Inovação & estratégia
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No palco do São Paulo Innovation Week, a indústria desmentiu o maior mito da IA: Inovação não é destruição, é reinvenção!

Este artigo traz a visão de um executivo da indústria que respondeu ao mito da substituição. Que, ao contrário da lógica esperada, mostra por que inovação não é destruir o passado, mas sim, reinventar relevância com clareza, estratégia e execução no novo cenário tecnológico.
Presidente da Voith Paper na América do Sul, engenheiro com MBAs pela FIA e ESPM e Programa de Alta Gestão pelo INSEAD. Escreve sobre liderança, inovação industrial e o futuro do trabalho.

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Na semana passada, estive presente como speaker na primeira edição do São Paulo Innovation Week 2026, o SPIW. E há algo especialmente simbólico em levar a voz de uma empresa de bens de capital, e da indústria de papel, a um dos principais eventos de inovação do país.

Durante muito tempo, o debate sobre o futuro do papel foi conduzido a partir de uma lógica de substituição: o papel desapareceria. A digitalização seria inevitável, absoluta e definitiva. Mas, a realidade do mercado mostrou outro caminho: o da reinvenção. E, dentro dessa transformação, o papel para embalagem se consolidou como um dos territórios mais estratégicos para inovação, crescimento e geração de valor.

Talvez isso diga muito sobre o momento que vivemos.

Porque inovação nunca foi sobre substituir tudo o que existe. Sempre foi sobre transformar. E é exatamente isso que estamos vendo acontecer agora com o trabalho humano diante da Inteligência Artificial.

O caos não é o problema. A falta de clareza dentro dele é.

Durante décadas, o debate sobre trabalho girou em torno de limites, direitos e produtividade. Foi uma construção fundamental para equilibrar as relações entre capital e esforço humano. Mas, entramos em uma nova fase. Pela primeira vez, o trabalho não está sendo apenas reorganizado. Está sendo redefinido na sua essência.

A Inteligência Artificial entrou nas empresas como uma ferramenta de apoio. Rapidamente, porém, mostrou que não se limita a ampliar produtividade. Hoje, falamos de sistemas capazes de executar tarefas complexas, aprender padrões, tomar decisões e evoluir em velocidade exponencial. Não é apenas uma nova tecnologia. É uma mudança estrutural na lógica do trabalho.

E talvez o maior desafio neste momento não seja acompanhar a transformação, mas enxergar com clareza dentro dela.

Vivemos em um tempo de excesso: excesso de informação, de velocidade, de narrativas concorrentes e de urgências simultâneas. Nesse ambiente, a paralisia disfarçada de análise tornou-se um dos maiores riscos para líderes e profissionais. O diferencial competitivo das próximas décadas não será o acesso à informação, já que todos terão acesso, mas a capacidade de distinguir o que importa dentro do ruído.

Clareza no caos não é um dom. É uma competência que se desenvolve. E será, cada vez mais, uma das habilidades mais valiosas do mercado de trabalho.

Do saber fazer ao saber liderar e executar

Durante séculos, o valor profissional esteve associado ao saber fazer. Dominar técnicas, processos e conhecimentos específicos era o diferencial competitivo. Só que esse modelo está mudando com rapidez impressionante. Máquinas já executam muitas atividades com mais velocidade, precisão e escala do que qualquer ser humano.

Isso não significa o fim do trabalho humano. Significa o fim de uma lógica baseada exclusivamente na execução técnica isolada.

Há aqui uma armadilha igualmente perigosa. A do profissional que migrou completamente para o pensamento estratégico e perdeu a conexão com a realidade operacional. Quem pensa sem executar perde contexto. Quem executa sem pensar perde direção.

É por isso que emerge, com força crescente, um novo arquétipo profissional: o player-coach.

O conceito, já consolidado no universo do esporte de alto rendimento, descreve o líder que não apenas orienta e desenvolve o time, mas que também entra em campo. Que une a visão sistêmica e a capacidade de gestão com a habilidade concreta de engenheirar e executar. Que pensa criticamente e faz acontecer.

Satya Nadella, CEO da Microsoft, é um exemplo contemporâneo desse perfil. Ao conduzir a transformação cultural da empresa e, ao mesmo tempo, liderar pessoalmente as decisões técnicas e estratégicas sobre IA, inclusive a parceria com a OpenAI, ele demonstrou que o pensamento estratégico e a capacidade de execução não são opostos. São complementares. Jensen Huang, da NVIDIA, é outro caso: um líder que continua profundamente imerso na engenharia dos produtos enquanto navega com precisão os movimentos do mercado global de semicondutores.

O player-coach não é uma solução para todos os contextos. Mas, em um ambiente de transformação acelerada, ele representa algo muito valioso: a capacidade de transitar entre o mapa e o território, entre a estratégia e a trincheira.

O que as máquinas ainda não conseguem reproduzir

A nova fronteira do valor humano está em algo mais profundo: contexto, interpretação, repertório e direção. O diferencial humano passa a estar na capacidade de conectar variáveis, compreender cenários complexos, formular perguntas inéditas e atribuir significado às decisões.

Em outras palavras, o trabalho deixa de ser apenas operacional e passa a ser cada vez mais estratégico e genuinamente humano.

Yuval Noah Harari, em suas reflexões sobre o impacto da IA na civilização, pontua que o grande risco não é a tecnologia em si, mas a incapacidade humana de ressignificar o próprio papel diante dela. A pergunta central não é “o que a IA fará por nós?”, mas “o que escolheremos fazer que a IA ainda não consegue?”

A resposta, por ora, aponta para: criatividade genuína, julgamento contextualizado, sensibilidade, intuição calibrada pela experiência, capacidade de síntese e, acima de tudo, clareza para liderar em ambientes complexos, quando o excesso de informação e a velocidade da mudança podem facilmente gerar ruído em vez de direção.

Por isso, acredito que a discussão sobre Inteligência Artificial não é, no fundo, uma discussão tecnológica. É uma discussão profundamente humana.

A indústria de papel como metáfora de resiliência

Essa transformação já pode ser observada dentro da própria indústria em que atuo. Historicamente associada à manufatura pesada, a indústria de papel opera hoje com alto nível de automação, análise de dados em tempo real, inteligência operacional e metas avançadas de eficiência energética e sustentabilidade.

As máquinas evoluíram. Os processos evoluíram. E as pessoas também precisaram evoluir.

Antonio Lemos – Presidente da Voith Paper na América do Sul | Foto: lvba comunicação


O profissional que antes era valorizado apenas pela execução técnica agora precisa desenvolver visão sistêmica, capacidade analítica, adaptabilidade e tomada de decisão sob incerteza. O conhecimento continua importante, mas deixou de ser suficiente por si só.

Em meio à digitalização, o setor de papel seguiu crescendo, inovando e participando ativamente das discussões sobre o futuro da tecnologia e do trabalho. Não porque ignoramos as mudanças, mas porque escolhemos atravessá-las com estratégia, com pessoas e com coragem.

Travessias exigem escolha

Essa talvez seja a maior travessia da história do trabalho. Não porque novas profissões surgirão, isso sempre aconteceu, mas porque o próprio conceito de utilidade profissional está sendo redefinido.

E travessias exigem coragem.

Exigem abandonar certezas que pareciam permanentes. Exigem disposição genuína para aprender continuamente. Exigem humildade para reconhecer que o mundo mudou e que mudar junto não é fraqueza, é inteligência. Exigem, principalmente, iniciativa para se reposicionar antes que a mudança seja imposta pelas circunstâncias.

O futuro não pertence necessariamente a quem trabalha mais horas, executa mais tarefas ou acumula mais informação. Pertence, cada vez mais, a quem consegue desenvolver aquilo que máquinas ainda não conseguem reproduzir plenamente: visão, contexto, pensamento crítico, criatividade e a capacidade humana de construir significado.

Também àqueles que, no meio do caos, conseguem enxergar com clareza. Que transformam complexidade em direção. Que lideram sem perder a conexão com o real. Que pensam estrategicamente e executam com competência.

A Inteligência Artificial continuará avançando. Isso é inevitável. A questão central não é mais se seremos impactados. A pergunta é como escolhemos atravessar esse momento.

Podemos esperar que a transformação nos force a mudar, quando talvez já seja tarde. Ou podemos decidir, agora, desenvolver novas capacidades, ampliar repertório, aprender a trabalhar ao lado da tecnologia e, principalmente, aprender a pensar acima dela.

Porque, no fim, talvez o futuro do trabalho seja menos sobre tecnologia e mais sobre aquilo que nos torna humanos.

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