Tecnologia & inteligencia artificial, Lifelong learning
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Meu filho não usou IA, mas me ensinou algo sobre ela

A partir de uma cena cotidiana, este artigo reflete sobre criatividade, filosofia e o risco de terceirizarmos o pensamento em um mundo cada vez mais automatizado (e por que o verdadeiro diferencial continua sendo a qualidade da nossa atenção).
Fundadora da Zero Gravity Thinking. Consultora e mentora em estratégia, inovação e transformação organizacional.

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Na saída da escola, sentado despretensiosamente na portaria e aguardando o pai chegar, meu filho de 11 anos fazia a lição de casa. Língua Portuguesa. Atividade de aprofundamento textual com técnicas para criar uma narrativa envolvente, descrita como “pintar um quadro”, e sobre “transitar do contar para o mostrar”, conforme as instruções da professora.

Surpresa com o resultado do trabalho dele (e até então sem ter mais contexto sobre o que era a atividade), me peguei questionando (e me senti culpada pelo meu próprio pensamento) se ele não teria pedido uma ajudinha para alguma LLM para fazer sua lição.

“Em uma floresta à noite, as sombras dominam e o barulho da madeira a ranger não para. O cheiro da grama molhada se espalha por todo o ar, os troncos ásperos criam a sensação de perigo a qualquer um, as folhas mortas pintam o chão enquanto os insetos gritam à lua e ao céu. Em uma sala de estar extensa, belos móveis se destacam com sua madeira polida e lisa, o som da música clássica se reproduz com leveza e o cheiro do couro e madeira fluem pela sala, no sofá as almofadas têm estampas que trazem cor ao ambiente e o belo lustre ilumina tudo ao redor. [cenário – o despertar dos sentidos] Um homem aparententemente mau esconde sua realidade sob o disfarce de vilão, sua voz bondosa e postura boa escondem suas reais intenções de se aproveitar … [caracterização – a alma do personagem ]”

A narrativa continua e segue com riqueza de detalhes, um alto grau de abstração e linguagem rebuscada para um garoto tão jovem. De fato, ele não teve ajuda de nenhuma inteligência artificial, mas sim de boas técnicas com alguns “prompts” linguísticos, como o uso de verbos como protagonistas, adjetivos sensoriais, e um forte empurrão da professora para desenvovler uma escrita interativa e viva.

Continuando a cena, ali na portaria da escola, eu senti que o tempo ajudava a colocar as coisas nos seus devidos lugares. E resolvi escrever aqui sobre isto, porque não é apenas sobre o trabalho de Português do meu filho, mas sobre o que aquele exercício revelava sobre como pensamos, como criamos. Conversando com ele sobre o exercício, fiquei observando o seu entusiasmo, seu jeito curioso de olhar o mundo. E foi aí que eu percebi que ali havia uma semente para criar um laboratório vivo de filosofia aplicada à prática diária da criatividade.

Aquela história que ele trouxe para casa é uma lição sobre como a mente funciona quando é deixada à solta, com regras claras, porém sem amarras. E, nesse gesto tão simples de “mostrar” em vez de apenas “contar”, ele lançava uma pergunta antiga da filosofia: como conhecemos o que vivemos? Como transmitir a experiência de forma que o outro possa, de fato, sentir o mesmo?

Comecei a pensar nos fundamentos da criatividade e da inovação, objeto do meu estudo e trabalho, e na urgência de se resgatar o pensamento como prática. Não significa ser contra a tecnologia, mas sim contra a ideia de que a automação substitui o peso do nosso agir consciente. Existe um espaço entre eficiência e a escolha de não terceirizar a nossa mente para máquinas ou atalhos rápidos. Este é um território artesanal, de “craft”, onde a mente humana decide o foco e o sentido das coisas. E este espaço é justamente onde a curiosidade se transforma em insight e o insight se transforma em ação criativa e inovação.

Existem alguns fundamentos filosóficos que podem ajudem a sustentar a nossa criatividade. Vamos a alguns, com nomes complexos (aqui tive que buscar a ajuda da LLM sim!), mas que são conceitos simples para aplicarmos no dia a dia:

  1. Epistemologia prática: ter a consciência de que não basta saber, mas é preciso explicar como chegamos ao que sabemos. Pergunte-se: “como eu sei disso?” para revisar as suas ideias e aquilo que você defende. A cada dia, busque identificar uma decisão, verifique uma evidência direta, pense numa explicação alternativa e registre uma versão revista da ideia. Se faltar evidência, anote o que falta e como testar. Esse hábito aumenta autonomia, reduz certezas prontas e estimula a criatividade ao valorizar o que realmente pode ser verificado pela experiência.

  2. Ética da atenção: escolher o que vale a pena observar, ouvir e registrar. A criatividade aumenta quando temos tempo e espaço para perceber nuances que passariam desapercebidas. Busque capturar os detalhes de uma cena, um tom de voz, uma contradição sutil e permita que essas percepções alimentem novas ideias e soluções.

  3. Hermenêutica do sentido: tudo é interpretação, e cada leitura de uma situação pode abrir uma porta para uma nova forma de ver. O segredo não é a resposta definitiva, mas a qualidade das perguntas que fazemos. Tire alguns minutos diariamente para identificar um viés que pode estar surgindo numa decisão simples (planejamento, escolha de palavras, solução de um problema). Pergunte-se: “Qual evidência sustenta essa posição? Qual evidência poderia desencorajá-la?” Com isto, você irá manter a sua mente vigilante diante da tentação da automatização inconsciente.

Ao sairmos do lugar comum do “modo rápido e eficiente” e mergulharmos no “modo cuidadoso e profundo” da mente, reconquistamos a liberdade de criar e de decidir com mais clareza. Construir bons hábitos para pensar de maneira mais intencional e filosófica nos ajuda a manter a soberania cognitiva em meio a uma era de delegação do pensamento.

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Fundadora da Zero Gravity Thinking. Consultora e mentora em estratégia, inovação e transformação organizacional.

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