Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
5 minutos min de leitura
Oferecido por:

Flexibilidade não pode ser benefício

E se o problema não for a falta de compromisso das pessoas, mas a incapacidade das organizações de absorver a forma como elas realmente trabalham hoje?
Engenheira e especialista em transformação organizacional, com mais de 20 anos de experiência liderando operações, melhoria contínua e programas de mudança em contextos internacionais. Atua com desenho do trabalho, liderança e gestão de pessoas a partir de uma perspectiva operacional e sistêmica. É autora da série A Lean Book.

Compartilhar:

Durante décadas, organizações foram desenhadas para estabilidade: horários fixos, percursos lineares, presença contínua, disponibilidade previsível. O problema é que o mundo deixou de funcionar assim. Hoje, talento, aprendizagem e até vontade de contribuir aparecem de forma menos linear, mais irregular e menos previsível. Ainda existem, mas já não se encaixam facilmente em estruturas desenhadas para repetição.

E isso começa a ficar visível em todos os lugares: Universidades tentam se adaptar para não perder alunos; empresas perdem talento porque os modelos de trabalho continuam desenhados para controle presencial e disponibilidade contínua; e até organizações sem fins lucrativos descobrem que já não conseguem absorver novas formas de voluntariado.

Quando a vontade existe, mas o modelo não

Uma organização sem fins lucrativos quer voluntários jovens. Publica que precisa deles. Mas, na prática, os recusa porque aparecem duas horas às terças-feiras, desaparecem na época de provas e retornam em julho. A estrutura foi construída para presença semanal, consistente, durante anos. Esse voluntário existe. Tem 60 anos e tempo livre. O jovem com duas horas irregulares não se encaixa.

A vontade de contribuir existe. A estrutura não foi desenhada para absorvê-la.

Segundo um estudo da Charities Aid Foundation (2024), 68% dos potenciais voluntários dizem não conseguir assumir um compromisso por falta de tempo contínuo disponível, e não por falta de vontade. E a Stanford Social Innovation Review reportou que mais de 30% das ONGs enfrentam dificuldades operacionais justamente por modelos de voluntariado rígidos, que afastam perfis com disponibilidade irregular.

Esse problema não é novo. Em operações, existe um nome para esse tipo de tensão: Mura.

Nem toda variabilidade desaparece

No Sistema Toyota de Produção, hoje amplamente adotado como referência de gestão em diferentes setores, Mura se refere à irregularidade no fluxo: volume que sobe e desce, ritmo que varia, demanda que não chega de forma constante. A resposta convencional é tentar nivelar o fluxo, reduzir irregularidades e criar capacidade de absorção sem gerar desperdício ou sobrecarga.

Essa lógica é extremamente eficaz em contextos de produção física, onde reduzir variabilidade melhora previsibilidade, fluxo e eficiência. O problema surge quando a mesma lógica é aplicada a sistemas humanos sem distinguir variabilidade operacional de variabilidade humana. Existe uma diferença importante entre variabilidade que o sistema consegue absorver e variabilidade que acaba sendo transferida para as pessoas.

Quando isso acontece, recebe outro nome: Muri. Sobrecarga. O esforço humano que compensa aquilo que o sistema não conseguiu absorver.

Muri é o que o burnout mede. Muri é o que o cliente sente quando o atendente resolve três problemas ao mesmo tempo. Muri é o que acontece quando o único colaborador que sabe executar determinado processo está de férias e a operação para.

Não eliminamos MURA. Criamos MURI.

O “recurso humano” ideal já não existe

No mundo corporativo, o padrão é claro. Segundo a FlexJobs, três em cada quatro colaboradores considerariam sair se a flexibilidade desaparecesse. Em 2024, 80% das empresas reportaram já ter perdido talento por causa de mandatos de retorno ao escritório. E vagas remotas ou híbridas, que representam apenas 20% das ofertas no LinkedIn, recebem 60% das candidaturas.

O sistema foi construído para o colaborador ideal: full-time, presencial, com disponibilidade constante. O colaborador real, que tem talento, quer contribuir, mas só consegue trabalhar três dias por semana ou remotamente, não se encaixa. E vai para onde se encaixa.

O custo não aparece em uma linha do orçamento. Aparece na rotatividade, no recrutamento que nunca termina e no conhecimento institucional que sai pela porta.


Flexibilidade é capacidade operacional

Se a variabilidade já faz parte da realidade, então flexibilidade deixa de poder ser tratada como exceção, benefício ou política opcional. Passa a ser capacidade operacional.

Absorver Mura não é aceitar caos. É desenhar sistemas que funcionem com contribuição real, e não com contribuição ideal.

O que aprendi com a Toyota é que o objetivo nunca foi eliminar toda a variabilidade. Foi desenhar sistemas capazes de absorvê-la sem gerar sobrecarga.

Isso exige deixar de pensar flexibilidade como “acomodação” e começar a tratá-la como decisão estrutural de design operacional.

O exemplo mais claro que vi implementado foi em um cargo de C-level em uma empresa de seguros na Austrália. A posição de Head of Department foi dividida entre duas líderes em regime part-time, com perfis comportamentais complementares. O cargo foi redesenhado em torno da capacidade real disponível e da combinação de competências necessárias: uma com forte orientação analítica; outra centrada em relações e pessoas. O sistema deixou de depender de uma única pessoa disponível em tempo integral e passou a funcionar com variabilidade incorporada ao próprio desenho.

Não foi uma política de flexibilidade. Foi uma decisão de arquitetura.

Essa lógica pode assumir muitas formas: contratos part-time, bancos de horas, equipes divididas por complementaridade, benefícios flexíveis que cada colaborador adapta à própria realidade ou percursos de aprendizagem modulares. O princípio é o mesmo: desenhar sistemas em torno da capacidade real disponível, e não de um único modelo de presença e disponibilidade.

O mesmo princípio aparece em outros contextos: universidades que começam a reconhecer microcertificações permitem que estudantes com vidas não lineares acumulem competências reais sem abandonar percursos que não cabem em cinco anos consecutivos. ONGs que criam pacotes de voluntariado por horas conseguem captar contribuição que antes era simplesmente desperdiçada.

Em todos os casos, a variabilidade já existia. O que mudou foi a capacidade do sistema de recebê-la.


A pergunta que vale fazer

Antes de concluir que as pessoas não se comprometem, que o talento é escasso ou que a irregularidade representa falta de disciplina, vale perguntar: o sistema foi desenhado para a contribuição que existe, ou para a contribuição que gostaríamos que existisse?

Sistemas que tentam eliminar Mura à força não se tornam mais eficientes, tornam-se mais frágeis. E mais dependentes de pessoas que compensam aquilo que o sistema não consegue absorver, até que deixam de conseguir fazê-lo.

Talvez o problema não seja a variabilidade das pessoas. Talvez seja continuarmos desenhando sistemas para um mundo que já deixou de existir.


Inspirado numa ideia frequentemente atribuída a Charles Darwin: “Não sobrevive o mais forte nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta à mudança.”

Compartilhar:

Artigos relacionados

Reduzimos o analfabetismo. Agora precisamos evitar que os jovens abandonem a escola.

Pela primeira vez, a taxa de analfabetismo entre brasileiros com 15 anos ou mais ficou abaixo de 5%. O avanço, porém, expõe uma nova urgência: milhares de jovens continuam deixando a escola para trabalhar. O desafio agora é construir caminhos que permitam estudar, gerar renda e desenvolver competências para um mercado de trabalho em rápida transformação.

Entre o burnout, a felicidade e a IA: o que aprendemos no Mind Summit 2026

Em sua primeira experiência em um grande evento de negócios, duas estudantes foram convidadas a refletir sobre temas que impactam diretamente a nova geração de profissionais. O resultado foi uma jornada de descobertas sobre bem-estar, propósito, trabalho e o papel das pessoas em um futuro cada vez mais tecnológico.

O futuro da governança continua sendo humano

Com a participação de nomes como Christopher Garman, Thomas Shannon, Sergio Rial, Jeane Tsutsui e Guilherme Horn, o Congresso IBGC 2026 propõe um debate sobre um dos temas mais relevantes da atualidade: como exercer liderança e governança em um mundo marcado por inteligência artificial, incertezas geopolíticas e mudanças cada vez mais rápidas, sem abrir mão das competências que permanecem essencialmente humanas.

Crédito justo depende de informação, não apenas de regulação

Investigações sobre práticas abusivas colocam em evidência a necessidade de repensar a relação entre instituições financeiras e consumidores. Em um ambiente marcado por inovação digital e alta demanda por crédito, a transparência deixa de ser apenas uma obrigação regulatória e passa a ser condição essencial para a sustentabilidade do setor.

O conselho do Mind Summit 2026: mens sana in “corporate” sano

Das reflexões de Amy Edmondson sobre segurança psicológica aos alertas de Michael Long sobre a economia da atenção, passando pelas provocações de Paul Goldsmith e Deepika Chopra, a última edição do Mind Summit revelou um ponto em comum: o futuro do trabalho dependerá menos da capacidade das máquinas e mais da nossa habilidade de preservar aquilo que nos torna humanos em meio à aceleração tecnológica.

Vendas, Liderança
17 de setembro de 2026 15H00
Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

Carol Manciola - CEO da Conectas e autora dos best sellers #BORA BATER META, Coragem e mais alguns Cês da Vida e do recém-lançado Vendas Movem o Mundo.

Oferecido por:
7 minutos min de leitura
Marketing
17 de setembro de 2026 13H00
As principais lições para quem está entrando no mundo das buscas generativas e quer entender como marcas passam a ser encontradas, citadas e recomendadas pelas IAs

Clayton Melo - Jornalista, estrategista de inovação, GEO PR, storytelling estratégico e comunicador de futuros. Tem MBA em Marketing pela FGV, Master em Foresight e Design de Futuros pela ESPM e formação em Leadership for the AI Age (MIT Professional Education) e Multimedia Storytelling pela University of the Arts London. É diretor de IA, Foresight e Inovação da GBR.

Oferecido por:
Direito, Regulação & Compliance
17 de setembro de 2026 08H00
Quando uma grande empresa entra em recuperação judicial, os impactos não ficam restritos ao seu balanço. Fornecedores deixam de receber, investimentos são adiados, empregos ficam ameaçados e a atividade econômica perde força, criando um efeito dominó que alcança empresas e consumidores em todo o país.

João Alberto Graça - Advogado, consultor em Direito Tributário, Societário e Governança Corporativa, membro do Conselho de Contribuintes e Recursos Fiscais do Estado do Paraná

Oferecido por:
5 minutos min de leitura
Liderança
16 de setembro de 2026 18H00
Ao observar a comunicação constante de um pequeno grupo de galinhas-d’angola, o autor encontrou uma metáfora surpreendente para um dos maiores desafios dos líderes: perceber, interpretar e responder aos sinais que as pessoas emitem antes que o silêncio, a desmotivação ou a ruptura se tornem irreversíveis.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

Oferecido por:
12 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de setembro de 2026 14H00
A área branca se tornou um ativo estratégico! Energia, refrigeração, distribuição elétrica e gestão térmica passaram a determinar quais infraestruturas conseguirão acompanhar a próxima geração da transformação digital.

Felipe Vasco da Silva - Diretor de Aplicações Tecnológicas para a América Latina da Vertiv

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
16 de setembro de 2026 08H00
Em tempos de exposição digital permanente, o compartilhamento de fotos e informações de crianças nas redes sociais exige uma reflexão cada vez mais necessária: até que ponto registrar memórias é diferente de tornar a infância pública? O fenômeno do sharenting convida pais e responsáveis a repensarem os limites entre afeto, privacidade e responsabilidade no ambiente online.

Ana Bia Medeiros - Líder em Educação na Kiddle Pass

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
15 de setembro de 2026 14H00
Mais conectado, informado e exigente, o consumidor de hoje compara sua experiência de hospedagem com os melhores serviços que encontra em qualquer setor. Em um mercado cada vez mais competitivo, o futuro dos hotéis dependerá da combinação entre inovação, eficiência e de pessoas que tenham a capacidade de criar experiências memoráveis

Rodrigo Miluzzi - Diretor de Operações do Grupo Mabu

Oferecido por:
6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
15 de setembro de 2026 08H00
A partir de uma conversa com Rogério Almeida, principal executivo do Cristália, este artigo discute como investimentos de longo prazo em pesquisa, tecnologia e capacidade produtiva podem contribuir para a construção de maior autonomia científica e industrial no Brasil.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

Oferecido por:
23 minutos min de leitura
Tecnologia e inovação, Estratégia
14 de setembro de 2026 18H00
A pergunta tem aparecido cada vez mais nas reuniões de orçamento. O desafio é que a resposta raramente está no código. Mais do que anunciar o fim do SaaS, a nova onda tecnológica está redefinindo onde o valor do software realmente está, quem o captura e quais capacidades as organizações escolherão desenvolver ou contratar.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

Oferecido por:
13 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
14 de setembro de 2026 14H00
Um erro pesa mais do que dez acertos! A ciência mostra que experiências negativas exercem um impacto desproporcional sobre nosso comportamento. Nas organizações, essa tendência pode fazer com que líderes se tornem especialistas em apontar falhas e deixem invisíveis os comportamentos que fortalecem resultados, aprendizado e colaboração.

Valter Bahia Filho - Autor e consultor educacional de Neurociência e Comportamento, Psicologia Positiva, Comunicação, Artes e Gestão de Pessoas.

Oferecido por:
12 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução