Tecnologia & inteligencia artificial, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
4 minutos min de leitura

Na era da IA, o melhor talento pode ser o maior risco

Este artigo propõe analisar como a combinação entre pressão por velocidade, talento autónomo e uso não estruturado de AI pode deslocar a execução para fora dos sistemas formais, introduzindo riscos que não são imediatamente visíveis nos indicadores tradicionais.
Engenheira e especialista em transformação organizacional, com mais de 20 anos de experiência liderando operações, melhoria contínua e programas de mudança em contextos internacionais. Atua com desenho do trabalho, liderança e gestão de pessoas a partir de uma perspectiva operacional e sistêmica. É autora da série A Lean Book.

Compartilhar:

A pressão para responder ao negócio é real.
Mais concorrência. Mais oferta. Campanhas criam picos de demanda. SLAs não admitem falhas. Clientes com mais opções e menos tolerância.

O resultado é previsível: as empresas precisam fazer mais, melhor e mais rápido ao mesmo tempo.

E é nesse contexto que entra o novo perfil de talento: reforçar equipes com profissionais capazes de operar com autonomia desde o primeiro momento. Perfis rápidos, com elevada fluidez digital, que aprendem rápido e executam ainda mais rápido.

Quando a execução deixa de caber no sistema

Na prática, o que tenho observado em diferentes contextos é um desalinhamento crescente entre o tipo de talento que se atrai e a capacidade real dos sistemas onde esse talento vai operar.

Ao longo dos anos, as organizações foram adicionando camadas sucessivas de controle: validações, checkpoints, regras de compliance, requisitos de auditoria, novas funcionalidades. Cada uma dessas camadas foi introduzida com um objetivo legítimo: reduzir risco, garantir consistência, proteger o cliente e manter a operação dentro de ambientes regulatórios cada vez mais exigentes.

O resultado é um tipo de sistema que funciona bem sob estabilidade, mas que tem dificuldade em responder a variações rápidas de volume ou necessidade. Sistemas desenhados para proteger acabam, inevitavelmente, sacrificando velocidade.

Para responder à pressão de capacidade, as organizações passam a recrutar perfis com elevada autonomia e rapidez de execução. O objetivo é claro: ganhar velocidade onde o sistema não consegue.

Mas essa velocidade não é absorvida pelo sistema. É exercida muitas vezes, fora do fluxo formal de trabalho.

É aqui que a inteligência artificial deixa de ser tendência e passa a ser ferramenta operacional do dia a dia.

Segundo dados da Microsoft e da LinkedIn, cerca de 75% dos profissionais do conhecimento já utilizam AI no trabalho, sendo que mais da metade recorre a ferramentas próprias, fora do ambiente corporativo. No Brasil, esse número ultrapassa 80%.

Na prática, isso se traduz em comportamentos muito concretos, respostas a clientes são estruturadas com apoio de ChatGPT para ganhar velocidade e clareza; reuniões são gravadas e transformadas automaticamente em atas por ferramentas como Otter.ai ou Fireflies.ai. Decisões são preparadas com base em informações reorganizadas fora dos sistemas internos, muitas vezes com apoio de documentos temporários, prompts ou automações simples.

Nada disso acontece por desvio. Acontece porque funciona.

Mas é exatamente aqui que surge o risco.

Para ganhar velocidade, a execução passa a acontecer em canais que não foram desenhados para garantir controle, rastreabilidade e proteção de dados. E, nesse movimento, a organização perde visibilidade sobre onde o trabalho acontece, com que informação e sob quais regras.

Quando talento operando a 200 km/h entra em sistemas desenhados para operar a 100, a adaptação não acontece do lado da velocidade, acontece na forma como o trabalho é executado.

À medida que essas práticas se tornam recorrentes, parte da execução deixa de ser totalmente auditável. A informação utilizada nem sempre fica registrada, as decisões deixam de ser totalmente rastreáveis e a interação com o cliente pode sair dos fluxos definidos.

O risco não aparece nos indicadores

Esses desvios não surgem como incidentes isolados. Surgem como pequenas adaptações operacionais que resolvem o imediato, mas que, acumuladas, introduzem riscos concretos: exposição de dados, perda de rastreabilidade, inconsistência na experiência do cliente e dificuldade de auditoria.

Esse comportamento não resulta de negligência. Resulta de um desalinhamento simples.

Talento com elevada capacidade digital, frequentemente em início de carreira, entra em organizações com sistemas complexos, lentos e altamente controlados. Ao mesmo tempo, enfrenta pressão para demonstrar impacto rapidamente.

Entre cumprir o processo ou cumprir o objetivo, a escolha tende a ser clara. E, com ferramentas de AI disponíveis, essa escolha se torna mais fácil e mais rápida de executar.

Enquanto a entrega acontece e os SLAs são cumpridos, o modelo parece funcionar. Mas a complexidade não desaparece – apenas muda de lugar. Sai do sistema formal e passa para a forma como o trabalho é realmente executado.

O problema se torna visível quando é necessário responder a perguntas simples: onde foi tomada uma decisão, com base em qual informação e dentro de qual sistema. Quando a resposta não é clara, o tema deixa de ser eficiência e passa a ser risco operacional, risco reputacional e risco de compliance.

Uma reflexão final

Como escreveu W. Edwards Deming: “Um sistema ruim vai derrotar uma pessoa boa todas as vezes.”

Hoje, isso não se traduz apenas em desempenho. Se traduz em frustração. Talento entra e acaba saindo.

E deixa para trás mais do que uma vaga por preencher: deixa formas de trabalho não formalizadas, fluxos incompletos e exposição que não é imediatamente visível.

Sai o talento. Fica o risco.

A questão já não é apenas como atrair ou reter talento. É mais estrutural:

Quanto da operação já depende de práticas que a organização não vê, e que riscos estão sendo aceitos, todos os dias, para manter a velocidade?

Compartilhar:

Artigos relacionados

A natureza da liderança: o que os patos, as formigas e as árvores podem nos ensinar?

A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza?

Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

RoT ou HoT: a métrica que vai separar os projetos de IA que geram valor dos que apenas consomem orçamento

Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

As empresas não estão tendo resultados com IA. E a culpa é toda delas! 

Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Nem todo problema precisa de inteligência artificial

A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Empreendedorismo, Cultura organizacional, User Experience, UX
18 de julho de 2026 14H00
À medida que os eventos se consolidam como ferramentas de cultura, engajamento e construção de relacionamentos, a escolha dos destinos deixa de ser uma decisão operacional. Este artigo explora como experiências, conexões humanas e identidade local estão redefinindo o papel dos encontros corporativos e transformando cidades em plataformas de desenvolvimento econômico e cultural.

Aziz Camali Constantino - Idealizador e cofundador do Oxigênio Ilhabela

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de julho de 2026 07H00
Enquanto a maioria das empresas não pode se dar ao luxo de substituir sistemas críticos da noite para o dia, startups vêm assumindo um papel estratégico na construção de uma transformação tecnológica mais rápida, modular e segura.

Philippe Rosa - Diretor de Inovação e Novos Negócios da TQI e líder do TQI Ventures

3 minutos min de leitura
Lifelong learning, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de julho de 2026 13H00
Ferramentas de IA já produzem textos, avaliações, vídeos e conteúdos em segundos. Mas a transformação mais importante talvez não esteja na velocidade da produção, e sim na capacidade de redesenhar experiências de aprendizagem que desenvolvam pensamento crítico, prática, feedback e autonomia humana.

Daniel Luzzi - Fundador e CEO da Cognita Learning Lab

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
17 de julho de 2026 08H00
A sensação constante de apagar incêndios não é apenas um problema de produtividade. Este artigo mostra por que organização, gestão da agenda e definição de limites são competências essenciais para preservar desempenho, reduzir o esgotamento e recuperar o controle sobre a própria rotina profissional.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

2 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia
16 de julho de 2026 14H00
Copa do Mundo, Olimpíadas, Super Bowl ou Black Friday: toda vez que a atenção coletiva se concentra em um grande evento, o mercado de mídia muda de comportamento. Entender esse movimento pode ser a diferença entre capturar demanda reprimida ou pagar, mais uma vez, o preço do improviso.

Rafael Mayrink - Empresário, sócio do Neil Patel e CEO da NP Digital Brasil

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de julho de 2026 08H00
Robôs humanoides deixaram de ser protótipo e entraram em produção comercial em série. Enquanto conselhos ainda debatem a IA generativa, a automação física avança sem esperar. O atraso não aparece no balanço, mas se acumula como dívida de reação.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Empreendedorismo
15 de julho de 2026 15H00
Construído sobre a área que durante décadas abrigou a fábrica e a recreativa da Tigre, o Cidade das Águas nasceu de uma pergunta pouco comum ao mercado imobiliário: antes de erguer torres, que tipo de bairro vale a pena construir?

Sandra Regina da Silva - Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios

12 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth, User Experience, UX
15 de julho de 2026 08H00
Enquanto a IA assume processos, diagnósticos e tarefas repetitivas, cresce a importância de competências exclusivamente humanas. O desafio das lideranças não é automatizar mais, mas decidir onde a presença humana gera valor que nenhuma tecnologia consegue reproduzir plenamente.

Ana Flavia Martins - CMO da Algar

3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Inovação & estratégia
14 de julho de 2026 18H00
Da criação do Takkyubin à reinvenção da logística japonesa, a história de Masao Ogura, responsável por transformar a Yamato Transport em um dos maiores cases de inovação logística do Japão. Este artigo revela como os princípios das artes marciais podem oferecer novas perspectivas sobre cultura organizacional, inovação, tomada de decisão e liderança em tempos de transformação.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

16 minutos min de leitura
Lifelong learning, Estratégia, Marketing & growth
14 de julho de 2026 14H00
Este artigo mostra como os eventos corporativos se tornaram ambientes estratégicos de inteligência coletiva, capazes de ampliar repertório, antecipar tendências e reduzir incertezas para líderes e organizações.

Sidnei Metzner - Gestor nacional de vendas da WK

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo