Inteligência coletiva

Desconexão, uma desvantagem competitiva

Ao deixar de nutrir a curiosidade, a capacidade de ouvir o outro e desafiar suas certezas, o indivíduo acaba criando um contexto em que é o maior prejudicado
É sócio da RIA, empresa especializada em construir segurança psicológica em equipes. Criador do PlayGrounded, a Ginástica do Humor, é jornalista (Folha de S.Paulo, Veja, Superinteressante e Vida Simples), foi sócio da consultoria Origami e consultor em branding. Ator e improvisador, integra o grupo Jogo da Cena.

Compartilhar:

Estávamos chegando ao final de um dia cheio de vivências e discussões. O grupo era formado por 20 lideranças de uma mesma organização, reunidas com a intenção de aprender a construir relações de confiança em suas diferentes equipes. No papel de facilitador, abri espaço para quem quisesse falar.

Depois de alguns depoimentos, uma participante (vou chamá-la de Carmen) pediu a palavra e, em um tom emocionado, se disse comovida pelo que fizemos juntos. Disse que, a certa altura, sentiu-se completamente à vontade para se expressar.

“Naquele momento, senti que eu podia fazer o que quisesse, foi uma libertação. Acho que nunca me senti tão livre junto a outras pessoas da empresa.” Algumas pessoas sorriam, ouvindo seu depoimento.

Agradeci e disse que esse era mesmo o propósito do dia: propiciar a experiência concreta de habitar um ambiente seguro. E afirmei que, para mim, relações de confiança significam exatamente aquilo que ela tinha relatado: sentir-se à vontade para contribuir e não se omitir por medo do julgamento dos outros.

Seguiram-se mais alguns depoimentos, e uma outra pessoa (vou chamá-lo de Luiz) pediu a palavra. Começou dizendo que não entendeu para que serviam aquelas atividades que havíamos feito e concluiu afirmando que, para ele, tudo aquilo foi um desperdício de tempo. Vi algumas cabeças se movendo, em concordância. Pelo jeito, outros compartilhavam sua opinião.

Vejo essa dinâmica acontecer com muita frequência em grupos. E enxergo nela mais do que uma simples divergência de opinião. Ao chamar a experiência de “desperdício de tempo”, Luiz simplesmente negou o relato de Carmen, cujo conteúdo não era nada banal: ela havia acabado de se dizer tocada profundamente, como nunca antes, junto àquelas pessoas com quem convive todos os dias.

Centrado em sua própria percepção, Luiz perdeu Carmen de vista. E ignorou o possível valor que aquele espírito de abertura, relatado por ela, poderia trazer para o grupo e para os resultados. Afinal, nosso propósito ali era aprender a construir relações de confiança.

Luiz tomou sua experiência como a única verdade. E com isso desligou sua curiosidade para a experiência alheia, traço fundamental para aprender e construir valor em um ambiente de negócios em permanente transformação.
Os problemas e desafios que o presente e o futuro nos reservam raramente terão soluções cabais, daquelas que eliminam todas as outras hipóteses. A zona cinzenta, cheia de incertezas e ambiguidades, só faz aumentar.

A cada encruzilhada, será bom desviar nossos olhos e ouvidos do próprio umbigo, da própria mente, da própria opinião, para direcioná-los ao outro, a fim de capturar o valor que eu não enxergo. E os perigos que eu não vejo. Em relação a muitos de seus pares naquela sala, Luiz tinha uma desvantagem competitiva.

Coluna publicada na HSM Management nº 154

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quando a tecnologia muda, o legado permanece

Enquanto os ciclos tecnológicos se tornam cada vez mais curtos, organizações enfrentam um desafio permanente: transformar inovação em resultados concretos e que gere valor para o negócio no longo prazo.

Quanto custa perder um cliente?

Uma experiência ruim não gera apenas insatisfação. Ela aumenta custos operacionais, compromete a reputação da marca, reduz receitas futuras e pode encerrar relacionamentos construídos ao longo de anos.

Se o colaborador tóxico sai, o problema vai embora com ele?

Rotular profissionais como tóxicos pode encerrar uma conversa, mas raramente resolve o problema. Ao investigar como comportamentos se formam e se repetem nas organizações, o artigo convida líderes a substituírem julgamentos rápidos por diagnósticos mais profundos e eficazes.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de agosto de 2026 08H00
Enquanto o Congresso debate mudanças na jornada de trabalho, empresas já precisam lidar com uma pergunta prática: como reorganizar pessoas, escalas e recursos sem comprometer produtividade, atendimento e sustentabilidade financeira? Neste cenário, dados, planejamento e governança tornam-se ferramentas essenciais para transformar incerteza regulatória em vantagem competitiva.

Marcelo Gomes - CEO da Nexti

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de agosto de 2026 14H00
Em mercados cada vez mais competitivos, escolher uma máquina apenas pelo menor preço pode significar abrir mão de produtividade, automação e eficiência operacional. O artigo propõe uma mudança de perspectiva: substituir a lógica do custo inicial pela análise do valor que o investimento é capaz de gerar para a empresa ao longo dos anos.

Fábio Kreutzfeld - CEO da Delta Máquinas Têxteis

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de agosto de 2026 08H00
Os profissionais de finanças foram treinados para dominar processos, consolidar informações e produzir análises complexas. Mas, em um mundo onde a inteligência artificial faz isso em segundos, a vantagem competitiva passa a estar em outro lugar: na capacidade de transformar informação em contexto, formular perguntas estratégicas e tomar decisões que nenhuma máquina consegue assumir sozinha.

Talita Braga - Diretora Executiva de Finanças da Infor na América Latina

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
17 de agosto de 2026 18H00
Profissionais maduros seguem acumulando repertório, capacidade de julgamento e conhecimento organizacional, mas frequentemente enfrentam uma perda silenciosa de reconhecimento e pertencimento. Ao abordar o conceito de envelhescência, o artigo discute como profissionais experientes podem perder espaço simbólico mesmo permanecendo altamente qualificados e por que reconhecer, valorizar e integrar o repertório acumulado se tornou um desafio estratégico para empresas que desejam preservar conhecimento, fortalecer a sucessão e construir culturas verdadeiramente intergeracionais.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Finanças
17 de agosto de 2026 14H00
Hiperpersonalização, agentes inteligentes, analytics em tempo real e IA generativa já deixaram de ser tendências isoladas e começam a formar uma nova arquitetura para o setor financeiro. O desafio das lideranças passa a ser transformar essas tecnologias em capacidades organizacionais escaláveis, seguras e conectadas aos objetivos estratégicos do negócio.

Diego Souza - Principal Technical Manager no CESAR, e Maria Tereza Nagel - Gerente de Projetos no CESAR

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de agosto de 2026 08H00
À medida que algoritmos passam a influenciar decisões cada vez mais relevantes, cresce uma questão que conselhos e lideranças não podem mais ignorar: quanto poder está sendo delegado à inteligência artificial sem supervisão adequada? O artigo propõe uma reflexão sobre a necessidade de incorporar a IA à agenda de governança corporativa.

Eliana Camejo - Vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli e conselheira de Administração pelo IBGC

3 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças
16 de agosto de 2026 15H00
O envelhecimento populacional, a incorporação de novas tecnologias e o aumento das demandas assistenciais estão pressionando os custos da saúde em níveis inéditos. Mais do que analisar despesas, entender a formação do orçamento hospitalar tornou-se uma competência estratégica para operadoras que buscam conciliar qualidade assistencial, eficiência operacional e sustentabilidade de longo prazo.

Anderson Farias - CEO da TopSaúde Hub

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
16 de agosto de 2026 10H00

Denise Joaquim Marques - Consultora internacional de negócios, especialista em Vendas e Marketing

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
15 de agosto de 2026 14H00
Sistemas desconectados, estoques imprecisos e perdas recorrentes tornam o hortifrúti uma das operações mais complexas do varejo alimentar. Ao contrário das promessas de transformação total, a inteligência artificial vem demonstrando valor justamente onde consegue reconstruir informações, prever demanda e apoiar decisões com impacto direto sobre vendas e desperdício.

Marco Perlman - CEO da Aravita

3 minutos min de leitura
Estratégia, Ecossistema
15 de agosto de 2026 08H00
Embora a maioria das empresas reconheça o potencial dos ecossistemas de parceiros para gerar receita e ampliar mercados, poucas conseguem transformar essa ambição em resultados consistentes. O artigo explora por que a construção de um ecossistema eficaz vai muito além da criação de um canal comercial, exigindo arquitetura, governança, ativação e uma estratégia capaz de conectar parceiros aos objetivos de crescimento do negócio.

Juliana Tubino e Nara Vaz Guimarães - Cofundadoras do Ecossistema Octo e coautoras do best-seller Ecossistema de Parceiros: Método Octo.

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução