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Gerar impacto positivo na sociedade e no meio ambiente é um desafio coletivo

A sustentabilidade está no DNA da Natura e a jornada para ser uma empresa Carbono Neutro nos trouxe uma série de desafios e aprendizados. Com compromisso e metas claras, os resultados também apareceram, é claro. Entretanto, por mais que nossas práticas sejam referência no Brasil e no mundo, precisamos atuar de forma ecossistêmica para, juntos, contermos as ameaças ambientais.
Keyvan Macedo é engenheiro especialista em gestão de baixo carbono e mudanças climáticas, responsável pela área de Sustentabilidade de Marcas e Produtos da Natura.

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Estamos diante da maior ameaça ambiental já enfrentada globalmente pela humanidade. As mudanças climáticas causadas pelo aumento das temperaturas médias na Terra representam um risco para a vida humana e a maneira como estruturamos nossa sociedade. Desde o início da Revolução Industrial, a temperatura global aumentou pouco mais de 1°C. Se nada for feito, a Terra ficará 3°C mais quente até o fim deste século, segundo análise da Climate Action Tracker. Não é preciso esperar para saber os efeitos dessa mudança. Desastres causados por eventos climáticos, perda de biodiversidade, extinção de espécies animais e vegetais, prejuízos à agricultura e ao abastecimento alimentar, à saúde humana e ao equilíbrio dos ecossistemas dos oceanos são apenas alguns dos efeitos dessa crise. 

A alteração dos ciclos naturais, causada pelo aquecimento global, já se faz sentir em todos os cantos do globo e deve se agravar, colocando em risco a vida no planeta. 

O desenvolvimento de uma série de atividades econômicas, o crescente consumo de energia de combustíveis fósseis e o desmatamento, entre outros fatores, liberam grandes quantidades de carbono e outros gases de efeito estufa na atmosfera, fazendo com que a temperatura média do planeta suba e o clima mude, com graves consequências para a saúde humana, a economia e o meio ambiente. Isso exige urgentemente uma ação conjunta que leve a mudanças radicais em nosso modo de vida, incluindo a busca de novas tecnologias, novos regulamentos e mesmo o desenvolvimento de novos hábitos de consumo.

Se os dados são alarmantes e os riscos enfrentados bastante tenebrosos para a vida na Terra, todos devemos celebrar um fato histórico: é crescente a consciência de que o aquecimento global representa um risco para a vida no nosso planeta. E ainda estamos em tempo de fazer mudanças nos padrões de comportamento, produção e consumo que assegurarão o cumprimento da nossa responsabilidade comum com as gerações futuras. Na Natura, defendemos que o valor e a longevidade das organizações estão ligados à sua capacidade de contribuir para a evolução da sociedade e seu desenvolvimento sustentável, e que juntos podemos promover as ações necessárias para reduzir, mitigar e nos adaptar às mudanças climáticas. 

**O COMPROMISSO DA NATURA**

Foi nesse cenário de alerta que a Natura assumiu o compromisso de se tornar uma empresa Carbono Neutro, em 2007, com o objetivo de promover uma redução contínua e significativa de nossas emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) e limitar o impacto que causamos. O programa, que na última década evitou a emissão de 1 milhão toneladas de gases de efeito estufa, tinha como desafio inicial englobar toda a cadeia de negócios, da produção de matérias primas até o pós-consumo das embalagens. O que desde então já tornava a nossa posição diferenciada é o fato de priorizarmos a redução das nossas emissões, pois acreditamos que diminuí-las traz mais benefícios do que compensá-las. Isso porque temos a oportunidade de avaliar mudanças em nossos processos e produtos, de identificar tecnologias mais limpas e incentivar a mudança de atitude de todos aqueles que nos cercam. Com isso, estamos contribuindo para a redução de muitos outros impactos não contabilizados no cálculo da emissão de carbono, como aqueles decorrentes, por exemplo, do uso da água. 

Nosso compromisso de redução engloba toda a cadeia produtiva, extrapolando as ações para além das nossas instalações. As emissões que até agora puderam ser reduzidas com ações internas são neutralizadas por meio de editais para projetos de compensação de carbono realizados pela Natura. Em adição à compra de créditos de carbono de projetos provenientes do mercado voluntário e regulado, também apoiamos iniciativas de pequena escala que hoje estão à margem do mercado de carbono, mas são importantes para o combate às mudanças climáticas. Para que essas iniciativas sejam elegíveis ao edital, criamos um conjunto de ferramentas para auxiliar essas organizações a quantificar o impacto climático do projeto proposto. 

Ao assumir publicamente o compromisso de reduzir em um terço as emissões relativas de GEE na atmosfera até 2013, demos nosso primeiro passo rumo à redução da emissão de gases de efeito estufa em nossa cadeia de produção. A meta foi alcançada e, novamente, a empresa se comprometeu a diminuir em mais 33% as emissões até 2020, em relação ao ano base de 2012. 

Esse é um exemplo de como um desafio ambiental pode ser alcançado ao ser incorporado ao processo de planejamento estratégico e de tomada de decisão da empresa. 

O desafio de redução das emissões motivou diversas inovações e gerou inúmeros aprendizados na Natura. O Programa Carbono Neutro influenciou a criação de um sistema de gestão do tema em todas as etapas dos processos de desenvolvimento, produção e comercialização dos produtos. Quando assumimos esse compromisso, sem precedentes no Brasil, demos início a uma transformação na gestão do negócio. Fizemos o inventário de nossas emissões em toda a nossa cadeia de valor e trabalhamos com profissionais envolvidos em diversas etapas, inclusive com fornecedores, para buscar reduções. Escolhemos o carbono por sua transversalidade, que nos permite abordar várias frentes, como eficiência energética, e como um direcionador para a escolha de materiais e ingredientes para nossos produtos. A ideia é adaptar nossas atividades ao equilíbrio do planeta, privilegiando sua biodiversidade e fazendo uso consciente e inteligente de seus recursos, mesclando o que há de melhor na ciência cosmética com o conhecimento tradicional das comunidades envolvidas na cadeia de ativos da sociobiodiversidade brasileira. 

Para recompensar o esforço de todos os colaboradores com o tema, desde 2009 atrelamos o indicador de emissões de GEE à Participação de Lucros e Resultados (PLR) da empresa, estimulando a todos nesse esforço conjunto pela redução. O desenvolvimento de produtos passou a ser acompanhado, desde 2010, por uma calculadora de carbono e é exemplo de como o desafio de reduzir as emissões pode gerar inovação. 

Os resultados que obtivemos até aqui são animadores, mas ainda insuficientes. Desde o início do projeto, foram mais de cinco editais e 36 projetos apoiados pela Natura, com a compensação de 3,4 milhões de toneladas de carbono equivalente. No entanto, sabemos que esse é um desafio global, o qual exige ação cooordenada de todos. 

Em 2015, no Acordo de Paris, líderes de todo o mundo reconheceram que ultrapassar o limite de 2°C acima dos níveis pré-industriais pode trazer consequências catastróficas e, possivelmente, irreversíveis para o planeta. Frear o aquecimento global, porém, não será fácil. 

Temos um papel importante a cumprir. O Brasil, oitava maior economia do mundo, abriga 60% da floresta Amazônica, que desempenha função de reguladora do clima, preservando a umidade do ar. Não basta combater o desmatamento ou reduzir as emissões isoladamente. Nosso futuro depende de um esforço conjunto para equilibrar as dimensões ambientais, sociais, econômicas e culturais. Um esforço que conte verdadeiramente com a participação de todos: governos, empresas e a sociedade.

**ATUAÇÃO ECOSSISTÊMICA**

Em 2017, celebramos 10 anos do Programa Carbono Neutro e ampliamos nossa atuação. Em uma parceria inédita com o Itaú Unibanco, apoiado pelo Instituto Ekos Brasil, lançamos a Plataforma Compromisso com o Clima, cujo objetivo é estimular novos parceiros e fornecedores a neutralizar suas emissões, por meio de projetos nas áreas de energia, agricultura, floresta e tratamento de resíduos, entre outros. Optamos por unir esforços em um edital conjunto, pois acreditarmos que juntos podemos gerar impacto positivo na sociedade e no meio ambiente, já que esse é um desafio coletivo. Estamos certos de que não chegaremos a esse impacto de forma isolada.

A Plataforma busca ainda otimizar recursos, ao compartilhar conhecimentos e boas práticas na seleção de projetos socioambientais, conectando-os aos investidores, ao mesmo tempo em que contribui para viabilizar iniciativas de mitigação dos efeitos climáticos, ampliando também os benefícios para o meio ambiente e para a sociedade. Em 2019, mais duas empresas, B3 e Lojas Renner, passaram a fazer parte da Plataforma.

Juntos, realizamos no início de junho a segunda edição do “Diálogos sobre nova economia”, reunindo empresas, organizações e especialistas para debater os desafios e as oportunidades no combate às mudanças climáticas. Os debates projetaram o tema no contexto atual no Brasil e no mundo, e destacaram os impactos socioambientais, discutindo novos modelos de fazer negócios e atitudes inspiradoras para enfrentar as mudanças climáticas.

Fazemos isso porque queremos criar uma rede de organizações interessadas em potencializar suas estratégias de compensação de gases de efeito estufa, promovendo iniciativas de baixo carbono com impactos socioambientais positivos. É uma iniciativa que está em linha com a nossa crença de que a geração de impacto positivo na sociedade e no meio ambiente é um desafio coletivo. 

O que nos motiva e inspira são iniciativas como o projeto Fogões Eficientes, realizado pelo Instituto Perene. No Brasil, estima-se que 3 milhões de domicílios dependem de lenha para cozinhar. Os fogões eficientes são pensados para produzirem o máximo de calor com menor quantidade de lenha e não deixar que a fumaça se alastre no ambiente das casas e no pulmão das famílias que o utilizam, beneficiando quase 11 mil domicílios na região, impactando principalmente mulheres e crianças. A economia de tempo que seria gasto na coleta de lenha chega a 18 horas semanais. 

Outro destaque é a iniciativa do Instituto Socioambiental, que engaja indígenas e produtores rurais na recuperação das áreas de cabeceiras do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, o que ajuda a deter o assoreamento das nascentes do rio. Para isso, o programa adotou um sistema de plantio de muvuca (mistura de sementes) e agilizou a formação de uma rede de coletores que comercializa as sementes e gera renda para suas comunidades. 

Esses projetos geram, assim, impactos socioambientais que vão além da compensação de carbono. No total, os impactos sociais e ambientais gerados pelos projetos equivalem a um montante valorado em R$ 1,6 bilhão de impacto positivo desde o início do Programa Carbono Neutro, sendo que em média para cada R$ 1 investido são gerados R$ 31 de benefícios para a sociedade (SROI, 2012). Resultado que contempla os aspectos de saúde humana, desenvolvimento comunitário, serviços ecossistêmicos e mudanças climáticas. Os investimentos são relativos apenas aos custos desembolsados pela Natura na compra dos créditos de compensação. Para cada tema avaliado foi realizado o mapeamento dos impactos causados. Os métodos de valoração traduzem a percepção de valor do impacto gerado para as pessoas e o planeta. 

Queremos cada vez mais conectar as iniciativas e os projetos de forma a potencializar seus benefícios socioambientais. Foi pensando em conter o desmatamento na Amazônia e estimular o papel do agricultor familiar para a conservação da vegetação local que desenvolvemos o primeiro projeto de pagamento pela compensação de carbono dentro de sua cadeira produtiva, chamado de Carbono Circular (ou carbon insetting). O projeto remunera as famílias de pequenos agricultores não apenas pela compra de insumos e a repartição de benefícios, mas também pelo serviço de conservação ambiental.

O projeto foi feito, inicialmente, em parceria com a Cooperativa de Reflorestamento Econômico Consorciado e Adensado (RECA), que reúne produtores rurais de Porto Velho (RO) e regiões de entorno no Acre e no Amazonas. Com isso, buscamos ampliar o relacionamento com as comunidades fornecedoras de ativos da sociobiodiversidade na região e reforçar que é economicamente viável conciliar atividades produtivas e manutenção da floresta em pé – quanto menor o desmatamento registrado na área, maior o retorno financeiro dos produtores rurais pelos serviços ambientais. A iniciativa cria um círculo virtuoso, porque traz renda extra para os fornecedores dos ingredientes e aumenta a resiliência da cadeia. O objetivo é que, ao longo desse período, a taxa de desmatamento caia a zero e que outras áreas possam seguir o mesmo modelo. 

Oferecer bens de consumo dentro de uma ética de desenvolvimento sustentável, buscando fomentar benefícios socioambientais em cada produto, é a perspectiva que norteia a Visão de Sustentabilidade da Natura, que prevê que em 2050 a empresa só terá valor se for geradora de impacto positivo. O programa Carbono Neutro é um reconhecido protagonista no meio empresarial e por organizações do terceiro setor nessa agenda que exige inovação e dedicação. 

Essa inovação, contudo, precisa ser coletiva. A Terra é a nossa casa, a única que temos. Não podemos ficar de braços cruzados, depositando expectativas apenas nas autoridades. Combater o aquecimento global e os estragos causados pela ação humana são missões que transcendem o papel dos governos e precisam engajar toda a sociedade – pessoas e empresas aí incluídas. E devemos ir além, fomentando ações de desenvolvimento sustentável, como o fortalecimento de economias locais e a proteção da biodiversidade e dos recursos hídricos. Nosso destino depende do que faremos daqui para frente, para cuidar do nosso planeta. O futuro está em nossas mãos. Vamos construí-lo juntos?

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