Liderança, Cultura organizacional
5 minutos min de leitura

Futebol feminino: O que mulheres aprendem quando têm espaço para competir?

A conquista histórica do São Paulo no Brasileirão Feminino vai além do esporte e convida a uma reflexão sobre como desenvolvemos competências que costumam ser associadas à liderança. O artigo explora como experiências vividas dentro e fora das organizações ajudam a construir confiança, influência, resiliência e capacidade de disputar espaços de forma saudável, preparando novas gerações para desafios que começam muito antes do primeiro cargo de liderança.
CEO da BOLD HRO, Maria também atua como headhunter e ex- Robert Half

Compartilhar:

Foto: Rubens Chiri/São Paulo FC


No sábado, 3 de outubro, 49.405 pessoas ocuparam o MorumBIS para assistir à decisão do Campeonato Brasileiro Feminino entre São Paulo e Corinthians. O jogo terminou em 1 a 1 e, depois da vitória por 2 a 1 na partida de ida, o São Paulo conquistou o título por 3 a 2 no placar agregado. Foi o maior público da história do Brasileirão Feminino A1 e uma imagem forte do espaço que o futebol praticado por mulheres vem conquistando no país.

A cena fala de visibilidade e representatividade, mas me provocou por outra razão. Poucos dias antes, eu havia lido um artigo do World Economic Forum sobre a relação entre esporte e liderança feminina. Nas 57 economias analisadas pelo Global Gender Gap Report 2026, mulheres representam, em média, 46% das posições de entrada e 23% do C-level. No mesmo texto, uma pesquisa da Deloitte mostra que 85% das mulheres entrevistadas que praticaram esporte consideram as habilidades desenvolvidas nessa experiência importantes para seu sucesso profissional; entre mulheres em posições de liderança, o número chega a 91%.

O dado não permite concluir que praticar esporte leve alguém à liderança, e seria simplista tratá-lo dessa forma. Ainda assim, ele abre uma pergunta interessante: onde, afinal, aprendemos a liderar?

Não é novidade dizer que o esporte desenvolve disciplina, resiliência ou trabalho em equipe. O ponto que me interessa está numa dimensão sobre a qual falamos com menos conforto, especialmente quando discutimos mulheres e carreira: o esporte também ensina a competir.

Organizações dependem de colaboração, mas convivem com recursos finitos, ideias concorrentes, promoções disputadas e posições de influência que nem sempre podem ser ocupadas por todos ao mesmo tempo. Em algum momento, qualquer profissional que queira ampliar sua responsabilidade terá de defender uma ideia diante de oposição, tornar sua contribuição visível, concorrer por uma oportunidade ou dizer, com clareza, que deseja determinada cadeira. Isso faz parte do trabalho e, quando bem estruturado, não precisa produzir um ambiente hostil.

Na minha experiência acompanhando carreiras, vejo mulheres muito conscientes da importância de construir relações de confiança, colaboração e segurança psicológica. Essa é uma evolução importante. O cuidado está em não transformar segurança em sinônimo de ausência de tensão. Competição saudável não pressupõe agressividade, assim como colaboração não exige abrir mão de ambição.

Uma leitura recente do meu curso de liderança em Oxford me ajudou a nomear essa tensão. Em artigo da MIT Sloan Management Review, Megan Reitz e John Higgins propõem um framework para ampliar a qualidade da atenção dos líderes. Entre os elementos que favorecem esse estado aparecem, lado a lado, Safety e Conflict. Segurança cria condições para que as pessoas possam se expor e participar; conflito, quando produtivo, interrompe o piloto automático, desafia modelos mentais e amplia perspectiva. O desenvolvimento não acontece apenas no conforto. Ele também depende de ambientes em que seja possível experimentar tensão sem transformar tensão em ameaça.

O esporte oferece um laboratório particularmente claro desse mecanismo. Há um objetivo, regras compartilhadas, pressão, feedback, interdependência e um placar que não permite esconder completamente a performance. É possível querer vencer uma adversária e respeitá-la, perder sem transformar a derrota em uma definição de identidade, reconhecer a excelência do outro sem diminuir a própria ambição e competir hoje com alguém com quem será preciso colaborar amanhã.

Essa aprendizagem conversa diretamente com o capital político. No ambiente profissional, capital político não é sinônimo de politicagem; ele se constrói por reputação, relações de confiança, visibilidade, alianças e capacidade de mobilizar pessoas em torno de uma agenda. Exercê-lo exige posicionamento. Quem associa qualquer disputa a toxicidade pode ter mais dificuldade de ocupar esse espaço, mesmo sendo tecnicamente excelente.

Talvez por isso a conversa sobre mulheres e esporte seja mais relevante do que parece. Não porque mulheres precisem se tornar mais competitivas, uma generalização que empobreceria o tema, mas porque vale ampliar os ambientes em que meninas e mulheres podem experimentar ambição, exposição, performance e disputa de forma construtiva. O próprio World Economic Forum chama atenção para um dado preocupante: por volta dos 14 anos, meninas abandonam o esporte a uma taxa aproximadamente duas vezes maior que a dos meninos. Se o esporte é um dos espaços em que algumas dessas capacidades podem ser praticadas, o acesso e a permanência nele também merecem ser vistos por essa lente.

A discussão ganha urgência num momento em que a inteligência artificial está redesenhando o trabalho e, em especial, as experiências de início de carreira. Segundo o World Economic Forum, mais de um em cada três jovens trabalhadores está em ocupações com exposição média ou alta a mudanças de tarefas impulsionadas por IA. Ao mesmo tempo, pensamento analítico, resiliência, flexibilidade, agilidade, liderança e influência social seguem entre as competências centrais apontadas por empregadores. Quanto mais fácil se torna acessar informação e automatizar partes do trabalho, mais importante fica pensar onde as pessoas terão oportunidade de praticar julgamento, autorregulação, influência, colaboração e tomada de decisão em situações reais.

Essa é uma pergunta para empresas, mas também para escolas. Se queremos preparar jovens para um mercado em que conhecimento técnico continuará essencial, mas não será suficiente, precisamos olhar com mais intenção para as experiências ao redor do currículo. Esporte, artes, debate, empreendedorismo, projetos coletivos e atividades comunitárias expõem jovens a formas diferentes de responsabilidade, frustração, cooperação, conflito, feedback e recuperação. Não precisam virar ferramentas utilitárias de carreira para terem valor; basta reconhecermos que parte importante da formação acontece quando o conhecimento encontra a realidade.

Foi por isso que voltei à imagem do MorumBIS. Havia ali quase 50 mil pessoas vendo mulheres quererem vencer em público, com intensidade, pressão, regra e respeito. Para as meninas nas arquibancadas, a mensagem não estava apenas em enxergar mulheres ocupando aquele campo. Estava também em enxergar mulheres competindo sem que a ambição precisasse ser escondida ou desculpada.

Talvez a liderança comece muito antes do cargo, quando aprendemos a sustentar uma posição, conviver com o desconforto de uma disputa, perder sem encolher e vencer sem precisar diminuir o outro. Se quisermos ampliar a presença feminina na liderança, vale olhar também para os ambientes em que essas capacidades começam a ser praticadas. O esporte é, claramente, um deles.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Futebol feminino: O que mulheres aprendem quando têm espaço para competir?

A conquista histórica do São Paulo no Brasileirão Feminino vai além do esporte e convida a uma reflexão sobre como desenvolvemos competências que costumam ser associadas à liderança. O artigo explora como experiências vividas dentro e fora das organizações ajudam a construir confiança, influência, resiliência e capacidade de disputar espaços de forma saudável, preparando novas gerações para desafios que começam muito antes do primeiro cargo de liderança.

Tecnologia se compra. Liderança se constrói.

O artigo discute por que sucessão, desenvolvimento de lideranças e fortalecimento da cultura organizacional deixaram de ser temas de RH para ocupar o centro das decisões estratégicas e da competitividade empresarial.

Autonomia não é fazer sozinho

Empresas querem profissionais protagonistas, capazes de decidir e agir com independência. As pessoas querem mais confiança, voz e espaço para fazer escolhas. O desafio é que autonomia costuma significar coisas diferentes para cada lado dessa relação.

Direito, Regulação & Compliance
8 de setembro de 2026 08H00
Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Daniel Cerveira - sócio do escritório Cerveira, Bloch, Goettems, Hansen & Longo Advogados Associados e Coordenador da Comissão de Expansão e Pontos Comerciais da ABF - Associação Brasileira de Franchising

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 14H00
Muito além da programação e da montagem de robôs, o artigo mostra como a robótica educacional está ajudando estudantes a pensar criticamente, experimentar, colaborar e criar soluções para problemas reais, conectando aprendizagem, propósito e impacto social desde a escola.

André Brandão Sala - CEO da Robomind

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 08H00
O Brasil já demonstrou sua capacidade de formar pesquisadores altamente qualificados. O desafio agora é fortalecer as pontes entre universidades, empresas, investidores e empreendedores para que a produção científica gere mais inovação, competitividade e impacto social.

Luiz Caires, PhD - Cofundador e CEO da Vyro Bio

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
6 de setembro de 2026 15H00
Nem sempre a queda de engajamento está relacionada à falta de motivação individual. Muitas vezes, ela surge em ambientes onde as pessoas deixam de se sentir ouvidas, evitam discordar e aprendem que é mais seguro permanecer em silêncio.

Rodrigo Rovaris - Gerente de Gente & Gestão da Blendus

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Marketing & growth
6 de setembro de 2026 08h00
À medida que a produção de conteúdo se torna cada vez mais presente na vida profissional e pessoal, surge uma questão importante: estamos ampliando oportunidades ou naturalizando a ideia de que toda experiência, habilidade e momento da vida precisam ser convertidos em visibilidade, audiência e monetização?

Ingrid Spyker - sócia da Creator Economy

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
5 de setembro de 2026 14H00
A maioria das organizações sabe exatamente quanto faturou ontem. Poucas sabem quanto perderiam se amanhã não conseguissem operar. Ao discutir os impactos financeiros da indisponibilidade de sistemas, o artigo propõe uma mudança de perspectiva: cibersegurança não deve ser vista apenas como um investimento em tecnologia, mas como uma estratégia de proteção da receita, da continuidade operacional e da capacidade do negócio de seguir funcionando diante de incidentes cada vez mais frequentes.

Felipe Berneira - CEO da Pronnus Tecnologia

2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
5 de setembro de 2026 08H00
À medida que a inteligência artificial assume atividades repetitivas e amplia a capacidade analítica das organizações, surge uma oportunidade para redefinir a gestão de pessoas. O artigo mostra como tecnologias aplicadas a remuneração, benefícios e bem-estar podem fortalecer decisões mais inteligentes e personalizadas, sem substituir aquilo que continua sendo exclusivamente humano: empatia, julgamento e liderança.

Natalia Ubilla - Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional
4 de setembro de 2026 14H00
A busca por equidade de gênero não se encerra quando as mulheres conquistam um assento nas mesas de decisão. Ela continua na forma como suas ideias são recebidas, valorizadas e transformadas em influência. Ao discutir comunicação, liderança e protagonismo, o artigo mostra por que fortalecer a voz feminina é também uma estratégia para ampliar diversidade, inovação e resultados nas organizações.

Juliana Algodoal - PhD em Análise do Discurso e especialista em comunicação corporativa

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
4 de setembro de 2026 08H00
As plataformas digitais premiam velocidade, engajamento e adaptação constante. As marcas, por outro lado, dependem de consistência, memória e diferenciação para gerar valor no longo prazo. O artigo explora o conflito entre essas duas lógicas e analisa como algoritmos e inteligência artificial estão influenciando a forma como as organizações constroem relevância e identidade.

Juliana Bezerra - Líder de conteúdo na DEA Design

4 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Direito, Regulação & Compliance
3 de setembro de 2026 18H00
A entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia inaugura um novo cenário para as redes de franquias brasileiras. Com redução gradual de tarifas, acesso mais facilitado a tecnologias e insumos, além da possibilidade de expansão para novos mercados, o franchising passa a enxergar na internacionalização uma oportunidade concreta de crescimento. Ao mesmo tempo, a chegada de concorrentes europeus exigirá das marcas nacionais mais inovação, eficiência e capacidade de adaptação para competir em um ambiente cada vez mais globalizado.

Camila Nicolau - Advogada especialista em Direito Empresarial e Contratual

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução