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Design de relações – uma discussão sobre intenção e espontaneidade a serviço da transformação organizacional

A autêntica transformação cultural emerge quando intenção e espontaneidade deixam de ser opostas e passam a operar em tensão criativa
Designer de relações profissionais, Daniela fundou a Consultoria Daniela Cais, especialista em Comunicação Interpessoal aplicada a ambientes corporativos e hubs de inovação. Mestre em Fonoaudiologia pela PUC-SP, TEDx Speaker e facilitadora de treinamentos de renomadas instituições nacionais e internacionais. Mentora de programas de desenvolvimento de carreiras e negócios, como BNDES Garagem, RME - Rede Mulher Empreendedora e Wadhwani Foundation.

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A relação entre intenção comunicativa e espontaneidade constitui um dos paradoxos mais instigantes da interação humana. Ambos são comportamentos comunicativos muito desejados, vistos como preciosidades para as relações interpessoais e, mesmo assim, para muitos, parecem incongruentes. De um lado, a intenção pressupõe direcionamento deliberado e consciente. De outro, a espontaneidade evoca não-premeditação, emergência livre de cálculo.

Seriam esses termos verdadeiramente antagônicos? Ou habitam um ao outro de modos mais sutis e complexos do que o suposto?

Podemos mapear as tensões, as aproximações e as camadas que constituem o campo enigmático do afeto nas relações interpessoais, mobilizando autores de diferentes tradições para dar luz a aspectos distintos dessa discussão, com especial atenção às implicações práticas para transformação da cultura organizacional.


Espontaneidade cultivada X prática intencional

O primeiro movimento possível para dissolver a aparente contradição está em reconhecer que a espontaneidade frequentemente emerge de uma preparação intencional. Se pensarmos no músico de jazz que improvisa com maestria, sabemos que ele o faz depois de anos de prática e dedicação, de incorporação de escalas, harmonias, repertório. A intenção, sob essa visão, não diz respeito ao conteúdo específico do que emerge, mas à construção das condições e possibilidades para que algo possa emergir.

Isso nos permite entender as relações como um território fértil onde intencionalidade e espontaneidade se entrelaçam e se afetam.

A fenomenologia da percepção (Merleau-Ponty, 1999), nos ajuda a pensar essa questão ao propor que o corpo é sujeito da experiência antes da reflexão consciente. Para este autor, há uma “intencionalidade operante” que orienta nosso ser-no-mundo e não é uma questão de consciência tática. A fala espontânea, nessa perspectiva, não é desprovida de intencionalidade; opera numa camada anterior à consciência reflexiva, onde o sentido foi corporificado.

Imaginemos: Uma líder de equipe prepara-se intensamente para uma reunião delicada sobre reestruturação. Estuda dados, antecipa resistências, ensaia argumentos. No momento da conversa, porém, percebe a tensão no rosto de um colaborador e abandona o roteiro preparado, abrindo espaço para que ele expresse seus medos. Sua preparação intencional criou a segurança interna necessária para que pudesse ser espontânea quando a situação exigiu.

Contudo, essa ideia traz consigo uma provocação que questiona se a intenção de ser espontâneo é contraditória. Ou se é precisamente este o caminho – criar intencionalmente as condições para que a espontaneidade desponte.

Neste momento, precisamos aguçar o nosso senso de observação para apreender pontos de afinidade e desapego entre as tais atitudes comunicativas e todas as dimensões que as envolvem, especificamente nas relações e ambientes profissionais que representam a cultura das organizações.


Não há comunicação puramente espontânea

Mesmo quando falamos “sem pensar” (supondo que fosse possível), sem deliberação consciente, estamos mediados por estruturas linguísticas, repertórios culturais, padrões relacionais sedimentados.

A teoria de Bakhtin (2003) expõe que toda palavra é habitada por usos e significações anteriores. Não existe um discurso que nasça do nada; sempre respondemos (mesmo quando acreditamos inaugurar) a um fluxo dialógico que nos precede. Somos seres sociais, organizados e culturalmente situados na história, nas ideologias, na interdependência psicossocial que nos constitui sujeitos comunicantes.

Nesse sentido, a espontaneidade está sempre atravessada por camadas de intencionalidades anteriores: validadas, internalizadas, naturalizadas. Bourdieu (2009) denominou isso de habitus: disposições duráveis que geram práticas e percepções aparentemente “automáticas”, que são, na realidade, produtos de condicionamentos sociais incorporados. O autor diz que, a priori, comunicamos espontaneamente dentro de gramáticas socialmente constituídas e dotadas de afetos.

Herança comunicativa

O conceito de Bourdieu nos conecta a algo mais profundo: nossa herança comunicativa ancestral. Ou seja, não comunicamos somente a partir de aprendizados individuais; carregamos padrões relacionais transmitidos de geração para geração. Nossos gestos, entonações e expressões atravessam famílias e culturas. Somos herdeiros das gramáticas afetivas que antecederam nossa consciência.

Tal perspectiva revela que nossas “escolhas” de comunicação frequentemente ecoam lembranças familiares não conscientes. O que é expandido com a demonstração de como padrões relacionais disfuncionais são transmitidos através de gerações, psicologicamente e por meio da regulação emocional e dos sistemas de estresse corporificados desde a primeira infância (Maté, 2021).

Com respaldo da neurociência, especialmente através da Teoria Polivagal (Porges, 2021), se garante uma base fisiológica para compreender essa transmissão: nosso sistema nervoso autônomo aprende desde os primeiros momentos de vida quais contextos relacionais são seguros ou ameaçadores, criando padrões de respostas que operam aquém da consciência.

Das disposições clínico-científicas deriva a necessidade de assumir uma responsabilidade ética complexa: reconhecer, preservar, transformar ou interromper padrões herdados, conforme sirvam ou não à saúde relacional no presente.

Memória e liberdade

Temos mais um recurso para compreender essa dialética. Em sua obra Gestos, Flusser (2014) analisa como todo movimento humano que comunica oscila entre duas dimensões aparentemente contraditórias: o programa e a liberdade.

O programa é um tipo de memória, representado por estruturas codificadas que tornam o gesto inteligível: as convenções linguísticas, os rituais sociais, os scripts culturais que aprendemos. Sem programa, o gesto seria um ruído incompreensível, incomunicável. A espontaneidade absoluta, desprovida de estrutura, não conseguiria estabelecer vínculo porque não haveria código compartilhado.

Por outro lado, a liberdade é um tipo de inovação, que representa a capacidade do gesto de surpreender, de introduzir variações, de criar sentido novo dentro do código. Sem liberdade, o gesto seria mecânico, morto, uma repetição automatizada. A intenção absoluta, totalmente programada, seria como um algoritmo, previsível, controlável, mas vazio de sensibilidade.

Para este autor, comunicar é justamente habitar essa tensão construtiva entre programa e liberdade. O músico de jazz improvisa (liberdade) dentro de estruturas harmônicas compartilhadas (programa). O poeta reinventa a língua (liberdade) usando as mesmas palavras que todos conhecem (programa). O gestor empático responde ao inesperado de cada conversa (liberdade) mobilizando competências relacionais cultivadas (programa).

Essa perspectiva dissolve a oposição entre intenção e espontaneidade, pois, a espontaneidade só pode emergir quando há programa suficiente para sustentá-la; a intenção só ganha vida quando oferece espaço para o imprevisto.

Poeticamente, comunicar é dançar nesse “entrelugares”, buscando o vínculo ou o espaço comum de partilha e pertencimento.

Imaginemos: “Durante uma apresentação de projeto, um gerente nota que está usando automaticamente o jargão corporativo que aprendeu em anos de carreira. Suas respostas às perguntas são, na verdade, scripts internalizados (programa sem liberdade). Ao perceber isso, escolhe deliberadamente pausar, respirar e buscar palavras mais próximas do que genuinamente pensa, descobrindo que sua intenção de autenticidade produz a espontaneidade verdadeira (liberdade dentro do programa).”

À primeira vista, este olhar nos revela que intenção e espontaneidade são dimensões complementares da comunicação autêntica. A preparação intencional cria o solo fértil onde a espontaneidade pode florescer. Reconhecemos também que não comunicamos a partir de um vácuo, mas sim atravessados por heranças ancestrais e padrões socialmente incorporados.

É preciso manter a atenção para explorar os riscos da hipervigilância interativa que pode vir a bloquear as conexões. O próximo passo deve ser considerar a ética do cuidado como dimensão essencial para o design das relações organizacionais.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BOURDIEU, Pierre. O Senso Prático. Tradução de Maria Ferreira. Petrópolis: Vozes, 2009.
FLUSSER, Vilém. Gestos. São Paulo: Annablume, 2014.
MATÉ, Gabor. O corpo guarda as marcas: traumas, estresse e a chave para a cura. Tradução de Carolina Simmer. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2021.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Tradução de Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
PORGES, Stephen. Teoria Polivagal: fundamentos neurofisiológicos das emoções, apego, comunicação e autorregulação. Porto Alegre: Artmed, 2021.

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