Uncategorized

IA: Nova integrante do comitê de crise

Como a Inteligência Artificial contribui para a tomada de decisões em cenários de crise
Faculty de Inteligência Artificial da Singularity University Brazil e pesquisador na Stanford Univeristy nos temas Computação Quântica e Inteligência Artificial.

Compartilhar:

processo de gestão exige tomadas de decisões constantes, desde operacionais até estratégicas. A tomada de decisões sempre carrega incertezas e riscos, e a experiência com situações anteriores similares ou análogas reduz a incerteza e tende a aumentar a assertividade, mesmo que não existam dados históricos ou modelos para apoiar a tomada de decisão. Considere o diagrama que mostra a relação entre experiência e dados disponíveis numa tomada de decisão: tal situação é representada no quadrante 1 do diagrama [veja figura 1, página 23], em que a decisão é tomada por um gestor experiente. 

A disponibilidade de dados históricos de situações similares também auxilia a reduzir a incerteza da decisão, já que análises e modelos podem ser construídos a partir deles. Modelos de inteligência artificial baseados em técnicas de machine learning podem ser treinados com esses dados para oferecer um importante suporte na tomada de decisões, pois extraem dos dados informações complexas que vão além da capacidade humana de processamento [veja figura 2, página 24]. Por exemplo, uma empresa no ramo do varejo alimentício pode utilizar modelos preditivos do comportamento do consumidor em datas especiais para antecipar mudanças na demanda de seus produtos para que otimize suas decisões de compra e estoque de produtos. Tal abordagem baseada em modelos, conhecida como decision intelligence,  contribui para a redução do risco de decisões, já que suportam a tomada de decisões baseadas em evidências. 

Tal situação é representada no quadrante 2 do diagrama, no qual há disponibilidade de um gestor experiente com a situação e dados históricos de situação análoga. Nessas situações há a cocriação de valor, ou seja, uma sinergia entre inteligência artificial e gestor na criação de valor. Esse quadrante representa que a empresa está munida de recursos para uma tomada de decisão com o menor perfil de risco. Um exemplo dessa situação é a utilização de inteligência artificial para auxiliar um gestor a tomar decisões de direcionamento de esforço de sua equipe de vendas a fim de concentrar a utilização de seus recursos comerciais, como flexibilização nas condições comerciais e descontos para os clientes com o maior potencial de fechamento de negócio no quartil. E, ao mesmo tempo, evitar o desperdício de esforço e a utilização de recursos como descontos para os clientes com a menor probabilidade de fechamentos dentro do quartil. Já em situações de crise, apoiar-se em profissionais com experiência e em modelos de inteligência artificial baseados em dados de situações similares constituem boas práticas para minimizar os riscos na tomada de decisões.

O quadrante 3 do diagrama representa a situação em que há disponibilidade de dados históricos, e um modelo é usado para auxiliar um gestor inexperiente a tomar decisões diante da situação que está enfrentando. Nessas situações, as decisões tendem a ser orientadas a dados, já que são mais apoiadas em dados e modelos do que na experiência do gestor. Assim, resultados bons podem ser atingidos com graus de incerteza e de risco mais razoáveis do que seria possível com uma decisão totalmente no escuro. Esse é o caso de muitas start­ups que, mesmo contando com empreendedores inexperientes nos mercados em que atuam, utilizam dados e modelos para a tomada de decisões, obtendo vantagens competitivas.

![](https://revista-hsm-public.s3.amazonaws.com/uploads/a2ff0e88-8ea3-4b7e-94e8-39bf1b9347ed.jpeg)

![](https://revista-hsm-public.s3.amazonaws.com/uploads/aa3ef1e6-6a8d-4b29-a25d-82eab8481f11.jpeg)

**APLICAÇÃO A SITUAÇÕES SEM PRECEDENTES**

Mas e quando a situação é nova, como no caso de uma crise sem precedentes, tal qual a que estamos vivendo atualmente com a pandemia de Covid-19? Não temos experiência com situações anteriores, e nem temos dados históricos de situações semelhantes. Tal situação é representada no quadrante 4, e, esses são os cenários que oferecem o maior risco e incerteza nas decisões, já que se torna difícil a utilização de um processo de tomada de decisões baseadas em evidências. 

Além disso, nessas situações, há diversos fenômenos que emergem, como vieses cognitivos que favorecem decisões emocionais. Exemplo de decisão emocional é o efeito manada, no qual seguir o que a maioria está fazendo traz a percepção de que errar com todos é melhor do que errar sozinho. Esse viés é conhecido como aversão à perda. 

Tais decisões emocionais são baseadas no medo, já que muitas vezes contam com a falta de experiência numa situação nova e a falta de ferramentas para tomada de decisão. Infelizmente essas decisões baseadas no medo são geralmente um bom remédio para nossos egos e emoções, mas não para o resultado do negócio.

No entanto, situações de crise exigem a capacidade de racionalizar no meio do pânico e de entender a dinâmica dos sistemas complexos envolvida no contexto em que a normalidade e o bom senso deixam de governar muito dos comportamentos dos agentes. Mesmo que o gestor seja imune aos vieses cognitivos e tente tomar decisões racionais, há uma dificuldade maior em tais cenários devido ao nível elevado de incerteza e complexidade. 

Nessas situações, muitos dos frameworks existentes, que foram criados para apoiar a tomada de decisões, mostram-se inapropriados ou insuficientes. E é aí que reside a armadilha do racional, pois tais ferramentas foram desenvolvidas em outros cenários e premissas e, se aplicadas indiscriminadamente em novas situações, podem levar a decisões equivocadas.

![](https://revista-hsm-public.s3.amazonaws.com/uploads/24c82938-89dd-4457-99be-dbf3fd0563d7.jpeg)

**GERAÇÃO DE DADOS SINTÉTICOS**

Mas então como utilizar inteligência artificial para apoiar tomadas de decisões com inexistência de dados históricos para treinar modelos de machine learning? A resposta é: por meio da geração de dados sintéticos. Tal abordagem permite que dados sejam criados sinteticamente e possam informar modelos decisórios e treinar modelos de inteligência artificial. Assim, decisões fundamentadas podem ser tomadas com maior confiabilidade e menor viés cognitivo e emocional (figura 3). Recentemente essa estratégia deixou de ser exclusividade dos ambientes de pesquisa e passou a ser adotada por empresas. 

Diversos negócios já estão colhendo os benefícios de utilizar geração de dados sintéticos na tomada de decisões e na inovação de produtos e serviços. De fato, a abordagem também permite que, mesmo em momentos de grande incerteza, empresas testem e validem suas inovações por meio da análise de centenas de milhares a milhões de cenários de go-to-market (GTM), permitindo identificar aqueles que maximizam seus resultados e geram diferenciais competitivos. Com tal abordagem, é possível uma empresa se deslocar, dependendo do grau de experiência de seu gestor com a situação, de uma posição de bastante experiência e poucos dados (quadrante 1) para uma posição com bastante experiência e muitos dados (quadrante 2), ou  ainda, da posição de pouca experiência e poucos dados (quadrante 4) para uma posição com ainda pouca experiência, mas com mais dados que suportem as suas decisões (quadrante 3). Em suma, é possível reduzir a incerteza num processo de tomada de decisão. 

Em 2019, uma grande empresa no setor de tecnologia desejava inovar criando uma solução para controle de tráfego de veículos autônomos, visando a otimização do tráfego para maior fluidez e elevados níveis de segurança. Ou seja, a empresa desejava criar uma solução para um cenário ainda não existente. Para isso, um conjunto de simuladores e ferramentas foram desenvolvidos para simular tal cenário, para que a empresa pudesse validar a tese de seu produto, desenvolver um protótipo inicial, testar sua efetividade, e, com isso, tomar as decisões associadas a estratégias do produto. Um conjunto de simuladores sustentaram a criação de dados sintéticos para a geração de modelos de machine learning que viabilizaram as tomadas de decisões com mais convicção. 

Recentemente, uma empresa do setor de varejo decidiu apostar nesse tipo de solução para otimizar seu negócio. Como resultado, conseguiu racionalizar decisões ligadas a pedidos de compra, gestão de estoque, estratégia de precificação, entrega e fabricação de produtos com uma acurácia muito superior ao processo anterior, aumentando significativamente sua margem e seu faturamento.

**VANTAGENS OBSERVADAS**

Há diversos benefícios na utilização dessa abordagem. O risco e o custo são menores do que pilotos em mercados testes, por exemplo, bem como suportam a tomada de decisão com mais acurácia, pois trazem redução de risco e do grau de incerteza. Além disso, em situações complexas, há uma probabilidade de surgimento de situações difíceis de serem antecipadas. Tais situações são conhecidas em teoria dos sistemas como comportamentos emergentes, e são o resultado de uma complexa interação entre as partes participantes de um ambiente, como, por exemplo, o de negócios. Assim, quando tais situações aparecem nos dados sintéticos, elas podem ser percebidas pelos gestores, que podem aprender a lidar com tais elementos-surpresa antes que os mesmos ocorram na vida real. 

Aplicações muito interessantes são possíveis com a técnica, tais como a utilização de inteligência artificial para encontrar ações para maximização ou minimização de variáveis utilizando dados sintéticos, a criação automática de conjuntos de políticas que permitem redução de custos, de prazos ou ainda aumento de margem ou de receita. Somado a isso, há o grande valor de tal abordagem ser utilizada como uma ferramenta para a conversão sistemática de ameaças em oportunidades a partir de uma atitude proativa da empresa em explorar oportunidades escondidas nas crises.

Considere, por exemplo, o cenário atual. Há muitas oportunidades, como no varejo online e em toda a cadeia alimentar de fornecimento. Outras não tão aparentes, e nesse caso a utilização de IA com dados sintéticos pode abrir caminho para validações de oportunidades de mercado com riscos reduzidos, permitindo às empresas explorar oportunidades em momentos de elevada incerteza. 

Por fim, o que ocorrerá depois que a pandemia for controlada? Como cada ambiente de negócios se comportará no curto e no médio prazo? Será diferente no caso da existência de uma vacina para a prevenção, ou no caso de uma medicação para remediação? Como cada mercado será impactado? Nesse tipo de situação com uma explosão combinatória de cenários e em que há complexas interações entre múltiplos agentes, a utilização de geração de dados sintéticos para alimentar modelos de IA pode se tornar uma ferramenta muito valiosa no apoio à tomada de decisões, bem como permitir que a empresa saia fortalecida perante seus concorrentes.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que equipes entendem a estratégia e ainda assim não executam?

Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Geopolítica da transição: o país precisa transformar potencial em influência

A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos – energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva – que pode transformar sua posição internacional.

Três hipóteses para redesenhar o primeiro degrau da carreira

A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

O mito da prioridade “pra ontem” (e como não enlouquecer sua equipe)

A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Quando o BIM vira uma ilha: a lição do New York Times para a engenharia

Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de agosto de 2026 08H00
Os profissionais de finanças foram treinados para dominar processos, consolidar informações e produzir análises complexas. Mas, em um mundo onde a inteligência artificial faz isso em segundos, a vantagem competitiva passa a estar em outro lugar: na capacidade de transformar informação em contexto, formular perguntas estratégicas e tomar decisões que nenhuma máquina consegue assumir sozinha.

Talita Braga - Diretora Executiva de Finanças da Infor na América Latina

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
17 de agosto de 2026 18H00
Profissionais maduros seguem acumulando repertório, capacidade de julgamento e conhecimento organizacional, mas frequentemente enfrentam uma perda silenciosa de reconhecimento e pertencimento. Ao abordar o conceito de envelhescência, o artigo discute como profissionais experientes podem perder espaço simbólico mesmo permanecendo altamente qualificados e por que reconhecer, valorizar e integrar o repertório acumulado se tornou um desafio estratégico para empresas que desejam preservar conhecimento, fortalecer a sucessão e construir culturas verdadeiramente intergeracionais.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Finanças
17 de agosto de 2026 14H00
Hiperpersonalização, agentes inteligentes, analytics em tempo real e IA generativa já deixaram de ser tendências isoladas e começam a formar uma nova arquitetura para o setor financeiro. O desafio das lideranças passa a ser transformar essas tecnologias em capacidades organizacionais escaláveis, seguras e conectadas aos objetivos estratégicos do negócio.

Diego Souza - Principal Technical Manager no CESAR, e Maria Tereza Nagel - Gerente de Projetos no CESAR

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de agosto de 2026 08H00
À medida que algoritmos passam a influenciar decisões cada vez mais relevantes, cresce uma questão que conselhos e lideranças não podem mais ignorar: quanto poder está sendo delegado à inteligência artificial sem supervisão adequada? O artigo propõe uma reflexão sobre a necessidade de incorporar a IA à agenda de governança corporativa.

Eliana Camejo - Vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli e conselheira de Administração pelo IBGC

3 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças
16 de agosto de 2026 15H00
O envelhecimento populacional, a incorporação de novas tecnologias e o aumento das demandas assistenciais estão pressionando os custos da saúde em níveis inéditos. Mais do que analisar despesas, entender a formação do orçamento hospitalar tornou-se uma competência estratégica para operadoras que buscam conciliar qualidade assistencial, eficiência operacional e sustentabilidade de longo prazo.

Anderson Farias - CEO da TopSaúde Hub

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
16 de agosto de 2026 10H00

Denise Joaquim Marques - Consultora internacional de negócios, especialista em Vendas e Marketing

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
15 de agosto de 2026 14H00
Sistemas desconectados, estoques imprecisos e perdas recorrentes tornam o hortifrúti uma das operações mais complexas do varejo alimentar. Ao contrário das promessas de transformação total, a inteligência artificial vem demonstrando valor justamente onde consegue reconstruir informações, prever demanda e apoiar decisões com impacto direto sobre vendas e desperdício.

Marco Perlman - CEO da Aravita

3 minutos min de leitura
Estratégia, Ecossistema
15 de agosto de 2026 08H00
Embora a maioria das empresas reconheça o potencial dos ecossistemas de parceiros para gerar receita e ampliar mercados, poucas conseguem transformar essa ambição em resultados consistentes. O artigo explora por que a construção de um ecossistema eficaz vai muito além da criação de um canal comercial, exigindo arquitetura, governança, ativação e uma estratégia capaz de conectar parceiros aos objetivos de crescimento do negócio.

Juliana Tubino e Nara Vaz Guimarães - Cofundadoras do Ecossistema Octo e coautoras do best-seller Ecossistema de Parceiros: Método Octo.

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing
14 de agosto de 2026 13H00
Ao visitar um dos vinhedos mais renomados de Bordeaux, o autor encontrou uma reflexão que ultrapassa o universo do vinho e alcança empresas, famílias e instituições. A decisão do Château Lafleur de abandonar uma denominação de origem histórica revela um dilema cada vez mais presente nas organizações: como preservar princípios e identidade em um mundo que exige adaptação constante?

Antonio Carlos Matos da Silva - Conselheiro independente associado ao IBGC

5 minutos min de leitura
Liderança
14 de agosto de 2026 08H00
Após mergulhar em uma crise provocada por escândalos que abalaram sua credibilidade, a SOMPO Holdings encontrou na liderança de Mikio Okumura o impulso para redefinir sua identidade. Inspirado por aprendizados adquiridos no Brasil, o executivo promoveu uma transformação que combinou propósito, tecnologia e foco no cliente para reconstruir a confiança e conduzir a seguradora a resultados recordes.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

13 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução