Inovação & estratégia
7 minutos min de leitura

No palco do São Paulo Innovation Week, a indústria desmentiu o maior mito da IA: Inovação não é destruição, é reinvenção!

Este artigo traz a visão de um executivo da indústria que respondeu ao mito da substituição. Que, ao contrário da lógica esperada, mostra por que inovação não é destruir o passado, mas sim, reinventar relevância com clareza, estratégia e execução no novo cenário tecnológico.
Presidente da Voith Paper na América do Sul, engenheiro com MBAs pela FIA e ESPM e Programa de Alta Gestão pelo INSEAD. Escreve sobre liderança, inovação industrial e o futuro do trabalho.

Compartilhar:

Na semana passada, estive presente como speaker na primeira edição do São Paulo Innovation Week 2026, o SPIW. E há algo especialmente simbólico em levar a voz de uma empresa de bens de capital, e da indústria de papel, a um dos principais eventos de inovação do país.

Durante muito tempo, o debate sobre o futuro do papel foi conduzido a partir de uma lógica de substituição: o papel desapareceria. A digitalização seria inevitável, absoluta e definitiva. Mas, a realidade do mercado mostrou outro caminho: o da reinvenção. E, dentro dessa transformação, o papel para embalagem se consolidou como um dos territórios mais estratégicos para inovação, crescimento e geração de valor.

Talvez isso diga muito sobre o momento que vivemos.

Porque inovação nunca foi sobre substituir tudo o que existe. Sempre foi sobre transformar. E é exatamente isso que estamos vendo acontecer agora com o trabalho humano diante da Inteligência Artificial.

O caos não é o problema. A falta de clareza dentro dele é.

Durante décadas, o debate sobre trabalho girou em torno de limites, direitos e produtividade. Foi uma construção fundamental para equilibrar as relações entre capital e esforço humano. Mas, entramos em uma nova fase. Pela primeira vez, o trabalho não está sendo apenas reorganizado. Está sendo redefinido na sua essência.

A Inteligência Artificial entrou nas empresas como uma ferramenta de apoio. Rapidamente, porém, mostrou que não se limita a ampliar produtividade. Hoje, falamos de sistemas capazes de executar tarefas complexas, aprender padrões, tomar decisões e evoluir em velocidade exponencial. Não é apenas uma nova tecnologia. É uma mudança estrutural na lógica do trabalho.

E talvez o maior desafio neste momento não seja acompanhar a transformação, mas enxergar com clareza dentro dela.

Vivemos em um tempo de excesso: excesso de informação, de velocidade, de narrativas concorrentes e de urgências simultâneas. Nesse ambiente, a paralisia disfarçada de análise tornou-se um dos maiores riscos para líderes e profissionais. O diferencial competitivo das próximas décadas não será o acesso à informação, já que todos terão acesso, mas a capacidade de distinguir o que importa dentro do ruído.

Clareza no caos não é um dom. É uma competência que se desenvolve. E será, cada vez mais, uma das habilidades mais valiosas do mercado de trabalho.

Do saber fazer ao saber liderar e executar

Durante séculos, o valor profissional esteve associado ao saber fazer. Dominar técnicas, processos e conhecimentos específicos era o diferencial competitivo. Só que esse modelo está mudando com rapidez impressionante. Máquinas já executam muitas atividades com mais velocidade, precisão e escala do que qualquer ser humano.

Isso não significa o fim do trabalho humano. Significa o fim de uma lógica baseada exclusivamente na execução técnica isolada.

Há aqui uma armadilha igualmente perigosa. A do profissional que migrou completamente para o pensamento estratégico e perdeu a conexão com a realidade operacional. Quem pensa sem executar perde contexto. Quem executa sem pensar perde direção.

É por isso que emerge, com força crescente, um novo arquétipo profissional: o player-coach.

O conceito, já consolidado no universo do esporte de alto rendimento, descreve o líder que não apenas orienta e desenvolve o time, mas que também entra em campo. Que une a visão sistêmica e a capacidade de gestão com a habilidade concreta de engenheirar e executar. Que pensa criticamente e faz acontecer.

Satya Nadella, CEO da Microsoft, é um exemplo contemporâneo desse perfil. Ao conduzir a transformação cultural da empresa e, ao mesmo tempo, liderar pessoalmente as decisões técnicas e estratégicas sobre IA, inclusive a parceria com a OpenAI, ele demonstrou que o pensamento estratégico e a capacidade de execução não são opostos. São complementares. Jensen Huang, da NVIDIA, é outro caso: um líder que continua profundamente imerso na engenharia dos produtos enquanto navega com precisão os movimentos do mercado global de semicondutores.

O player-coach não é uma solução para todos os contextos. Mas, em um ambiente de transformação acelerada, ele representa algo muito valioso: a capacidade de transitar entre o mapa e o território, entre a estratégia e a trincheira.

O que as máquinas ainda não conseguem reproduzir

A nova fronteira do valor humano está em algo mais profundo: contexto, interpretação, repertório e direção. O diferencial humano passa a estar na capacidade de conectar variáveis, compreender cenários complexos, formular perguntas inéditas e atribuir significado às decisões.

Em outras palavras, o trabalho deixa de ser apenas operacional e passa a ser cada vez mais estratégico e genuinamente humano.

Yuval Noah Harari, em suas reflexões sobre o impacto da IA na civilização, pontua que o grande risco não é a tecnologia em si, mas a incapacidade humana de ressignificar o próprio papel diante dela. A pergunta central não é “o que a IA fará por nós?”, mas “o que escolheremos fazer que a IA ainda não consegue?”

A resposta, por ora, aponta para: criatividade genuína, julgamento contextualizado, sensibilidade, intuição calibrada pela experiência, capacidade de síntese e, acima de tudo, clareza para liderar em ambientes complexos, quando o excesso de informação e a velocidade da mudança podem facilmente gerar ruído em vez de direção.

Por isso, acredito que a discussão sobre Inteligência Artificial não é, no fundo, uma discussão tecnológica. É uma discussão profundamente humana.

A indústria de papel como metáfora de resiliência

Essa transformação já pode ser observada dentro da própria indústria em que atuo. Historicamente associada à manufatura pesada, a indústria de papel opera hoje com alto nível de automação, análise de dados em tempo real, inteligência operacional e metas avançadas de eficiência energética e sustentabilidade.

As máquinas evoluíram. Os processos evoluíram. E as pessoas também precisaram evoluir.

Antonio Lemos – Presidente da Voith Paper na América do Sul | Foto: lvba comunicação


O profissional que antes era valorizado apenas pela execução técnica agora precisa desenvolver visão sistêmica, capacidade analítica, adaptabilidade e tomada de decisão sob incerteza. O conhecimento continua importante, mas deixou de ser suficiente por si só.

Em meio à digitalização, o setor de papel seguiu crescendo, inovando e participando ativamente das discussões sobre o futuro da tecnologia e do trabalho. Não porque ignoramos as mudanças, mas porque escolhemos atravessá-las com estratégia, com pessoas e com coragem.

Travessias exigem escolha

Essa talvez seja a maior travessia da história do trabalho. Não porque novas profissões surgirão, isso sempre aconteceu, mas porque o próprio conceito de utilidade profissional está sendo redefinido.

E travessias exigem coragem.

Exigem abandonar certezas que pareciam permanentes. Exigem disposição genuína para aprender continuamente. Exigem humildade para reconhecer que o mundo mudou e que mudar junto não é fraqueza, é inteligência. Exigem, principalmente, iniciativa para se reposicionar antes que a mudança seja imposta pelas circunstâncias.

O futuro não pertence necessariamente a quem trabalha mais horas, executa mais tarefas ou acumula mais informação. Pertence, cada vez mais, a quem consegue desenvolver aquilo que máquinas ainda não conseguem reproduzir plenamente: visão, contexto, pensamento crítico, criatividade e a capacidade humana de construir significado.

Também àqueles que, no meio do caos, conseguem enxergar com clareza. Que transformam complexidade em direção. Que lideram sem perder a conexão com o real. Que pensam estrategicamente e executam com competência.

A Inteligência Artificial continuará avançando. Isso é inevitável. A questão central não é mais se seremos impactados. A pergunta é como escolhemos atravessar esse momento.

Podemos esperar que a transformação nos force a mudar, quando talvez já seja tarde. Ou podemos decidir, agora, desenvolver novas capacidades, ampliar repertório, aprender a trabalhar ao lado da tecnologia e, principalmente, aprender a pensar acima dela.

Porque, no fim, talvez o futuro do trabalho seja menos sobre tecnologia e mais sobre aquilo que nos torna humanos.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Administrar um restaurante e uma multinacional é mais parecido do que parece

Após décadas em grandes empresas, o autor trocou a segurança da carreira corporativa pelo desafio de empreender na gastronomia. Nesta reflexão, mostra por que os princípios que sustentam uma multinacional – planejamento, processos, gestão financeira e foco no cliente – são exatamente os mesmos que garantem o sucesso de um restaurante.

O engajamento não nasce das pessoas. Nasce do ambiente.

Muitas organizações ainda tratam o engajamento como uma característica individual, quando ele é, em grande parte, resultado do contexto que a liderança constrói. Este artigo mostra como confiança, autonomia, segurança psicológica e qualidade das relações influenciam diretamente a disposição das pessoas para inovar, colaborar e gerar resultados sustentáveis.

Aprendi que até no Japão as mulheres conseguem quebrar regras

Convidada pelo governo japonês para participar da primeira Convenção de Mulheres realizada no Japão, Chieko Aoki conta como uma experiência inesperada revelou a força da colaboração feminina e o impacto das redes de apoio na construção de lideranças.

Inovação & estratégia, User Experience, UX
2 de julho de 2026 14H00
A digitalização do pós-obra pode transformar operações, reduzir custos e fortalecer a experiência do cliente no setor imobiliário. Este artigo mostra que as construtoras podem transformar o momento da entrega das chaves em inteligência, eficiência e vantagem competitiva.

Jean Ferrari - CEO da FastBuilt

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
2 de julho de 2026 08H00
Seu maior risco digital pode estar no bolso do seu colaborador. Este artigo revela por que a gestão da frota móvel deixou de ser uma questão operacional e passou a ser uma decisão estratégica de segurança e eficiência.

Stephanie Peart - Head da Leapfone

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de julho de 2026 15H00
A liderança centrada no controle está perdendo espaço. Este artigo mostra como a capacidade de desenvolver autonomia será o principal diferencial das organizações do futuro.

Marcelo Neri - CEO, Mentor Executivo, Palestrante Internacional e Escritor

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
1º de julho de 2026 08H00
Muito além do debate entre humano e IA, este artigo expõe o verdadeiro problema do atendimento moderno: não é quem responde, mas quem tem poder para decidir, e por que a falta de autoridade na ponta continua destruindo experiências e confiança.

Átila Persici Filho - COO da Bolder, Professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação

8 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Estratégia
30 de junho de 2026 15H00
A partir dos sinais do Web Summit Rio 2026, este artigo mostra como a saúde mental deixou de ser benefício periférico para se tornar uma variável crítica de negócio, impactando investimento, regulação e a própria sustentabilidade das empresas.

Weber Stival - Fundador e CEO da Unolife.

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
30 de junho de 2026 08H00
A NR-1 mudou a regra: cuidar da saúde mental agora exige gestão. Este artigo mostra como a nova norma transforma riscos psicossociais em variável estratégica, exigindo das empresas organização, método e accountability na gestão do ambiente de trabalho.

Erich Silva - COO e Head de Talentos da Lecom

3 minutos min de leitura
Liderança
29 de junho de 2026 16H00
Ao revisitar a história de Francisco Serrão, este artigo propõe uma inversão rara na lógica da liderança contemporânea: talvez a verdadeira coragem não esteja em continuar a todo custo, mas da capacidade de definir limites.

François Bazini - CMO e Consultor

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
29 de junho de 2026 08H00
Ao contrastar o poder das big techs ocidentais com a força industrial e estrutural do Oriente, este artigo amplia a leitura sobre inovação e revela que o futuro da economia global não será definido por empresas isoladas, mas pela interação entre ecossistemas tecnológicos interdependentes.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de junho de 2026 15H00
Com Sérgio Frangioni e a Blanver como pontos de observação, o terceiro artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira investiga como decisões empresariais, PDPs, IFAs e produção local podem aproximar inovação farmacêutica da vida concreta dos pacientes.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

13 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de junho de 2026 08H00
Diante de um cenário de sobrecarga crescente no trabalho, este artigo mostra que o problema não está apenas no volume, mas na forma como o trabalho é organizado, e apresenta caminhos práticos para redesenhá-lo com mais significado, autonomia e energia.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo