Artigo

No Brasil, as pessoas querem dinheiro – mas não só

Quais as esperanças e os medos dos trabalhadores? Para os brasileiros, propósito e autenticidade já contam tanto quanto salário
Camila Cinquettié diretora da PwC, com mais de 15 anos de experiência em RH, gestão da mudança, desenho organizacional e desenvolvimento de liderança. Atuou em projetos nacionais e internacionais, com foco em upskilling e diversidade e inclusão.

Compartilhar:

No Brasil, um trabalho com propósito é tão importante quanto o salário. Não se trata de uma afirmação vazia, mas de um dado que atesta que, marcados pela pandemia, os últimos dois anos transformaram profundamente o modelo de trabalho. Se há algo que as empresas estão aprendendo, ou tendo de aprender, é o que realmente importa para os colaboradores. Fatores intangíveis como propósito e a possibilidade de manter a autenticidade no ambiente profissional passaram a ser tão relevantes quanto o salário para o engajamento de seus talentos.

Essa e outras questões foram vistas em nossa pesquisa *Global Hopes and Fears 2022*. Baseada nas respostas de mais de 52 mil trabalhadores de 44 países, é um dos maiores estudos do mundo sobre a força de trabalho. Escutamos as pessoas para entender o que elas estão pensando e, assim, destacar as principais tendências na gestão de pessoas.

No Brasil, o tema “salário” chama a atenção, pois “receber uma remuneração justa pelo meu trabalho” ainda é o fator mais importante a ser avaliado por 83% daqueles que pensam em fazer uma mudança de emprego. Não é uma exclusividade nossa. Salário também é o principal fator no resto do mundo, porém com uma taxa menor, de 71%. No entanto, o engajamento desses profissionais em permanecer na empresa exige mais do que apenas um aumento.

Nesse contexto, o propósito do trabalho é tão importante quanto o salário. As pessoas não escolhem um emprego apenas pela proposta financeira ou possibilidade de crescimento na carreira. Para 81% dos brasileiros, trabalho gratificante é um fator fundamental no emprego. Ser autêntico no ambiente corporativo é visto como essencial para 78% dos respondentes. Essas constatações estão alinhadas com os resultados do mesmo estudo, feito em 2021, quando 75% das pessoas disseram que queriam trabalhar para uma organização que fizesse uma contribuição positiva para a sociedade.

Os profissionais de hoje buscam experiências enriquecedoras, que promovam a flexibilidade, com um ambiente corporativo aberto à inovação e à criatividade. Esses talentos procuram, cada vez mais, empresas com valores e propósito claros e alinhados com o que eles mesmos acreditam. Os brasileiros falam mais sobre esses assuntos do que em outros países: 93% dos participantes afirmam conversar sobre temas sociais sensíveis no ambiente de trabalho. No resto do mundo, a taxa é de 85%.

Alguns gestores ainda temem que discutir essas pautas no local de trabalho crie um campo minado. No entanto, essas experiências trazem um impacto positivo na construção de confiança e empatia entre os profissionais – o que também contribui para uma cultura inclusiva. No Brasil, 41% dos participantes dizem que a empresa oferece apoio para que trabalhem de forma eficaz com pessoas que compartilham pontos de vista diferentes. No mundo, são 31%.

## O poder da especialização
A atitude quanto ao equilíbrio entre vida profissional e pessoal vem mudando nas novas gerações. As pessoas buscam uma relação de confiança com a empresa, o que é mais importante para os jovens, que têm mais medo de perder oportunidades na carreira e tendem a estar menos satisfeitos com o trabalho.

Já o medo da tecnologia como uma ameaça à existência de seus empregos está diminuindo. No Brasil e no mundo, somente 30% dos trabalhadores temem que poderão ser substituídos por máquinas nos próximos três anos. Em 2019, esse percentual era de 50%.

Os dados de nossa pesquisa destacam, também, o que chamamos de empoderamento da força de trabalho. Os profissionais com habilidades especializadas são mais requisitados no mercado – e eles sabem disso. Conforme nossas análises, eles têm maior probabilidade de pedir aumento salarial (43%) e promoções (41%) nos próximos 12 meses. A boa notícia é que esses profissionais tendem a recomendar sua empresa mais vezes do que outros funcionários.

No Brasil e no mundo, estamos enfrentando a escassez de talentos: há mais vagas de empregos do que profissionais com habilidades específicas no mercado de trabalho. Com isso, a pessoa especializada reconhece que, hoje em dia, possui poder de barganha em suas mãos, o que acaba sendo mais um desafio para as empresas. Esses profissionais estão mais confiantes em falar de remuneração e propósito, algo que mostra que as organizações precisarão repensar seu modelo de gestão de pessoas e sua cultura para lidar bem com esse cenário.

Ignorar o desejo dos profissionais por oportunidade e crescimento na carreira, e deixar de compreender o que importa para eles se engajarem, é perigoso no atual clima do mercado de trabalho. Isso pode afetar até mesmo a competitividade e a sustentabilidade dos negócios. A implantação de um programa de qualificação pode ajudar na crise de recrutamento. Embora o interesse nesse tipo de aprimoramento não seja novo, ele vem crescendo nos últimos anos.

Um dado que nos chamou a atenção em nossa pesquisa é que, globalmente, 40% das empresas estão fazendo up-skilling, ou seja, aprimoramento das habilidades e de conhecimentos dos profissionais. Porém, esse número no Brasil é preocupantemente inferior: somente 27%. Desenvolver pessoas para atuar nesse contexto complexo de mundo competitivo e em constantes mudanças é cada vez mais relevante para a produtividade dos negócios.

As pessoas querem e precisam se desenvolver no contexto digital e tecnológico, mas é importante lembrar também que, embora as conversas sobre o futuro do trabalho geralmente se concentrem na automação e na nova economia digital, o upskilling não se limita à tecnologia. O conceito pode incluir tanto hard skills quanto soft skills; ele foca habilidades digitais e humanas, que ajudam as pessoas a realizar melhor o trabalho. A aprendizagem não é um processo único: ela deve ser contínua e alavancada pela cultura organizacional.

## Demandas e desejos
O peso da tecnologia e da “revolução verde” no futuro dos empregos também tem destaque na preocupação dos profissionais. Apenas um terço das pessoas dizem que a empresa as ajuda a reduzir o impacto ambiental de seu trabalho. As pessoas estão demandando que as empresas mirem além do desempenho financeiro para abordar questões de ESG mais amplas, principalmente.

Uma parcela significativa dos profissionais não identifica uma preocupação de seus líderes com bem-estar. Essas mesmas pessoas não acreditam que sejam remuneradas de forma justa ou que podem ser criativas no ambiente de trabalho. Por isso, ao reavaliar suas estratégias de talentos, as empresas precisam levar em conta essas insatisfações. O papel do líder, hoje, é relevante nesse processo e precisará auxiliar as empresas a dar significado, humanidade e impacto social à força de trabalho. Em nossa pesquisa, notamos a importância que as pessoas dão ao sentimento de satisfação em relação ao trabalho e à capacidade de serem ouvidas por seu gestor.

O aumento na taxa de desligamentos voluntários é mais uma prova dessa nova realidade. Apesar do alto índice de desemprego, um terço das demissões registradas em março de 2022 no Brasil foram voluntárias, número recorde para um único mês, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). Segundo levantamento global da PwC, 19% dos profissionais brasileiros e do mundo dizem estar extremamente ou muito propensos a mudar de emprego. Além disso, a pesquisa também aponta que 64% dos brasileiros pretendem pedir aumento no próximo ano, em comparação com 57% no mundo.

Ainda de acordo com a pesquisa, 68% dos brasileiros dizem que seu trabalho requer algum nível de treinamento especializado, e 40% percebem lacunas de competências (é a quarta maior taxa do mundo). Esses dados nos chamam a atenção e corroboram o fato de que poucas empresas no Brasil estão investindo no aprimoramento de seus funcionários, algo essencial para que as pessoas exerçam suas habilidades com excelência.

A ERA DIGITAL ESTÁ MUDANDO OS NEGÓCIOS e isso altera a forma como trabalhamos e pensamos. Para alcançar o sucesso, as empresas precisam contar com suas pessoas engajadas para contribuir. Isso só será possível com o alinhamento da estratégia de talentos à estratégia de negócios e com a comunicação transparente da abordagem de capital humano. Isso muda como as pessoas exercem suas atividades, como resolvem problemas, colaboram, inovam e como se relacionam com clientes internos e externos.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Nem todo problema precisa de inteligência artificial

A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Villain Era: a oportunidade das marcas para escutar quem cansa de agradar

Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Por que a filosofia voltou a ser uma ferramenta de gestão

Ao recorrer a pensadores como Foucault, Hannah Arendt e Kant, o artigo mostra por que cultura, ética, reflexão crítica e capacidade de julgamento continuam sendo ativos indispensáveis para líderes e organizações que desejam tomar melhores decisões em um mundo cada vez mais automatizado.

A tecnologia muda. A essência da advocacia permanece.

Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Chega de olhar pelo retrovisor

A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.

Liderança
27 de junho de 2026 08H00
Na estreia da coluna do Grupo Mulheres do Brasil, este artigo mostra que a liderança do futuro não será construída por decisões individuais, mas pela capacidade de mobilizar diversidade, escuta e inteligência coletiva para enfrentar desafios que já não cabem em uma única visão.

Andrea Gasques - Diretora de Comunicação do Grupo Mulheres do Brasil

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de junho de 2026 14H00
Ao revisitar os 30 anos do CESAR, este artigo mostra por que, em um mundo cada vez mais automatizado, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de formar pessoas que saibam interpretar, conectar e dar sentido ao conhecimento.

Janaina Calazans - Gerente de Ensino Superior da CESAR School

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Lifelong learning, Tecnologia & inteligencia artificial
26 de junho de 2026 08H00
Este artigo revela por que o verdadeiro desafio da IA não é adoção, mas uso intencional, capaz de ampliar o pensamento, e não substituí-lo.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Estratégia, Gestão de recursos
25 de junho de 2026 15H00
A teoria dos jogos expõe o erro estrutural por trás do modelo reativo que consome bilhões sem gerar resultados proporcionais. Este artigo mostra que não falta dinheiro na saúde, falta estratégia para usar.

Dr. Jorge Luiz Andrade - Anestesiologista e vice-presidente da Unimed Nova Iguaçu

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
25 de junho de 2026 08H00
Com o avanço da longevidade e a transformação demográfica, este artigo mostra por que o futuro das empresas depende menos de estratégias de atração e mais da capacidade de liderar diferentes ciclos de vida, repensando saúde, carreira e gestão de pessoas.

Felipe Calbucci - CEO Latam da TotalPass

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
24 de junho de 2026 15H00
Dados, modelo e experiência competem pelo mesmo backlog, e cada frente pode apresentar uma justificativa tecnicamente correta para receber o próximo investimento. Decidir entre elas, exige uma maturidade que poucos times de produto desenvolveram, e uma clareza estratégica que poucas empresas conseguem articular.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo, professor de MBA na USP/ESALQ e FIAP, palestrante e especialista em Inteligência Artificial, Transformação Digital e Produtos Digitais

9 minutos min de leitura
Liderança
24 de junho de 2026 08H00
Este artigo propõe um deslocamento essencial: mais do que acumular informação, a liderança precisa desenvolver discernimento - a capacidade de interpretar com clareza quando a pressão empurra para decisões automáticas.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Liderança
23 de junho de 2026 14H00
Uma meta mal definida não impulsiona, trava. Este artigo revela como metas mal calibradas podem desconectar equipes e comprometer resultados, mostrando que o verdadeiro desafio da liderança está em equilibrar ambição e viabilidade para sustentar desempenho ao longo do tempo.

Denise Joaquim Marques -Consultora de negócios especializada em Vendas e Marketing

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
23 de junho de 2026 08H00
Em organizações que cobram inovação, mas penalizam o erro, este artigo revela um paradoxo central: sem espaço para frustração e aprendizado, equipes deixam de evoluir, e a transformação que se busca nunca acontece de fato.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
22 de junho de 2026 15H00
Talvez o maior erro da inovação seja tentar adivinhar o futuro, em vez de entender o que já está diante de nós.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo