Gestão de pessoas, Liderança, Liderança, times e cultura

O papel dos assemblages na evolução dos sistemas sociais nas organizações

Explorando como mudanças intencionais e emergentes moldam culturas organizacionais através do framework ‘3As’ de Dave Snowden, e como a compreensão de assemblages pode ajudar na navegação e adaptação em sistemas sociais complexos.
É Chief Scientific Officer na The Cynefin Co. Brazil e possui uma trajetória de pioneirismo com agilidade e complexidade. Teve trabalhos de grande destaque envolvendo a disciplina Agile Coaching, como a publicação do livro The Agile Coaching DNA, e introduzindo o conceito de plasticidade organizacional para comunidades e organizações. Na Austrália, esteve envolvido em iniciativas de transformação nas áreas financeira e de segurança civil, onde utilizou complexidade aplicada como base do seu trabalho. Mais recentemente foi Diretor de Business Agility para Americas da consultoria alemã GFT.

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Mudanças são uma constante em qualquer sistema social, sejam eles empresas privadas, comunidades ou nações. Algumas ocorrem de forma intencional, com um objetivo claro – em que há um senso de direção a ser perseguido -, enquanto outras emergem de maneira não intencional, resultando das interações visíveis e invisíveis dentro das organizações.

Frequentemente, essas mudanças emergentes acontecem silenciosamente e podem levar algum tempo para serem percebidas. Esse fenômeno pode ser melhor compreendido através do framework ‘3As’, criado por Dave Snowden, que apresenta três lentes de análise: Assemblage, Agency e Affordance.

# O que é um Assemblage?

Neste texto, trataremos sobre o uso da lente de assemblage para compreender e agir sobre fenômenos complexos em sistemas sociais. Assemblage é uma palavra de origem francesa e, por ser um conceito filosófico relativamente complexo, existem muitas discussões sobre a tradução mais adequada para outras línguas. Dessa forma, para fins didáticos nesse texto, iremos nos referir ao termo ‘assemblage’ em alguns momentos como ‘agrupamento’ ou ‘aglutinação’.

Usando a visão do framework 3As, assemblages são padrões de narrativas aglutinadas ao longo do tempo que determinam uma cultura. Os assemblages representam padrões narrativos heterogêneos que coexistem de maneira dinâmica, se juntam, evoluem e criam efeitos em seu ambiente e uns nos outros. Esse agrupamento de narrativas abrange padrões de crenças, experiências coletivas, entendimentos, expectativas, tropos de significados e práticas culturais, entre outros.

# Como surgem os diferentes tipos de assemblagles?

Do ponto de vista da aglutinação material de corpos, uma cidade pode ser vista como um grande assemblage, com certas fronteiras territoriais bem definidas. Dessa forma, bairros, comunidades locais e famílias também podem ser considerados assemblages menores dentro da estrutura social de uma região. Semelhantemente, empresas também podem ser consideradas assemblages e, consequentemente, departamentos e times podem ser igualmente considerados assemblages que coexistem numa escala menor da organização.

Assemblages também atuam como enunciados, trazendo um caráter narrativo mais aberto, menos codificado e menos territorializado para a aglutinação de padrões semelhantes de ideias, aspirações, expectativas, insatisfações etc. Esses padrões narrativos atuam como uma poderosa cola social e criam um comportamento gravitacional impossível de fugir na maioria das vezes. Isso explica como que características linguísticas e sotaques evoluíram no mundo e também, como que certos padrões de pensamentos, como desejo por liberdade, democracia e até mesmo extremismos políticos, acontecem e se desenvolvem na sociedade.

A enunciação dos assemblages também afeta as aglutinações materiais. Isso explica como certos movimentos de êxodo urbano acontecem pelo consistente agrupamento de padrões narrativos sobre como uma certa região pode ser melhor do que uma outra para morar e trabalhar.

No mundo dos negócios, podemos observar como que os movimentos de compra e venda de ações, ou então, como que certos investimentos em tendências tecnológicas são guiados por aglutinações de padrões narrativos.

A tecnologia por sua vez, sempre exerceu um importante papel atrator para surgimento e evolução das aglutinações narrativas na história humana. Desde a maneira como as primeiras armas de caça evoluíram a partir de pedaços de pedra, passando pela revolução industrial, introdução dos computadores pessoais, popularização da internet, massificação dos smartphones e mais recentemente, a Inteligência Artificial.

A maneira como certas práticas gerenciais, como OKRs (Objective and Key Results) e métodos ágeis, se popularizaram nas organizações, também é uma forma de ver como as aglutinações de padrões narrativos acontecem nas empresas. Da mesma forma que surgem assemblages que promovem certas práticas e conceitos, também há o surgimento de assemblages que representam pensamentos contrários a determinadas ideias. Isso explica como as resistências à mudanças acontecem e também esse fenômeno ajuda a entender como os pensamentos contrários à características como comando-e-controle e a processos rígidos ganharam força nos últimos anos dentro de muitas empresas.

# É possível controlar e prever os assemblages?

Assemblages, com suas interações dinâmicas e imprevisíveis, frequentemente se manifestam no domínio complexo, no qual as relações de causa e efeito só são discerníveis em retrospecto e não são replicáveis. Por isso, o conceito de assemblage é especialmente útil para entender como certos comportamentos surgem e se desenvolvem em ambientes complexos.

O surgimento e a aproximação de narrativas semelhantes é uma forma simples e direta de observar esse fenômeno em ação: uma narrativa inicial atrai outras pessoas com narrativas de teor e significado semelhantes ao longo do tempo. Esse processo escala e atrai mais pessoas que compartilham heurísticas semelhantes sobre valores e visões de mundo, formando o fenômeno característico de uma assemblage.

Pelo ponto de vista antropológico, as narrativas individuais podem existir de maneira isolada e distribuída em sistemas sociais. No entanto, a aproximação dessas narrativas ocorre porque nós, como seres coletivos, buscamos um senso de pertencimento. Saber que existem outras pessoas com histórias de vida e visões semelhantes às nossas é reconfortante e atrativo.

Dave Snowden, criador do Cynefin Framework, explica esse fenômeno da seguinte forma: “a proposta é que, como espécie, temos uma tendência natural à conservação de energia, o que nos leva, em termos coloquiais, a seguir a correnteza. Quando nos contam histórias que ecoam nossas próprias visões e opiniões, somos inclinados a escutar e a repetir essas narrativas com maior frequência. Essa tendência é amplamente exacerbada pelas redes sociais, que reforçam e disseminam esses ecos em uma escala sem precedentes”.

Devido à complexidade natural das interações humanas, não é possível controlar o surgimento e o desenvolvimento de assemblages. Entretanto, uma vez identificado um assemblage, é possível monitorar seus efeitos e implicações, com o objetivo de amplificar as características positivas e reduzir as negativas.

A prática de sense-making também funciona como um importante habilitador para a identificação de assemblages. Ao coletar de maneira diligente diferentes narrativas, é possível extrair padrões de significados que funcionam como grandes atratores de heurísticas e ações em sistemas complexos. Ao realizar essa identificação, líderes podem entender melhores formas de navegar sobre um determinado assemblage.

# Como navegar os assemblages dentro das organizações?

A abordagem de “safe-to-fail probes”, proposta pelo Cynefin Framework, é uma ferramenta especialmente útil para explorar e interagir com sistemas complexos como assemblages. Essa abordagem se concentra na experimentação segura, em que pequenos testes, ou sondas, são realizados de forma paralela para observar como um sistema complexo responde a estímulos ou mudanças. As sondas “safe-to-fail” são projetadas de forma que seus possíveis fracassos não causem danos significativos ao sistema maior, permitindo que os gestores aprendam sobre a dinâmica do sistema sem arriscar suas funcionalidades essenciais.

Em um assemblage, certos pontos ou conexões podem ter impactos desproporcionais sobre o sistema. Por exemplo, a forma como as pessoas adotam certas tecnologias pode causar impactos positivos em temas como produtividade e também, essa mesma forma de adoção, pode causar impactos negativos em questões como segurança da informação ou até mesmo bem-estar psicológico dos colaboradores. As sondagens paralelas permitem que os gestores testem essas conexões e identifiquem pontos de alavancagem onde pequenas intervenções podem levar a mudanças significativas e saudáveis ao sistema, facilitando uma gestão mais efetiva.

Na The Cynefin Co. Brazil há exemplos práticos dessa abordagem, como o ‘safe-to-fail probes’ para ajudar organizações a aprenderem sobre as melhores formas de navegar assemblages relacionados a temas como Inteligência Artificial (IA). De acordo com a vivência da companhia, o tema IA tem disparado assemblages sobre expectativas acerca de maximização de produtividade, eliminação de desperdícios, prevenção e detecção de fraudes e sobre novas formas de organizar o trabalho em torno de produtos digitais.

Os ‘safe-to-fail probes’ têm sido fundamentais para a realização de experimentações paralelas sobre as melhores mudanças em processos, papéis, políticas e estruturas, visando obter o máximo benefício da IA. Ao realizá-la, organizações podem desenvolver uma compreensão mais rica de como um determinado assemblage pode se adaptar ou resistir sob diferentes condições.

Isso é crucial para desenvolver estratégias que aumentem a resiliência e a capacidade de adaptação do sistema organizacional frente a mudanças ou perturbações. Assemblages desempenham uma função determinante nos comportamentos de um sistema social. Ignorar a existência de uma determinada assemblage é nocivo para a resiliência de uma organização e prejudica a própria evolução dos sistemas. Muitas vezes elas são emergentes, inevitáveis e incontroláveis, por essa razão, adotar práticas que estimulem um aprendizado adaptativo é crucial para extrair melhores resultados dessa aglutinação natural de padrões narrativos que vivemos no mundo.

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É Chief Scientific Officer na The Cynefin Co. Brazil e possui uma trajetória de pioneirismo com agilidade e complexidade. Teve trabalhos de grande destaque envolvendo a disciplina Agile Coaching, como a publicação do livro The Agile Coaching DNA, e introduzindo o conceito de plasticidade organizacional para comunidades e organizações. Na Austrália, esteve envolvido em iniciativas de transformação nas áreas financeira e de segurança civil, onde utilizou complexidade aplicada como base do seu trabalho. Mais recentemente foi Diretor de Business Agility para Americas da consultoria alemã GFT.

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