a reputação das empresas e o humor dos investidores. Um voto de um ministro pode valer mais que um trimestre inteiro de EBITDA.

Esse é o ponto: o mundo virou uma variável de negócio, e não dá mais para tratá-lo como ruído.

Geopolítica não é papo de analista internacional. É conversa de CEO. Ela define o timing da expansão, o apetite do investidor, o discurso da marca e até o turnover dos talentos.

Liderar hoje não é só desenhar estratégias. É saber onde e com quem você está jogando o jogo.

Não se envolver é se envolver (mal)

A ideia de que a empresa deve se manter neutra diante de temas políticos e institucionais parece confortável. Muitos líderes ainda repetem, quase como mantra, que “não se envolvem com política”. Mas em 2026, essa neutralidade é mais ilusória do que segura. E pode, inclusive, ser perigosa.

No mundo atual, a ausência de posicionamento já é um posicionamento. E, muitas vezes, é lido como conivência, omissão ou fraqueza. Em crises reputacionais, institucionais ou sociais, o silêncio corporativo se amplifica mais rápido do que qualquer pronunciamento. E o mercado percebe.

Tomemos como exemplo os episódios recentes de tensão institucional no Brasil. Ataques ao STF, tentativas de deslegitimação do processo democrático, pressões sobre o sistema eleitoral. Tudo isso afetou diretamente a percepção de risco do país, e por consequência, o humor dos investidores, os ratings de crédito, o câmbio e o apetite de capital estrangeiro. Empresas que dependem de financiamento, operam em setores regulados ou lidam com investidores internacionais sentem esses efeitos antes mesmo de os indicadores refletirem.

No cenário global, a lógica se repete. Marcas que se mantiveram neutras diante da guerra na Ucrânia foram retiradas de índices ESG. Organizações que se omitiram diante de sanções ambientais ou violações de direitos humanos viram sua reputação escorrer pelos dedos em tempo real.

Empresas que ainda acreditam que podem “ficar fora da briga” talvez não tenham percebido que a briga já bateu à porta. E nesse jogo, não jogar é o pior movimento.

Ser apartidário não é o mesmo que ser apático. Ser técnico não é ser cego. E ser estratégico, hoje, inclui a capacidade de avaliar quando e como se posicionar diante do cenário político-institucional.

O mercado já entendeu. A sociedade também. Agora só falta a liderança assumir o papel que lhe cabe.

CEOs precisam ler o mundo com o mesmo rigor com que leem balanços

Ler balanço é obrigação. Ler o mundo virou diferencial competitivo.

O líder empresarial de 2025 não pode mais operar com radar curto, olhando apenas para o cenário macroeconômico doméstico e os KPIs trimestrais. Ele precisa entender o impacto de uma eleição nos Estados Unidos, de uma tensão diplomática entre China e Europa, de uma decisão da ONU sobre clima ou de um levante popular em algum país sul-americano. Porque tudo isso, hoje, interfere diretamente no planejamento, na reputação e até na continuidade de negócios.

A liderança contemporânea exige repertório geopolítico. Não se trata de virar um especialista em relações internacionais, mas de compreender o contexto em que a empresa está inserida e, principalmente, onde ela pretende operar. O mercado está interligado. O risco regulatório de um país afeta o valuation de uma companhia em outro. Uma decisão diplomática pode suspender um contrato bilionário. E uma pauta climática pode redefinir os investimentos em toda uma cadeia produtiva.

Empresas que conseguem antecipar movimentos geopolíticos têm uma vantagem clara. Elas ajustam suas estratégias antes dos impactos chegarem. Elas protegem reputação, preservam margem e se comunicam com mais clareza diante dos stakeholders. Elas leem o cenário com profundidade e reagem com sofisticação.

Por outro lado, empresas que mantêm uma visão técnica e limitada da gestão continuam operando como se o mundo fosse uma planilha previsível. Não é. E não voltará a ser.

A responsabilidade está nas mãos de quem lidera. CEOs, founders, conselheiros e executivos C-Level não são apenas gestores de metas. São tradutores de complexidade. E hoje, a complexidade é global.

Quem não entende isso corre o risco de ficar excelente… no modelo errado de liderança.

ESG, reputação e coerência: está tudo conectado

Não existe mais espaço para ESG sem coerência institucional. A sigla, que ganhou protagonismo nos últimos anos, agora está sob pressão. Já não basta declarar compromissos ambientais, promover ações sociais pontuais ou adotar boas práticas internas de governança. O mercado quer consistência. E quer agora.

O “G” de governança deixou de ser uma estrutura de comitês bem organizados. Ele passou a ser o reflexo da postura institucional da empresa diante do ambiente democrático, regulatório e reputacional em que está inserida. Em outras palavras, não há ESG que se sustente em um país onde o Estado de Direito é atacado, e a empresa escolhe assistir em silêncio.

O mesmo vale para questões climáticas. A COP30, que foi realizada no Brasil, colocou o país, e suas empresas, sob os holofotes do mundo. Foi uma vitrine para a Amazônia, mas também para a precariedade da infraestrutura e para o compromisso real do setor produtivo com a agenda climática. Empresas que usaram o evento apenas para marketing verde, sem ações concretas, correram o risco de protagonizar um ESG-washing em escala global.

Do outro lado, investidores institucionais, agências de rating, fundos internacionais e consumidores já estão conectando os pontos. Eles observam o que a empresa diz, o que a empresa faz e o que ela escolhe não fazer. E estão cada vez menos tolerantes com a incoerência.

Reputação virou ativo financeiro. E coerência, critério de valuation.

Para o CEO, para o conselho e para toda a liderança executiva, o desafio não é apenas fazer ESG de forma técnica. É fazer ESG com coragem, contexto e responsabilidade estratégica. É entender que reputação não se compra com comunicação. Se constrói com escolhas.

O Brasil no palco. Mas com cenário improvisado.

A escolha de Belém como sede da COP30 foi recebida com entusiasmo e orgulho. Finalmente, a Amazônia no centro das discussões globais sobre clima. Finalmente, o Brasil sendo chamado a protagonizar uma agenda de futuro. Tudo certo no discurso. Mas o bastidor contou outra história.

Belém, hoje, não tem aeroporto compatível com a demanda de um evento global. A rede hoteleira segue insuficiente. O saneamento é precário. A mobilidade urbana é um desafio crônico. E a conectividade digital, instável. A cidade sediou uma das maiores conferências do planeta sem ter estrutura para receber nem um fórum regional de tecnologia com segurança. Isso não é crítica à cidade. É exposição de um descaso histórico com uma das regiões mais estratégicas do país.

A COP30 virou, além de palco climático, um espelho. E ele está virado para nós. Refletiu nossas intenções, nossos discursos e, principalmente, nossa capacidade de entrega. O mundo estava observando. Inclusive os investidores, os fundos climáticos, os parceiros comerciais e os veículos internacionais de imprensa.

Para as empresas brasileiras, a COP30 representou mais do que uma oportunidade simbólica. Foi um momento de exposição geopolítica e reputacional em larga escala. E a postura do setor produtivo pode ter sido interpretada como sinal de maturidade estratégica ou ausência dela.

É o tipo de evento que separa quem está pronto para jogar no cenário global de quem ainda acha que governança é uma obrigação burocrática. Não adianta enviar porta-voz para o evento se a cultura da empresa não respira sustentabilidade. Não adianta pintar de verde o LinkedIn se a operação ainda ignora o risco climático e social.

Belém esteve no palco. O Brasil, sob os holofotes. E o mercado quer saber qual o papel da sua empresa nessa história.

Se até o bar já entendeu, o CEO não pode ignorar

A conversa está no bar, no grupo do WhatsApp, no almoço em família e na timeline do investidor. A geopolítica deixou de ser um capítulo distante dos jornais internacionais para se tornar parte da tomada de decisão diária nas empresas. Ela interfere no câmbio, na cadeia de suprimento, no valuation, na reputação e na agenda ESG. Ignorá-la é quase um ato de negação executiva.

A boa notícia é que os líderes mais atentos já perceberam isso. Estão ampliando repertório, incorporando análises geopolíticas aos mapas de risco, fortalecendo a governança institucional e adaptando discursos e decisões a uma realidade muito mais complexa e muito menos previsível.

O jogo agora é outro. Ser técnico é necessário, mas não suficiente. Ser estratégico é fundamental, mas não basta. O CEO de 2026 precisa ser também leitor de mundo. Precisa ter sensibilidade para contexto, coragem para se posicionar e lucidez para entender que não existe negócio sustentável em um ambiente instável.

Se até o bar já entendeu que Trump, STF, COP30 e Taiwan fazem parte do tabuleiro, a liderança executiva não pode continuar tratando esses temas como distrações externas. Eles são parte do jogo. E estão moldando o futuro dos negócios enquanto você lê este texto.

A única pergunta que importa agora é: você vai assistir ao jogo ou vai decidir como sua empresa joga nele?

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Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Palestrante, Mentor, Conselheiro, Membro da Comissão de Tecnologia do movimento 30% Club Brazil, Embaixador da Board Academy BR, Colunista da HSM Management e da Revista RI e Especialista do Gerson Lehrman Group e da Coleman Research.

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