Aretha Duarte – primeira mulher negra latinoamericana a chegar ao topo do Everest | Crédito: Gabriel Tarso
O ano de 2026 marca um novo capítulo para a saúde e a segurança no trabalho no Brasil. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) determina que as empresas incorporem os riscos psicossociais – como estresse, ansiedade e burnout – em seus Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR). Apesar da importância e da proximidade do calendário originalmente previsto, um levantamento nacional da consultoria Heach indica que 68% das empresas no Brasil ainda não sabem como cumprir as novas exigências, evidenciando uma lacuna real de preparação do mercado. Na minha leitura, essa mudança vai além do aspecto regulatório: ela marca uma virada de mentalidade. A saúde mental deixa de ser coadjuvante e passa a ocupar lugar de destaque como ativo estratégico de negócio.
Ao longo da minha trajetória no montanhismo, que me levou a ser a primeira mulher negra latino-americana a alcançar o topo do Everest, aprendi que desempenho sustentável só existe quando corpo e mente estão alinhados. Em ambientes de pressão extrema, como a alta montanha ou o mundo corporativo, ignorar sinais de esgotamento cobra um preço alto. Por isso, vejo a nova NR-1 como um convite para que as organizações amadureçam a forma como enxergam risco, performance e cuidado com as pessoas.
O primeiro movimento necessário é ampliar o próprio conceito de segurança no trabalho. Durante décadas, falamos prioritariamente de prevenção de acidentes físicos. Agora, somos chamados a proteger também o capital humano contra o desgaste emocional crônico. Isso exige sair da zona de conforto e mapear riscos que antes eram invisíveis ou subestimados. Não se trata apenas de compliance, mas de competitividade de longo prazo.
Outro ponto que considero crítico é o papel do corpo e do movimento na regulação emocional. O esporte e o contato com a natureza são ferramentas concretas de saúde mental: a atividade física estimula a liberação de endorfina e serotonina, melhora o humor, o sono e a capacidade de concentração. As Diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para atividade física e comportamento sedentário (2020) associam a prática regular a benefícios mensuráveis de saúde, incluindo melhor bem-estar mental. Na prática, bem-estar não é apenas discurso – é fisiologia aplicada à performance.
Mas nenhuma política de saúde mental se sustenta sem um elemento central: a autoconsciência. Na montanha, reconhecer os próprios limites é questão de sobrevivência. No ambiente corporativo deveria ser parecido. Identificar sinais precoces de sobrecarga, entender como reagimos sob pressão e criar espaços seguros de diálogo são medidas preventivas muito mais eficazes do que qualquer ação corretiva posterior. Empresas que investem em letramento emocional e reflexão estruturada dão um passo importante na direção certa.
Foi a partir dessa visão que desenvolvi programas como o “Todas no Topo”, uma experiência imersiva nas montanhas voltada a mulheres em posição de liderança ou em transição de carreira – trago esse exemplo como ilustração metodológica de desenvolvimento socioemocional. A proposta é traduzir aprendizados reais em contextos de incerteza, nos quais tomada de decisão, comunicação empática, autonomia e colaboração deixam de ser conceitos e passam a ser vivências. Quando nos afastamos do piloto automático e nos reconectamos com ambientes desafiadores, ganhamos clareza sobre nossos padrões de comportamento – algo que o escritório raramente revela com a mesma intensidade.
Essa preparação se torna ainda mais relevante quando olhamos para o cenário atual dos negócios. Vivemos em um ambiente de constantes transformações, caracterizado por volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade – uma realidade que exige líderes e equipes emocionalmente preparados. A nova NR-1, ao enfatizar a antecipação e avaliação de riscos, dialoga diretamente com essa necessidade. É importante notar que, embora haja discussões no Ministério do Trabalho sobre um possível adiamento da implementação das novas exigências voltadas à saúde mental nas empresas, a relevância e a urgência do tema permanecem inalteradas: a gestão dos riscos psicossociais já é um diferencial competitivo e uma demanda social inescapável.
Também é preciso dizer com todas as letras: investir em saúde mental não é apenas obrigação legal; é vantagem competitiva mensurável. Ambientes psicologicamente saudáveis tendem a apresentar menor absenteísmo, maior engajamento, mais produtividade e melhor retenção de talentos. No plano global, a OMS e a OIT estimam que depressão e ansiedade custam à economia mundial cerca de US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade, reforçando a dimensão econômica do cuidado. Em outras palavras, saúde mental é questão de gente – e também de resultado.
No horizonte, o que a NR-1 aponta é a consolidação de uma liderança mais humana e, paradoxalmente, mais estratégica. Na minha experiência, não existe alta performance sustentada sem pausas inteligentes, sem redes de apoio e sem um time que se sinta seguro para performar. A montanha me ensinou uma verdade simples que vale para qualquer organização: ninguém chega ao topo sozinho – e ninguém se mantém lá ignorando os sinais do próprio corpo e da mente.
Se as empresas brasileiras compreenderem a profundidade dessa mudança – e a importância de suas diretrizes, mesmo que haja ajuste no calendário de implementação -, a NR-1 deixará de ser vista como mais uma exigência normativa e passará a ser o que de fato representa: uma oportunidade concreta de construir organizações mais resilientes, produtivas e preparadas para o futuro.




