Liderança
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O que um anti-herói pode nos ensinar sobre liderança?

Neste artigo, a figura do Justiceiro, anti-herói da Marvel Comics, serve como metáfora para discutir o que realmente define o legado de um líder: a capacidade de sustentar princípios quando resultados pressionam, escolhas difíceis se impõem e o custo de fazer o certo se torna inevitável.
Cristiano Zanetta é empresário e palestrante TED, reconhecido nacionalmente por seu trabalho na área da humanização. Autor do livro ‘A Ciência do Batman’, construiu ao longo de mais de duas décadas uma trajetória dedicada a projetos sociais voltados à saúde, unindo empatia e impacto social. Seu trabalho já foi reconhecido por instituições como a Warner Bros., o Exército de Santa Catarina e a Federação Brasileira de Hospitais.

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Existe algo que separa líderes que constroem legados daqueles que apenas acumulam resultados. Esse “algo” raramente aparece em relatórios financeiros, não é medido em dashboards e muitas vezes só se torna visível quando já é tarde demais. Trata-se do código, o conjunto de princípios que um líder sustenta mesmo quando seria mais fácil ou mais lucrativo ignorá-los.

No universo dos heróis, poucos personagens são tão extremos quanto o Justiceiro, anti-herói da Marvel Comics. Ele não negocia. Não relativiza. Não terceiriza responsabilidade. Para ele, o erro tem consequência e a omissão também. À primeira vista, parece um exemplo improvável para falar de liderança. Mas é exatamente aí que está a provocação mais honesta.

O que o Justiceiro carrega é algo que muitos líderes preferem evitar: a coragem de olhar para a verdade. Enquanto isso, no dia a dia das organizações, líderes são pressionados por metas e prazos. E é nesse cenário que as decisões mais reveladoras acontecem.

Cortar pessoas sem critério para melhorar o número do trimestre. Fechar contratos fora dos valores da empresa só para bater meta. Ignorar sinais de alerta em troca de performance imediata.

Funciona? Muitas vezes, sim. Mas a pergunta mais importante não é se funciona. É a que custo.

Muitos líderes erram na direção oposta. Tentam agradar, evitam conflitos e mantêm uma falsa harmonia. Com isso, deixam que a negligência de um destrua o coletivo. Deixam que o silêncio proteja quem errou e acabe prejudicando quem fez certo. O Justiceiro, paradoxalmente, nos lembra de algo que esses líderes evitam encarar: sem responsabilidade, a humanização vira discurso vazio.

Liderar com humanidade exige clareza de valores. Exige proteger o que é certo mesmo quando isso gera desconforto. Exige não permitir que o medo de conflito se disfarce de empatia. Quando um líder evita uma decisão difícil para não desagradar ninguém, quem paga o preço é o time inteiro.

Há exemplos que são conhecidos. A Enron, gigante americana de energia, construiu um império sobre números manipulados e entrou em colapso em 2001 em um dos maiores escândalos de fraude corporativa da história. A Theranos prometeu revolucionar a medicina com uma tecnologia que nunca existiu, chegou a ser avaliada em 10 bilhões de dólares e terminou com sua fundadora condenada à prisão. Em ambos os casos havia competência, havia resultado e havia visibilidade. O que faltava era o código e a disposição de segui-lo nos momentos em que ele custava algo.

Do outro lado, existe um padrão diferente. A Patagônia construiu um negócio global colocando responsabilidade ambiental acima do crescimento a qualquer custo, e isso virou a base da sua reputação por décadas. A Johnson & Johnson, diante da crise do Tylenol nos anos 1980, retirou milhões de produtos do mercado, assumindo prejuízos significativos para proteger consumidores que nem sabiam que corriam risco.

A Natura construiu uma marca reconhecida globalmente a partir de propósito e relações humanas, mantendo essa identidade mesmo sob pressão por expansão e resultado. Nenhuma dessas decisões foi fácil ou barata. Todas foram feitas por líderes que entendiam que o que se preserva nos momentos difíceis vale mais do que o que se ganha abrindo mão dos próprios princípios.

Um estudo publicado no Journal of Personal Selling & Sales Management, conduzido entre 2021 e 2024 por pesquisadores, investigou como a liderança ética é percebida em ambientes de trabalho. Com base em três estudos com profissionais de vendas, os resultados mostraram que quando os colaboradores percebem seus líderes como éticos, eles se sentem mais comprometidos com a organização, e esse comprometimento leva a maior bem-estar e melhor desempenho.

O que chama atenção é que mesmo com o aumento da supervisão remota, esses efeitos se mantêm, o que sugere que a liderança ética continua funcionando mesmo em equipes totalmente à distância.

O líder íntegro não expõe, mas também não acoberta. Não humilha, mas também não se omite. Não pune por ego, mas também não fecha os olhos por medo. Se o Justiceiro representa o extremo da consequência, o líder que queremos falar aqui representa o equilíbrio entre consciência e ação.

Liderar quando tudo está bem é fácil. A dificuldade aparece quando os resultados pressionam e seguir os próprios princípios começa a custar algo. É nesses momentos, e não nos discursos ou nas apresentações de estratégia, que se descobre que tipo de líder alguém realmente é.

Empresas perdem quando perdem a confiança de colaboradores, clientes e mercado. Essa confiança não se reconstrói com um novo plano de metas. Ela se constrói ao longo do tempo, uma decisão após a outra. Líderes não são lembrados apenas pelo que entregaram. São lembrados pelo que preservaram no caminho. Pela forma como trataram pessoas em momentos de crise. Pelo que escolheram não fazer quando poderiam ter feito.

Liderar com justiça exige uma coragem que poucos estão dispostos a ter. E é essa coragem, mais do que qualquer resultado, que define o legado de um líder.

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