Liderança, Estratégia
5 minutos min de leitura

E se o plano de 2027 não fosse apenas um número?

Inspirado pela trajetória de Rafael Nadal retratada no documentário Rafa, o artigo propõe uma reflexão sobre a forma como empresas constroem seus planejamentos estratégicos.
Fundadora da Zero Gravity Thinking. Consultora e mentora em estratégia, inovação e transformação organizacional.

Compartilhar:

Talvez você, assim como eu, também goste de tênis e tenha assistido ao documentário “Rafa”, da Netflix? Você se lembrava que, após um período de afastamento por lesão, ele iniciou o ano de 2024 ocupando a 672ª posição do ranking mundial da ATP? Sim, o mesmo Nadal que conquistou 22 títulos de Grand Slam teve que recomeçar de um ponto que nenhum modelo de projeção de carreira teria previsto.

Fiquei pensando nisso neste momento em que estamos no último trimestre do ano e quando como em todos os anos, as organizações passam pelo mesmo ritual: longas revisões de sequências de slides e de planilhas bem elaboradas com projeções de vendas, margem e lucro, de crescimento e participação de mercado. Me lembro bem de quando ocupava a cadeira de executiva e passava por rodadas de elaboração e aprovação dos números para os cinco anos seguintes, e do sentimento de dever cumprido com os modelos de projeção que traziam até a última casa decimal uma precisão que dava uma certa sensação de um melhor controle sobre o futuro.

Reconheço que essa busca por certezas é um traço profundamente humano, mas é também uma armadilha. O plano aprovado com tanta convicção perde a validade em poucos meses, e rapidamente se iniciam os ciclos de novos forecasts e explicações sobre os desvios. Se sabemos que uma aposta em trajetória única não se sustenta num contexto de instabilidade econômica e política (e agora, mais do que nunca, também tecnológica, ambiental e legal), por que ainda reproduzimos os mesmos modelos?

Talvez porque planejamos como quem apenas quer vencer. Penso que Nadal nos mostra outra forma de olhar, onde vencer é um resultado, mas competir é uma capacidade. Vencer depende de vários fatores que não controlamos, como o adversário, o dia, o tempo. Competir é algo que se treina e se repete. Portanto, a grande virada de jogo na jornada executiva só vai acontecer quando a liderança de fato compreender que o objetivo da estratégia não é responder “qual é o nosso número para 2027”, mas “quais capacidades precisamos ter para jogar bem em qualquer um dos cenários possíveis?” Com isso, o foco também passa a ser o de investir naquilo que sustenta a organização, não importa o que aconteça.

O maior rival é quase sempre interno.

A série traz um insight muito poderoso: o maior adversário do Nadal foi o próprio corpo dele. A partir das limitações, ele foi planejando cada temporada. Nas empresas, costumamos fazer o contrário, concordam? O plano nasce de uma ambição (muitas vezes, “top-down”) e só depois são avaliadas as restrições, sejam elas de recursos financeiros, capacidades do time, ou até mesmo de cultura. Que tal inverter esta ordem e antes de desenhar as metas, avaliar de forma bastante honesta onde a organização é frágil? O que acontece se perdermos o nosso maior cliente? E se os melhores talentos saírem? Se o crédito ficar mais caro? E se a inadimplência aumentar? Este teste de estresse ao imaginar as situações mais adversas ajuda a avaliar os pontos frágeis de um plano enquanto ainda há tempo de reforçá-lo.

Para planejar bem, é preciso definir o que não se negocia. Ao longo da sua carreira, o jogo do Nadal foi mudando, mas o seu compromisso com o esforço e com a forma de competir eram inabaláveis. Esta é a lógica do “planejamento vivo”, um modelo de múltiplas rotas que começa a substituir o orçamento estático. Ele tem duas camadas: direção mestre e portfólio de rotas alternativas. A primeira camada, a de direção, define as escolhas fundamentais que geram valor para a organização em qualquer cenário possível e é a que garante estabilidade, coesão e clareza de direção em momentos de turbulência. Aqui, entram os pilares estruturantes como iniciativas de eficiência operacional, investimentos em pesquisa e desenvolvimento, fortalecimento de relacionamento com o cliente e desenvolvimento de pessoas. A segunda camada é flexível e pautada em três ou quatro cenários alternativos, que não são simplesmente “base, otimista e pessimista”, mas variações do mesmo futuro e o que faríamos para cada um deles.

Em paralelo, a organização aprende a ler o jogo ponto a ponto, porque quem compete bem, não espera o fim do set para ajustar sua tática. Os melhores jogadores conseguem observar pequenos sinais sobre o ritmo e cansaço do seu adversário. No planejamento, isso se traduz em sinais de alerta que ajudam a mostrar que aquele futuro está chegando. Estes são  conhecidos como “leading indicators”, ou métricas e dados de desempenho que apontam tendências e resultados futuros, permitindo prever o que pode acontecer nos negócios. Diferentemente dos “lagging indicators” (como faturamento ou participação de mercado), que apenas mostram o que já aconteceu, indicadores como NPS (nível de satisfação do cliente) ajudam a indicar a probabilidade de recompra, ou em nível macroeconômico, o acompanhamento do  Índice de Confiança do Consumidor ajuda a prever altas ou baixas no consumo da população.

Competir é um hábito, e começa por olhar para fora.

No documentário, Nadal afirma: “As pessoas achavam que eu era um vencedor. Eu não sou um vencedor, sou um competidor.” Quem se vê como um competidor continua sempre perguntando o que precisa aprender para o próximo ponto. Da mesma forma, imaginar futuros e continuar competindo exige uma forma diferente de pensar, e isso passa por movimentos muitas vezes desconfortáveis. As premissas por trás da planilha de cinco anos ainda se sustentam? Faça uma lista delas e se pergunte sobre quais possuem certezas, suposições ou dúvidas. Questione as certezas, principalmente as mais confortáveis! Elas podem ser apenas crenças. Traga pessoas novas para pensar junto. Novas gerações, pessoas de fora. Olhe mais para fora. Explore mercados adjacentes, indústrias distintas, concorrentes indiretos. Todos estes movimentos ajudam a dar mais espaço e repertório para imaginar os futuros. Claro, nenhuma destas práticas irão trazer a precisão da última casa decimal. Em troca, podem oferecer o que é mais útil para o contexto atual: a capacidade de seguir em quadra, ponto a ponto, quando o jogo mudar.

Compartilhar:

Fundadora da Zero Gravity Thinking. Consultora e mentora em estratégia, inovação e transformação organizacional.

Artigos relacionados

O que os Niyamas podem ensinar sobre consciência, disciplina e evolução organizacional

Processos, políticas e estratégias não surgem sozinhos. Eles são resultado das escolhas feitas diariamente por quem exerce liderança e influencia decisões. Embora tenham sido concebidos há mais de dois mil anos, os Niyamas oferecem reflexões surpreendentemente atuais para organizações que desejam construir culturas mais conscientes, coerentes e alinhadas aos desafios do presente.

A escassez de talentos pode estar no processo seletivo

Um teste aparentemente simples, aplicado em uma fábrica japonesa, revela por que algumas organizações encontram talentos onde outras enxergam apenas falta de experiência. O artigo oferece uma perspectiva provocativa sobre a escassez de talentos e sobre como empresas podem identificar capacidades que currículos nem sempre conseguem revelar.

O melhor profissional do time pode estar na lista de desligamento

Nem sempre as pessoas que mais contribuem para os resultados são aquelas que aparecem melhor nos indicadores individuais. Em muitas organizações, existe um trabalho invisível que conecta equipes, transfere conhecimento, reduz conflitos e faz o restante do sistema funcionar. O artigo propõe uma reflexão sobre os limites dos modelos tradicionais de avaliação de desempenho e alerta para um risco pouco percebido: demitir quem sustenta as relações e a colaboração de um time pode custar muito mais do que qualquer planilha é capaz de mostrar.

Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
13 de setembro de 2026 17H00
Modelos de inteligência artificial estão cada vez mais baratos, disponíveis e semelhantes em desempenho. O desafio das organizações não é apenas automatizar processos, mas definir onde a decisão deve continuar sendo humana e como transformar discernimento em vantagem competitiva.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Estratégia e Execução
13 de setembro de 2026 14h00
Os movimentos recentes de Art’G e Belmont Emeralds revelam estratégias de geração e captura de valor

Adriana Salles Gomes

0 min de leitura
Inovação & estratégia
13 de setembro de 2026 08H00
Enquanto os ciclos tecnológicos se tornam cada vez mais curtos, organizações enfrentam um desafio permanente: transformar inovação em resultados concretos e que gere valor para o negócio no longo prazo.

Andréia Rengel - CEO e sócia da AMcom

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
12 de setembro de 2026 14H00
Em um ambiente empresarial cada vez mais orientado por dados, o people analytics permite que o RH amplie sua influência nas decisões corporativas.

Gabriela Resende - Diretora de Operações de Recursos Humanos da Propay

5 minutos min de leitura
User Experience, UX
12 de setembro de 2026 09H00
Uma experiência ruim não gera apenas insatisfação. Ela aumenta custos operacionais, compromete a reputação da marca, reduz receitas futuras e pode encerrar relacionamentos construídos ao longo de anos.

Tâmara Lira - CFO da Paschoalotto

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
11 de setembro de 2026 14H00
Rotular profissionais como tóxicos pode encerrar uma conversa, mas raramente resolve o problema. Ao investigar como comportamentos se formam e se repetem nas organizações, o artigo convida líderes a substituírem julgamentos rápidos por diagnósticos mais profundos e eficazes.

Marta Ferreira

7 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
11 de setembro de 2026 08H00
Mais do que dominar ferramentas, o desafio da liderança passou a ser tomar decisões, engajar pessoas e construir crescimento em um ambiente de incerteza permanente.

Eduardo Raffaini - Sócio-líder de Soluções de Strategy da Deloitte

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
10 de setembro de 2026 18H00
Discordâncias fazem parte de qualquer equipe diversa, mas nem sempre encontram espaço para serem expressas. O verdadeiro risco para as organizações não está no excesso de conflitos, mas na ausência deles.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão

2 minutos min de leitura
Finanças, Estratégia
10 de setembro de 2026 12H00
Sua estratégia está no PowerPoint ou no orçamento? No trimestre em que o plano de 2027 ganha aprovação, uma disputa invisível acontece dentro das empresas. De um lado, a estratégia que promete transformação. Do outro, o orçamento que preserva as prioridades de sempre. Quase sempre, é a planilha que decide o vencedor.

Átila Persici Filho - CINO, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação.

10 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
10 de setembro de 2026 08H00
As declarações recentes dos líderes da OpenAI e da NVIDIA reacenderam uma das discussões mais importantes da era digital: a Inteligência Artificial Geral já é uma realidade? Ao conectar os avanços mais recentes da IA às previsões feitas por Ray Kurzweil décadas atrás, o artigo explora não apenas a evolução da tecnologia, mas também o desafio humano, organizacional e social de acompanhar uma transformação que pode estar acontecendo mais rápido do que imaginávamos.

Leandro Mattos- Expert em neurociência da Singularity Brazil e CEO da CogniSigns

16 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução