Liderança, Cultura organizacional
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Futebol feminino: O que mulheres aprendem quando têm espaço para competir?

A conquista histórica do São Paulo no Brasileirão Feminino vai além do esporte e convida a uma reflexão sobre como desenvolvemos competências que costumam ser associadas à liderança. O artigo explora como experiências vividas dentro e fora das organizações ajudam a construir confiança, influência, resiliência e capacidade de disputar espaços de forma saudável, preparando novas gerações para desafios que começam muito antes do primeiro cargo de liderança.
CEO da BOLD HRO, Maria também atua como headhunter e ex- Robert Half

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Foto: Rubens Chiri/São Paulo FC


No sábado, 3 de outubro, 49.405 pessoas ocuparam o MorumBIS para assistir à decisão do Campeonato Brasileiro Feminino entre São Paulo e Corinthians. O jogo terminou em 1 a 1 e, depois da vitória por 2 a 1 na partida de ida, o São Paulo conquistou o título por 3 a 2 no placar agregado. Foi o maior público da história do Brasileirão Feminino A1 e uma imagem forte do espaço que o futebol praticado por mulheres vem conquistando no país.

A cena fala de visibilidade e representatividade, mas me provocou por outra razão. Poucos dias antes, eu havia lido um artigo do World Economic Forum sobre a relação entre esporte e liderança feminina. Nas 57 economias analisadas pelo Global Gender Gap Report 2026, mulheres representam, em média, 46% das posições de entrada e 23% do C-level. No mesmo texto, uma pesquisa da Deloitte mostra que 85% das mulheres entrevistadas que praticaram esporte consideram as habilidades desenvolvidas nessa experiência importantes para seu sucesso profissional; entre mulheres em posições de liderança, o número chega a 91%.

O dado não permite concluir que praticar esporte leve alguém à liderança, e seria simplista tratá-lo dessa forma. Ainda assim, ele abre uma pergunta interessante: onde, afinal, aprendemos a liderar?

Não é novidade dizer que o esporte desenvolve disciplina, resiliência ou trabalho em equipe. O ponto que me interessa está numa dimensão sobre a qual falamos com menos conforto, especialmente quando discutimos mulheres e carreira: o esporte também ensina a competir.

Organizações dependem de colaboração, mas convivem com recursos finitos, ideias concorrentes, promoções disputadas e posições de influência que nem sempre podem ser ocupadas por todos ao mesmo tempo. Em algum momento, qualquer profissional que queira ampliar sua responsabilidade terá de defender uma ideia diante de oposição, tornar sua contribuição visível, concorrer por uma oportunidade ou dizer, com clareza, que deseja determinada cadeira. Isso faz parte do trabalho e, quando bem estruturado, não precisa produzir um ambiente hostil.

Na minha experiência acompanhando carreiras, vejo mulheres muito conscientes da importância de construir relações de confiança, colaboração e segurança psicológica. Essa é uma evolução importante. O cuidado está em não transformar segurança em sinônimo de ausência de tensão. Competição saudável não pressupõe agressividade, assim como colaboração não exige abrir mão de ambição.

Uma leitura recente do meu curso de liderança em Oxford me ajudou a nomear essa tensão. Em artigo da MIT Sloan Management Review, Megan Reitz e John Higgins propõem um framework para ampliar a qualidade da atenção dos líderes. Entre os elementos que favorecem esse estado aparecem, lado a lado, Safety e Conflict. Segurança cria condições para que as pessoas possam se expor e participar; conflito, quando produtivo, interrompe o piloto automático, desafia modelos mentais e amplia perspectiva. O desenvolvimento não acontece apenas no conforto. Ele também depende de ambientes em que seja possível experimentar tensão sem transformar tensão em ameaça.

O esporte oferece um laboratório particularmente claro desse mecanismo. Há um objetivo, regras compartilhadas, pressão, feedback, interdependência e um placar que não permite esconder completamente a performance. É possível querer vencer uma adversária e respeitá-la, perder sem transformar a derrota em uma definição de identidade, reconhecer a excelência do outro sem diminuir a própria ambição e competir hoje com alguém com quem será preciso colaborar amanhã.

Essa aprendizagem conversa diretamente com o capital político. No ambiente profissional, capital político não é sinônimo de politicagem; ele se constrói por reputação, relações de confiança, visibilidade, alianças e capacidade de mobilizar pessoas em torno de uma agenda. Exercê-lo exige posicionamento. Quem associa qualquer disputa a toxicidade pode ter mais dificuldade de ocupar esse espaço, mesmo sendo tecnicamente excelente.

Talvez por isso a conversa sobre mulheres e esporte seja mais relevante do que parece. Não porque mulheres precisem se tornar mais competitivas, uma generalização que empobreceria o tema, mas porque vale ampliar os ambientes em que meninas e mulheres podem experimentar ambição, exposição, performance e disputa de forma construtiva. O próprio World Economic Forum chama atenção para um dado preocupante: por volta dos 14 anos, meninas abandonam o esporte a uma taxa aproximadamente duas vezes maior que a dos meninos. Se o esporte é um dos espaços em que algumas dessas capacidades podem ser praticadas, o acesso e a permanência nele também merecem ser vistos por essa lente.

A discussão ganha urgência num momento em que a inteligência artificial está redesenhando o trabalho e, em especial, as experiências de início de carreira. Segundo o World Economic Forum, mais de um em cada três jovens trabalhadores está em ocupações com exposição média ou alta a mudanças de tarefas impulsionadas por IA. Ao mesmo tempo, pensamento analítico, resiliência, flexibilidade, agilidade, liderança e influência social seguem entre as competências centrais apontadas por empregadores. Quanto mais fácil se torna acessar informação e automatizar partes do trabalho, mais importante fica pensar onde as pessoas terão oportunidade de praticar julgamento, autorregulação, influência, colaboração e tomada de decisão em situações reais.

Essa é uma pergunta para empresas, mas também para escolas. Se queremos preparar jovens para um mercado em que conhecimento técnico continuará essencial, mas não será suficiente, precisamos olhar com mais intenção para as experiências ao redor do currículo. Esporte, artes, debate, empreendedorismo, projetos coletivos e atividades comunitárias expõem jovens a formas diferentes de responsabilidade, frustração, cooperação, conflito, feedback e recuperação. Não precisam virar ferramentas utilitárias de carreira para terem valor; basta reconhecermos que parte importante da formação acontece quando o conhecimento encontra a realidade.

Foi por isso que voltei à imagem do MorumBIS. Havia ali quase 50 mil pessoas vendo mulheres quererem vencer em público, com intensidade, pressão, regra e respeito. Para as meninas nas arquibancadas, a mensagem não estava apenas em enxergar mulheres ocupando aquele campo. Estava também em enxergar mulheres competindo sem que a ambição precisasse ser escondida ou desculpada.

Talvez a liderança comece muito antes do cargo, quando aprendemos a sustentar uma posição, conviver com o desconforto de uma disputa, perder sem encolher e vencer sem precisar diminuir o outro. Se quisermos ampliar a presença feminina na liderança, vale olhar também para os ambientes em que essas capacidades começam a ser praticadas. O esporte é, claramente, um deles.

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