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Estamos aprendendo mais (e entendendo menos)

Este artigo propõe uma mudança de lógica na aprendizagem: mais do que acumular conteúdo, o diferencial passa a ser a capacidade de conectar conhecimentos, interpretar contextos e transformar informação em decisão e ação.
Nossa missão é fortalecer um ecossistema dinâmico de colaboração onde startups, empresas e pesquisadores colaboram para desenhar soluções inovadoras e discutir desafios e avanços significativos para o âmbito corporativo. Sempre com uma abordagem sistêmica e inovadora, promovendo reflexões sobre o futuro, visando impulsionar transformações reais e criativas.
Fundador e CEO da Cognita Learning Lab, doutor em Educação e pós-doutor pela USP, e coordenador do Laboratório de Experimentação em IA e Educação da ABRIA. Atua há mais de 20 anos ajudando organizações a redesenhar suas estratégias de desenvolvimento de pessoas. É criador da metodologia Smart Learning e da plataforma Cognittron - reconhecida internacionalmente pela Neo4j pelo uso de grafos de conhecimento, IA generativa e sistemas adaptativos na construção de novas arquiteturas de aprendizagem com base em neurociências. Sua trajetória aproxima ciências da educação, tecnologia e desenvolvimento organizacional, colocando a aprendizagem no centro da transformação dos negócios.

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Uma experiência aplicada desenvolvida no Brasil, recentemente reconhecida pela Neo4j, uma das principais empresas globais em tecnologia de grafos, parte de uma pergunta decisiva para o futuro da educação: e se o desafio da aprendizagem hoje não fosse mais acessar conhecimento, mas conectar informações, construir sentido e transformar esse conhecimento em ação?

Desenvolvido pela Cognita Learning Lab, integrante do ecossistema de inovação Learning Village, o trabalho propõe uma nova arquitetura de aprendizagem baseada na integração entre ciências da educação, inteligência artificial e grafos de conhecimento.

Mas a relevância dessa discussão vai muito além da tecnologia. Ela nasce de uma mudança profunda na forma como produzimos, acessamos e nos relacionamos com o conhecimento.

Durante boa parte do século 20, a educação e o treinamento corporativo foram estruturados para responder a um problema muito específico: a escassez de informação. O conhecimento estava concentrado em poucos lugares, especialistas, instituições, livros, e o grande desafio era fazer esse conhecimento circular.

Nas organizações, T&D tornou-se uma engrenagem de distribuição: organizar conteúdos, criar programas e levar conhecimento em escala, com eficiência, padronização e controle. Era uma resposta coerente para um mundo em que o conhecimento parecia mais estável, previsível e transmissível.

A lógica dominante refletia o próprio modelo industrial da época. Dividir o complexo em partes menores, organizar sequências, padronizar experiências e medir avanços eram princípios que faziam sentido em uma sociedade orientada pela linha de montagem. Primeiro aprender. Depois aplicar.

Mas esse mundo deixou de existir.

Hoje, o desafio já não é encontrar informação. É construir sentido diante do excesso. Nunca profissionais tiveram tanto acesso a conteúdos, cursos, vídeos, artigos, dados e ferramentas. E, paradoxalmente, nunca foi tão difícil transformar essa abundância em compreensão, melhores decisões e desempenho concreto.

Como alertava Zygmunt Bauman, vivemos em um mundo de fluxos cada vez mais rápidos, no qual a velocidade das mudanças desafia nossa capacidade de elaborar significado. Estamos cercados de informação, mas carentes de conexões.

Essa talvez seja uma das maiores contradições da aprendizagem corporativa atual: tentamos preparar profissionais para um mundo em rede utilizando arquiteturas educacionais herdadas de uma lógica de linha de montagem.

O resultado é contraintuitivo. Muitas organizações ainda partem da premissa de que mais conteúdo significa mais aprendizagem. Mais cursos, mais trilhas, mais horas e mais certificados aparecem como resposta natural a um ambiente de crescente complexidade. Mas, frequentemente, o excesso produz o efeito contrário: fragmentação, dispersão, sobrecarga cognitiva e baixa transferência para situações reais de trabalho.

A aprendizagem passa, então, a ser confundida com consumo. A pessoa conclui módulos, assiste aulas e responde avaliações. Sente que aprendeu. Mas, quando precisa interpretar uma situação nova, tomar uma decisão ou resolver um problema complexo, percebe que aquela informação não se transformou em competência. Transformou-se apenas em familiaridade.

Os números reforçam essa tensão. Segundo James Glover, em artigo publicado na Forbes em fevereiro de 2026, dos US$ 98 bilhões investidos em treinamento corporativo nos Estados Unidos em 2024, apenas 10% geraram resultados significativos. O problema, portanto, não parece ser apenas falta de investimento. É uma falha de concepção.

Como destaca Josh Bersin, as abordagens tradicionais de aprendizagem corporativa não precisam apenas ser aprimoradas. Precisam ser reinventadas. Talvez porque ainda estejamos presos a uma ideia herdada do passado: a de que conhecimento é algo que pode ser simplesmente armazenado, empacotado e transferido.

Mas o conhecimento humano funciona de outra maneira.

Conhecimento é relação. Aprendemos conectando conceitos, experiências, problemas, hipóteses, erros, decisões e contextos. Um profissional experiente não se diferencia apenas porque acumulou mais informações. Ele desenvolveu uma rede mais rica de conexões que lhe permite interpretar situações novas e agir melhor diante da incerteza.

É aqui que os grafos de conhecimento ganham relevância. Não apenas como tecnologia, mas como uma nova metáfora para pensar a aprendizagem.

Durante décadas, organizamos experiências formativas em estruturas lineares: módulos, aulas, trilhas e sequências. Mas o mundo real não se apresenta dessa forma. Problemas reais são interdependentes. Decisões envolvem múltiplas variáveis. Competências combinam conhecimentos, habilidades, experiências, repertórios e contextos.

Os grafos permitem representar essa complexidade. Eles deslocam a pergunta central do desenho educacional. Em vez de perguntar apenas “qual conteúdo vem depois?”, passamos a perguntar: “quais conexões uma pessoa precisa construir para agir melhor diante de um desafio?”e

Essa mudança transforma profundamente a arquitetura da aprendizagem. O ponto de partida deixa de ser o conteúdo e passa a ser o contexto. Quais problemas precisam ser resolvidos? Quais decisões precisam ser tomadas? Quais conhecimentos precisam ser mobilizados? Quais experiências precisam ser construídas para que a aprendizagem se converta em ação?

Nesse cenário, a inteligência artificial também assume um papel diferente. Seu maior potencial na educação não está em produzir ainda mais conteúdo, isso talvez apenas acelere o problema que já temos. O verdadeiro avanço acontece quando a IA ajuda as pessoas a navegar pela complexidade: identificar relações, personalizar percursos, oferecer feedback, estimular reflexão e conectar conhecimento ao momento em que ele precisa ser aplicado.

O reconhecimento internacional da Neo4j a um trabalho brasileiro importa justamente por isso. Não representa apenas a validação de uma solução tecnológica. Representa a participação do Brasil em uma discussão global sobre como redesenhar a aprendizagem em uma sociedade marcada por complexidade, inteligência artificial e mudanças aceleradas.

O futuro da educação provavelmente não será definido por quem consegue criar a maior biblioteca de conteúdos. Será definido por quem consegue construir melhores conexões: entre informação e significado, entre conhecimento e decisão, entre aprendizagem e ação.

Porque aprender nunca foi apenas acumular respostas. Aprender é ampliar nossa capacidade de compreender e transformar o mundo.

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