Uncategorized

O que a Dinamarca e os países nórdicos podem nos ensinar sobre igualdade de gênero

Fundadora e CEO da Blend Edu, startup que já tem em seu portfólio empresas como 3M, TIM, Reserva, Movile, Grupo Fleury, TechnipFMC, Prumo Logística, brMalls etc. Thalita também está presente na lista da Forbes Under 30 de 2019, como uma dos 6 jovens destaques na categoria Terceiro Setor e Empreendedorismo Social.

Compartilhar:

Em julho de 2019, a minha startup ([Blend Edu](http://www.blend-edu.com/)) participou de uma competição chamada SDG Tech Awards, organizada pela empresa de origem dinamarquesa chamada [Sustainary](https://www.sustainary.org/sdg-tech-awards-brazil-2019/). O objetivo do prêmio é mapear e reconhecer negócios e tecnologias que impactam positivamente os ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, que, em inglês é representado pela sigla SDG). 

O prêmio contou com 12 finalistas, que concorriam em duas categorias: (i) soluções digitais e (ii) igualdade de gênero. A Blend Edu ficou em primeiro lugar na categoria associada ao objetivo do desenvolvimento sustentável (ODS) número 5 (igualdade de gênero), ganhando uma imersão na Dinamarca, um dos países referência em no assunto.

![](https://revista-hsm-public.s3.amazonaws.com/uploads/9f586079-d73c-4235-a650-918b08af2846.png)

Foto: Fundadora da Blend Edu, [Thalita Gelenske](https://www.linkedin.com/in/thalitagelenske), ao lado da equipe da Sustainary ([Thiago Senden](https://www.linkedin.com/in/thiagosenden/), [Marilia Silveira](https://www.linkedin.com/in/marilia-silveira/), [Human Shojaee](https://www.linkedin.com/in/iamhuman/) e [Diego Valverde](https://www.linkedin.com/in/diego-valverde-98786b15/)).

Estive no país nórdico no período de 06 a 16 de novembro de 2019, quando pude dialogar com startups, pesquisadores da academia e conselheiras de grandes empresas de tecnologia, ganhando uma nova perspectiva sobre a temática. Além disso, também tive a oportunidade de participar de um workshop sobre diversidade na [Copenhagen Business School](https://www.cbs.dk/) e visitar a sede da ONU na cidade.

![](https://lh5.googleusercontent.com/RI5qAd_jk9Jci4goXaIka-9UBgig-ieP6vYTka_fnBX9tyNT3id9OBtEMPPJTfrT4N5c9tiGk5kwTdSHUy7JGboWqL3Ep-QntPDQhkFIFF50tTiehpeskxIRwdRaqsSBdxSBwqY)

Foto: Fundadora da Blend Edu, [Thalita Gelenske](https://www.linkedin.com/in/thalitagelenske), no workshop “Diversity drives innovation” na Copenhagen Business School.

O primeiro ponto inegável é que a Dinamarca está muito à frente do Brasil ao analisarmos a desigualdade de gênero. Segundo dados do [The Global Gender Gap Report](https://www.weforum.org/reports/the-global-gender-gap-report-2018) de 2018 (relatório oficial desenvolvido pelo Fórum Econômico Mundial), vemos que a Europa ocidental (Western Europe, onde a Dinamarca está incluída) é a que possui o melhor índice por região em uma análise global. A América Latina e o Caribe, por outro lado, ficam em 4º lugar no ranking por região (ver imagem abaixo).

![](https://revista-hsm-public.s3.amazonaws.com/uploads/883081c0-03aa-4397-900c-913e3123444a.png)

Ao aprofundarmos a análise individualmente, a diferença fica ainda mais gritante: enquanto a Dinamarca está na posição 13, o Brasil está na posição 95 dentre os 149 países analisados. Claro que, quanto mais próximo da posição 1 (atualmente ocupada pela Islândia), maior a igualdade entre homens e mulheres naquele país.

![](https://lh4.googleusercontent.com/6gK_1pJ_TT8-98GjpEJymbDR1fXyqYZC4wcZBYhd7jmquV9xpdPljUqqClTV1e06dmMUaDlmxNlefndQetbniZwyi8JIzU4AZ0kkvBur_yA83DdueJoqOiwwe_VsCL2EwMgSmb8)

Foto: Thalita em evento da sede da ONU em Copenhagen.

O relatório faz a análise em 4 perspectivas: (i) Participação econômica e acesso à oportunidade; (ii) Educação; (iii) Saúde e sobrevivência; (iv) Empoderamento político. 

É curioso perceber, no entanto, que o Brasil até possui um desempenho relativamente similar à Dinamarca na categoria de educação e saúde. No entanto, a diferença se torna ampla ao explorar os indicadores de participação econômica e acesso à oportunidade, bem como empoderamento político.

Uma das políticas que a Dinamarca e alguns dos países nórdicos (como Islândia, Noruega e Suécia) têm como referência global é chamada licença parental, que pode ser compartilhada pelo pai e pela mãe (ou por casais homoafetivos) após o nascimento do bebê. Enquanto no Brasil a licença maternidade é de 4 meses e a paternidade é de 5 dias (caso a empresa não tenha aderido ao programa empresa cidadã para ampliar para 6 meses e 20 dias, respectivamente), na Dinamarca temos o seguinte cenário:

* Licença maternidade: 4 semanas antes da data prevista para o nascimento, a mãe já pode sair de licença. Após dar à luz, a mãe pode usufruir de 14 semanas (cerca de 3 meses e meio).

* Licença paternidade: Após o nascimento do bebê, o pai pode tirar o período de 4 semanas de licença paternidade.

* Licença parental: o que torna o cenário muito mais avançado do que no Brasil é a licença parental. Após o fim da licença maternidade e paternidade, o casal pode compartilhar (da maneira que preferir) a licença parental de 32 semanas (cerca de 8 meses), que podem ser ampliados por mais 14 semanas.

Mas nem tudo são flores. Ao fazer uma reflexão crítica com o apoio de especialistas locais, percebi que a Dinamarca também tem muito a avançar. Por exemplo, de 2006 até 2018, o país caiu algumas posições (saindo do 8º para a 13ª posição), especialmente devido ao seu desempenho em termos de diversidade em cargos de liderança e diferença salarial.

Este cenário fez com que a consultoria [BCG](https://www.bcg.com/) (Boston Consulting Group) realizasse uma análise das causas raiz do problema, destacando:

* Estereótipos de gênero e padrões sociais: Por mais que o país tenha leis avançadas, os dinamarqueses ainda associam majoritariamente às mulheres o papel de cuidado da família.

* Um teto de vidro criado por causa de políticas e normas culturais: Apesar da Dinamarca ter uma das melhores licenças parentais do mundo (explicada acima), culturalmente ainda é incomum que o pai assuma este papel. Assim, é comum que a licença parental seja usufruída pela mulher.

* A educação e o mercado de trabalho ainda são segregados de acordo com estereótipos de gênero: Mesmo que 56% das estudantes universitárias sejam mulheres, cerca de 30% estão nos campos de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática).

Este contexto sociocultural ainda tem um agravante (citado de forma unânime entre todas as pessoas com quem conversei): muitos dinamarqueses acreditam que o país já atingiu um patamar de referência, não precisando mais endereçar este a desigualdade de gênero.

De acordo com estudo da BCG em 2019, apenas 3% dos homens dinamarqueses – significativamente menos do que seus pares nórdicos – acreditam que existe um viés que precisa ser trabalhado para melhorar os índices de diversidade. Este dado é ainda mais problemático, quando entendemos que os homens ocupam os cargos de liderança da maior parte das organizações no país. Ou seja, os próprios tomadores de decisão não acreditam que medidas precisam ser tomadas.

Este mesmo estudo da BCG, compara o grau de consciência sobre o problema entre diferentes países, entre eles o Brasil. De forma surpreendente, eles colocam os brasileiros com um nível um pouco maior de consciência em relação às desigualdades de gênero existentes. Este foi o dado que eu menos esperava encontrar ao embarcar para a Dinamarca.

Se ainda existem pontos para avanços, uma boa prática pode ser observada em outro país nórdico: a Islândia (número 1 do ranking do Fórum Econômico Mundial).  

Em 2000, o país introduziu uma nova legislação de licença parental, incluindo uma adaptação. Lá, o período de licença parental é de 9 meses e precisa ser compartilhado pelo casal considerando o seguinte cálculo: 3 meses deverão ser retirados obrigatoriamente pela mãe, 3 meses deverão ser retirados obrigatoriamente pelo pai e os meses restantes podem ser divididos entre o casal, da maneira que eles preferirem. Caso o homem opte por não tirar, os 3 meses serão perdidos. Com isso, vemos um crescimento absurdo do número de homens que passam a sair de licença para cuidar os filhos (ver gráfico abaixo), o que contribui para quebrar estereótipos e contribuem para uma melhoria nos índices de igualdade de gênero.

![Parental leave on Iceland](https://revista-hsm-public.s3.amazonaws.com/uploads/fc9fb08f-475c-4dce-8dd5-6c181ea7deb9.png)

Fonte: [Nordic Labour Journal](http://www.nordiclabourjournal.org/i-fokus/in-focus-2019/future-of-work-iceland/article.2019-04-11.9299118347), 2019.

Assim como pontuei [neste artigo no blog da Blend Edu](https://www.blend-edu.com/post/genero_o_poder_do_habito_netflix), este é o tipo de medida que não só tem o potencial para romper diversos paradigmas na gestão empresarial, mas também na forma na qual gerimos nossa carreira, equilibramos nossa vida, vivemos em sociedade e criamos nossos filhos e filhas.

Conteúdo produzido em colaboração entre a [Revista HSM Management](https://revistahsm.com.br/) e a [Blend Edu](http://www.blend-edu.com/), startup referência no desenvolvimento de treinamentos e experiências educacionais sobre diversidade nas empresas.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Se a IA não te recomenda, você não está no jogo

A partir de uma experiência cotidiana de consumo, este artigo mostra como a inteligência artificial passou a redefinir a jornada de compra – e por que marcas que não são compreendidas, confiáveis e relevantes para os algoritmos simplesmente deixam de existir para o consumidor.

Flexibilidade não pode ser benefício

E se o problema não for a falta de compromisso das pessoas, mas a incapacidade das organizações de absorver a forma como elas realmente trabalham hoje?

IA não fracassa no modelo – fracassa no negócio

Muito além do algoritmo, o sucesso em inteligência artificial depende da integração entre estratégia, dados e times preparados – e é justamente essa desconexão que explica por que tantos projetos não geram valor.

O custo oculto da inclusão mal feita

Quando falta preparo das lideranças, a inclusão deixa de gerar valor e passa a produzir invisibilidade, rotatividade, baixa performance e riscos reputacionais que não aparecem no balanço – mas corroem os resultados.

Pressão econômica leva Geração Z ao consumo compartilhado

Quando viver sozinho deixa de ser viável, o consumo também deixa de ser individual – e isso muda tudo para as marcas. Este artigo mostra como a Geração Z está redefinindo consumo, pertencimento e a forma como as empresas precisam se posicionar.

Inovação & estratégia
29 de abril de 2026 13H00
Sua empresa tem um lab de inovação, patrocina hackathon e todo mundo fala em "mindset de crescimento". Mas o que, concretamente, mudou no seu modelo de negócio nos últimos dois anos?

Atila Persici Filho - CINO da Bolder e Professor FIAP

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
29 de abril de 2026 07H00
Este artigo mostra como empresas de todos os portes podem acessar financiamentos e subvenções públicas para avançar em inteligência artificial sem comprometer o caixa, o capital ou as demais prioridades do negócio.

Eline Casasola - CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de abril de 2026 14H00
Em um mundo onde algoritmos decidem o que vemos, compramos e consumimos, este artigo questiona até que ponto estamos realmente exercendo o poder de escolha no mundo digital. O autor mostra como a conveniência, combinada a IA, vem moldando nossas decisões, hábitos e até a nossa percepção da realidade.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de abril de 2026 08H00
Organizações recorrem a parcerias estratégicas para acessar tecnologia e expertise avançada, como a implantação de plataformas ERP em poucas semanas

Paulo de Tarso - Sócio-líder do Deloitte Private Program no Brasil

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
27 de abril de 2026 15H00
A era da produtividade limitada pelo horário terminou. Enquanto ainda debatemos jornadas e turnos, a produtividade já opera 24x7. Este artigo questiona modelos mentais e estruturais que se tornaram obsoletos diante da ascensão dos agentes de inteligência artificial.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
27 de abril de 2026 07H00
Com a nova regulamentação prestes a entrar em vigor, saúde mental, riscos psicossociais e gestão contínua deixam de ser discurso e passam a integrar o centro das decisões corporativas.

Natalia Ubilla - Diretora de RH do iFood Benefícios

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
26 de abril de 2026 15H00
Da automação total às baterias do futuro, ao longo do festival em Austin ficou claro que, no fim das contas, a inovação só faz sentido quando melhora a vida e o entendimento das pessoas

Bruno de Oliveira - Jornalista e editor de negócios do site Automotive Business

3 minutos min de leitura
Empreendedorismo
26 de abril de 2026 10H00
Este artigo propõe um novo olhar sobre inovação ao destacar o papel estratégico dos intraempreendedores - profissionais que constroem o futuro das empresas sem precisar abrir uma nova.

Tatiane Bertoni - Diretora da ACATE Mulheres e fundadora da DataforAll e SecopsforAll.

2 minutos min de leitura
Lifelong learning
25 de abril de 2026 14H00
Quando tecnologia se torna abundante e narrativas perdem credibilidade, a autenticidade emerge como o novo diferencial competitivo - e este artigo explica por quê.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia
25 de abril de 2026 08H00
Um aviso que muita empresa prefere ignorar: nem todo crescimento é vitória. Algumas organizações sobem a régua do faturamento enquanto desmoronam por dentro - consumindo pessoas, previsibilidade e coerência.

Daniella Portásio Borges - CEO da Butterfly Growth

10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão