Tecnologia & inteligencia artificial, Lifelong learning
5 minutos min de leitura

Meu filho não usou IA, mas me ensinou algo sobre ela

A partir de uma cena cotidiana, este artigo reflete sobre criatividade, filosofia e o risco de terceirizarmos o pensamento em um mundo cada vez mais automatizado (e por que o verdadeiro diferencial continua sendo a qualidade da nossa atenção).
Fundadora da Zero Gravity Thinking. Consultora e mentora em estratégia, inovação e transformação organizacional.

Compartilhar:

Na saída da escola, sentado despretensiosamente na portaria e aguardando o pai chegar, meu filho de 11 anos fazia a lição de casa. Língua Portuguesa. Atividade de aprofundamento textual com técnicas para criar uma narrativa envolvente, descrita como “pintar um quadro”, e sobre “transitar do contar para o mostrar”, conforme as instruções da professora.

Surpresa com o resultado do trabalho dele (e até então sem ter mais contexto sobre o que era a atividade), me peguei questionando (e me senti culpada pelo meu próprio pensamento) se ele não teria pedido uma ajudinha para alguma LLM para fazer sua lição.

“Em uma floresta à noite, as sombras dominam e o barulho da madeira a ranger não para. O cheiro da grama molhada se espalha por todo o ar, os troncos ásperos criam a sensação de perigo a qualquer um, as folhas mortas pintam o chão enquanto os insetos gritam à lua e ao céu. Em uma sala de estar extensa, belos móveis se destacam com sua madeira polida e lisa, o som da música clássica se reproduz com leveza e o cheiro do couro e madeira fluem pela sala, no sofá as almofadas têm estampas que trazem cor ao ambiente e o belo lustre ilumina tudo ao redor. [cenário – o despertar dos sentidos] Um homem aparententemente mau esconde sua realidade sob o disfarce de vilão, sua voz bondosa e postura boa escondem suas reais intenções de se aproveitar … [caracterização – a alma do personagem ]”

A narrativa continua e segue com riqueza de detalhes, um alto grau de abstração e linguagem rebuscada para um garoto tão jovem. De fato, ele não teve ajuda de nenhuma inteligência artificial, mas sim de boas técnicas com alguns “prompts” linguísticos, como o uso de verbos como protagonistas, adjetivos sensoriais, e um forte empurrão da professora para desenvovler uma escrita interativa e viva.

Continuando a cena, ali na portaria da escola, eu senti que o tempo ajudava a colocar as coisas nos seus devidos lugares. E resolvi escrever aqui sobre isto, porque não é apenas sobre o trabalho de Português do meu filho, mas sobre o que aquele exercício revelava sobre como pensamos, como criamos. Conversando com ele sobre o exercício, fiquei observando o seu entusiasmo, seu jeito curioso de olhar o mundo. E foi aí que eu percebi que ali havia uma semente para criar um laboratório vivo de filosofia aplicada à prática diária da criatividade.

Aquela história que ele trouxe para casa é uma lição sobre como a mente funciona quando é deixada à solta, com regras claras, porém sem amarras. E, nesse gesto tão simples de “mostrar” em vez de apenas “contar”, ele lançava uma pergunta antiga da filosofia: como conhecemos o que vivemos? Como transmitir a experiência de forma que o outro possa, de fato, sentir o mesmo?

Comecei a pensar nos fundamentos da criatividade e da inovação, objeto do meu estudo e trabalho, e na urgência de se resgatar o pensamento como prática. Não significa ser contra a tecnologia, mas sim contra a ideia de que a automação substitui o peso do nosso agir consciente. Existe um espaço entre eficiência e a escolha de não terceirizar a nossa mente para máquinas ou atalhos rápidos. Este é um território artesanal, de “craft”, onde a mente humana decide o foco e o sentido das coisas. E este espaço é justamente onde a curiosidade se transforma em insight e o insight se transforma em ação criativa e inovação.

Existem alguns fundamentos filosóficos que podem ajudem a sustentar a nossa criatividade. Vamos a alguns, com nomes complexos (aqui tive que buscar a ajuda da LLM sim!), mas que são conceitos simples para aplicarmos no dia a dia:

  1. Epistemologia prática: ter a consciência de que não basta saber, mas é preciso explicar como chegamos ao que sabemos. Pergunte-se: “como eu sei disso?” para revisar as suas ideias e aquilo que você defende. A cada dia, busque identificar uma decisão, verifique uma evidência direta, pense numa explicação alternativa e registre uma versão revista da ideia. Se faltar evidência, anote o que falta e como testar. Esse hábito aumenta autonomia, reduz certezas prontas e estimula a criatividade ao valorizar o que realmente pode ser verificado pela experiência.

  2. Ética da atenção: escolher o que vale a pena observar, ouvir e registrar. A criatividade aumenta quando temos tempo e espaço para perceber nuances que passariam desapercebidas. Busque capturar os detalhes de uma cena, um tom de voz, uma contradição sutil e permita que essas percepções alimentem novas ideias e soluções.

  3. Hermenêutica do sentido: tudo é interpretação, e cada leitura de uma situação pode abrir uma porta para uma nova forma de ver. O segredo não é a resposta definitiva, mas a qualidade das perguntas que fazemos. Tire alguns minutos diariamente para identificar um viés que pode estar surgindo numa decisão simples (planejamento, escolha de palavras, solução de um problema). Pergunte-se: “Qual evidência sustenta essa posição? Qual evidência poderia desencorajá-la?” Com isto, você irá manter a sua mente vigilante diante da tentação da automatização inconsciente.

Ao sairmos do lugar comum do “modo rápido e eficiente” e mergulharmos no “modo cuidadoso e profundo” da mente, reconquistamos a liberdade de criar e de decidir com mais clareza. Construir bons hábitos para pensar de maneira mais intencional e filosófica nos ajuda a manter a soberania cognitiva em meio a uma era de delegação do pensamento.

Compartilhar:

Fundadora da Zero Gravity Thinking. Consultora e mentora em estratégia, inovação e transformação organizacional.

Artigos relacionados

O cargo que vai sumir não é o que você está pensando

A maior vulnerabilidade da era da IA pode não estar nos profissionais juniores, mas nos cargos criados para coordenar fluxos e transmitir informações. O que acontece quando a tecnologia passa a fazer isso melhor, mais rápido e mais barato?

O futuro da liderança passa pelas mulheres

As mulheres brasileiras nunca estudaram tanto nem estiveram tão qualificadas para ocupar posições de decisão. Este artigo discute por que a desigualdade de representação persiste e como educação, networking e visibilidade continuam sendo fundamentais para transformar preparo em oportunidade.

Marketing & growth, Estratégia, Liderança
23 de junho de 2026 14H00
Uma meta mal definida não impulsiona, trava. Este artigo revela como metas mal calibradas podem desconectar equipes e comprometer resultados, mostrando que o verdadeiro desafio da liderança está em equilibrar ambição e viabilidade para sustentar desempenho ao longo do tempo.

Denise Joaquim Marques -Consultora de negócios especializada em Vendas e Marketing

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
23 de junho de 2026 08H00
Em organizações que cobram inovação, mas penalizam o erro, este artigo revela um paradoxo central: sem espaço para frustração e aprendizado, equipes deixam de evoluir, e a transformação que se busca nunca acontece de fato.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
22 de junho de 2026 15H00
Talvez o maior erro da inovação seja tentar adivinhar o futuro, em vez de entender o que já está diante de nós.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
22 de junho de 2026 09H00
Este artigo mostra como o avanço da IA e da computação em nuvem está redesenhando a eficiência operacional, e por que uma nova geração de gestão de custos se tornou estratégica.

Paulo Laurentys - Chief Commercial Officer (CCO) da A3Data

4 minutos min de leitura
Liderança
21 de junho de 2026 15H00
A partir de uma experiência em meio a mudanças estruturais no setor financeiro, este artigo mostra que, em cenários de alta complexidade, o papel da liderança vai além da operação, exigindo capacidade de sustentar cultura, alinhar expectativas e manter a confiança em meio à incerteza.

Victor Papi - General Manager da Transfeera

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
21 de junho de 2026 08H00
Pagar mais já não basta, médicos estão escolhendo onde trabalhar pelo “como”, não pelo “quanto”. Este artigo revela como a disputa por médicos qualificados está sendo redefinida por fatores estruturais, organizacionais e de experiência profissional.

Rafael Duarte - CEO e fundador do Grupo RD Medicine

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Tecnologia & inteligencia artificial
20 de junho de 2026 14H00
Se mais gente não significa mais resultado, o que ainda justifica equipes gigantes? Este artigo revela como a inteligência artificial está redefinindo estruturas, papéis e critérios de eficiência nas áreas de marketing e growth.

Brian Bittencourt - VP de Growth & Marketing da Woba

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
20 de junho de 2026 08H00
Mais de 92 mil pessoas foram demitidas em tech só nos primeiros meses de 2026, ao mesmo tempo em que big techs reportavam resultados recordes. O Gartner mostra que esses cortes não estão entregando ROI. O problema não é a tecnologia, é a intenção por trás dela.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

12 minutos min de leitura
Lifelong learning, Inovação & estratégia
19 de junho de 2026 14H00
Por trás de um dos reconhecimentos mais cobiçados da AWS, este artigo mostra que o verdadeiro diferencial não está em acumular certificações, mas em construir conhecimento consistente a partir da prática, da comunidade e da evolução contínua.

Alceu Conerado Neto - COO da Dati

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, User Experience, UX
19 de junho de 2026 08H00
A partir de uma cena cotidiana, este artigo expõe um erro recorrente nas organizações: confundir treinamento com preparo e transferir a curva de aprendizagem para o cliente, com impactos diretos na experiência e nos resultados.

Marta Ferreira

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo