Carreira, Cultura organizacional, Gestão de pessoas

O rei está nu: cuidado com a marca empregadora!

Ações de employer branding pensadas para viralizar em posts nas redes sociais preferidas representam engajamento do colaborador e a realidade das organizações?
Atua como consultora em projetos de comunicação, employer branding e gestão da mudança pela Smart Comms, empresa que fundou em 2016. Pós-graduada em marketing (FGV), graduada em comunicação (Cásper Líbero) e mestranda em psicologia organizacional (University of London), atuou por 13 anos nas áreas de comunicação e marca em empresas como Johnson&Johnson, Unilever, Touch Branding e Votorantim Cimentos. É professora do curso livre de employer branding da Faculdade Cásper Líbero, um dos primeiros do Brasil, autora de artigos sobre o tema em publicações brasileiras e internacionais e co-autora do livro Employer Branding: conceitos, modelos e prática.

Compartilhar:

No começo de agosto, um texto crítico ao employer branding circulou bastante em grupos de comunicação e marca empregadora no WhatsApp. Devo ter recebido o link de umas 10 pessoas diferentes, o que rendeu conversas muito boas e a inspiração para falar do tema por aqui.

Intitulado [Workporn: o trabalho distorcido pelo Social Employer Branding](https://www.updateordie.com/2021/08/07/workporn-o-trabalho-distorcido-pelo-social-employer-branding/ “Workporn: o trabalho distorcido pelo Social Employer Branding”), o texto (muito bom!) fala de como, cada vez mais, marcas, organizações e pessoas compartilham sua “versão social” nas redes. Apesar do título apontar para um incômodo com as demonstrações de vidas profissionais sublimes, vividas com alegria e realização plenas nos recortes traiçoeiros dos posts, o texto amplia a crítica ao que Guy Debord chamou, em 1967, de “sociedade do espetáculo”, potencializada a cada nova forma de exposição viabilizada pelas redes.

Ao abrir o leque, o texto entra na esfera daquelas críticas às pessoas que postam fotos comemorando a entrada numa nova empresa com o kit de onboarding ao fundo ou textos de agradecimento ao sair de um emprego. A essas críticas, minha reação costuma ser: deixem as pessoas. Podemos fazer milhares de conexões dessas postagens com algum tipo de pressão organizacional ou com os perigos da identificação excessiva com o trabalho, todas justas e pertinentes, mas tendo a enxergar essas atitudes individuais com um pouco mais de leveza (mas não ingenuidade, que fique claro).

Tempos atrás falei aqui da importância de trabalhar marca empregadora para adultos, um apelo para pensarmos employer branding de uma forma menos romantizada, mais realista e, principalmente, mais madura. Tal maturidade vale para os dois lados – para empresas e para empregados.

### Maturidade: o lado da empresa

Para quem trabalha marca empregadora pela ótica da empresa, maturidade tem um aspecto técnico, com modelos estruturados para aferir o nível de evolução da marca com parâmetros como orçamentos e times dedicados, espaços de comunicação ocupados e assentos nos fóruns decisórios. No entanto, observo na prática que essa maturidade é composta por outros dois aspectos que considero ainda mais importantes e difíceis: autoconhecimento e aceitação.

Há empresas extremamente maduras no nível técnico de marca empregadora que seguem na infância do autoconhecimento e da aceitação. Elas têm cargos de liderança com employer branding no nome, orçamentos dedicados ao tema, canais e stacks de tecnologia invejáveis – mas basta um pulo em sites de avaliações ou uma vasculhada em redes sociais profissionais para encontrar cenários diferentes do cenário que toda essa maturidade técnica pinta para o mercado. Faltou construir essa marca empregadora com o cuidado de ir além da casca, da mídia programática, do programa de jovens talentos.

Há dezenas de modelos para direcionar a construção de um posicionamento de marca e qualquer modelo de respeito – incluindo para marca empregadora – exige olhar para fontes de credibilidade. Simplificando muito, esse elemento ajuda a manter os pés no chão e afirmar somente aquilo que pode ser sustentado. É por isso que uma marca empregadora madura em autoconhecimento e aceitação combinada com maturidade técnica é matadora: atrai bem, retém bem e ainda deixa boas memórias.

E como é difícil chegar nisso. Passa por conhecer a realidade do que é ser empregado nessa organização e aceitar essa realidade – o que não significa conformar-se com ela. Passa por conversas difíceis como, por exemplo, contar para a liderança que um pilar de cultura que está há anos na parede e nos materiais institucionais simplesmente não é percebido pelos funcionários ou, pior, é percebido de forma oposta ao que se espera. Normalmente ninguém contou aos “reis” que esse é o caso – e um trabalho maduro de marca empregadora frequentemente é o que obriga a empresa a encarar que o rei está nu, como no conto [“A roupa nova do rei”].

### Maturidade: o lado do candidato

A assimetria de poder entre empresa e candidato é real e começa no fato de que pouquíssimos de nós realmente podemos fazer escolhas quando se trata de lugares para se trabalhar. Com isso em mente, vale pensar no nosso papel como candidatos (quase todos nós somos candidatos, buscando ativamente ou não uma colocação) e em como podemos ser mais maduros e cuidadosos com as marcas empregadoras que se apresentam nas redes, nos contatos de recrutadores, na comunicação interna e nos muitos outros pontos de contato que nos impactam.

Primeiro, cabe dedicar um tempinho a pensar no espaço ocupado pelo trabalho e pela empresa de que fazemos parte no todo da nossa identidade. Está muito grande? Está tirando espaço de outras coisas? Qual o tamanho do vazio que vai ficar caso esse espaço, frágil por natureza, deixe de ser ocupado pelo crachá da empresa X, Y ou Z?

Depois, vale colocar em prática a mesma crítica que tendemos a aplicar quando vemos, por exemplo, a vida “perfeita” dos atores, influencers e famosos nas fotos tratadas das redes. Conversas, artigos e estudos têm abordado os efeitos nocivos dessa vida filtrada em todos nós e as recomendações são sempre parecidas: reduza o uso e, quando usar, lembre-se de usar o pensamento crítico. Busque outras fontes de informação. Vá para o Glassdoor, para a imprensa, para tudo que existe no site da empresa fora da página de carreiras. Entenda o que a empresa faz, no sentido mais literal, e avalie se o que ela prega como empregadora sustenta o que ela se propõe a entregar como produto ou serviço. Trazendo para a linguagem das redes, lembre-se: “quem vê close não vê corre”. Pesquisa e pergunte sobre o corre quando for abordado por uma empresa, especialmente se você está empregado e numa posição de escolha mais confortável.

Empresa, no seu employer branding, é provável que seu rei esteja nu, ao menos em parte. Se você tem consciência disso, é meio caminho andado. Candidato, *quem vê close não vê corre*. Se você tem consciência disso, já está tomando cuidado com o employer branding.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quem vê as baratas cedo lidera melhor

Os melhores líderes internacionais não se destacam apenas pela estratégia. Destacam-se por perceber cedo os pequenos sinais de desalinhamento entre a matriz e os mercados, antes que eles virem problemas caros.

A NR‑1 encontrou a IA. O modelo antigo não sobrevive.

A nova norma exige gestão contínua de risco, mas só a inteligência artificial permite sair da fotografia pontual e avançar para um modelo preditivo de saúde mental nas organizações. Esse artigo demonstra por que a gestão de riscos psicossociais exige uma operação contínua, preditiva e orientada por dados.

Construa ou arrependa-se

Este artigo desmonta o mito de que “todo mundo já chegou” na inteligência artificial – os dados mostram que não é verdade. E é exatamente aí que mora a maior oportunidade desta década (para quem tiver coragem de começar).

Você não perdeu o controle – perdeu o monopólio da inteligência

O futuro não é humano nem artificial: é combinado. O diferencial está em quem sabe conduzir essa inteligência. Este artigo propõe uma mudança radical de mentalidade: na era em que a inteligência deixou de ser exclusiva do humano, o diferencial competitivo não está mais em saber respostas – mas em fazer as perguntas certas, reduzir a fricção cognitiva e liderar a combinação entre mente humana e IA.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
12 de abril de 2026 14H00
Entre intenção e espontaneidade, a comunicação organizacional revela camadas inconscientes que moldam vínculos, culturas e resultados. Este artigo propõe o Design Relacional como ponte entre teoria profunda e prática concreta para construir ambientes de trabalho mais seguros, autênticos e sustentáveis.

Daniela Cais - TEDx Speake e Designer de Relações Profissionais

9 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
12 de abril de 2026 09H00
Na montanha, aprender a reconhecer os próprios limites não é opcional - é questão de sobrevivência. No ambiente corporativo deveria ser parecido. Identificar sinais precoces de sobrecarga, entender como reagimos sob pressão e criar espaços seguros de diálogo são medidas preventivas muito eficazes.

Aretha Duarte - Primeira mulher negra latino-americana a escalar o Everest

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de abril de 2026 13H00
A adoção de novas tecnologias está avançando mais rápido do que a capacidade das lideranças de repensar o trabalho. Este artigo mostra que a IA promete ganho de performance, mas expõe lideranças que já operam no limite.

Felipe Calbucci - CEO Latam da TotalPass

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de abril de 2026 08H00
Quando a empresa cresce, o modelo mental do fundador precisa crescer junto - ou vira obstáculo. Este artigo demonstra que criar uma empresa exige um tipo de liderança. Escalá‑la exige outro.

Gustavo Mota - CEO do Lance

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de abril de 2026 15H00
Enquanto o Brasil envelhece, muitas empresas seguem desenhando experiências para um usuário que já não existe. Este artigo mostra que quando a tecnologia exige adaptação do usuário, ela deixa de servir e passa a excluir.

Vitor Perez - Co-fundador da Kyvo

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
10 de abril de 2026 08H00
Este artigo mostra que o problema nunca foi a geração. Mas sim a incapacidade da liderança de sustentar a complexidade humana no trabalho.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Marketing & growth
9 de abril de 2026 14H00
À medida que a tecnologia se democratiza, a vantagem competitiva migra para a forma de operar. Este artigo demonstra que como q inteligência artificial já é comum, o diferencial agora está em quem sabe transformá‑la em sistema de crescimento.

Renan Caixeiro - Co-fundador e CMO do Reportei

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia, Liderança
9 de abril de 2026 07H00
O mercado não mudou as pessoas. Mudou o jeito de trabalhar. Este artigo mostra que a verdadeira vantagem competitiva agora não está no que você faz, mas no que você sabe delegar - e no que não delega.

Bruno Stefani - Fundador da NERD Partners

6 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
8 de abril de 2026 16H00
Quando a experiência falha, o problema raramente é tecnologia - é decisão estratégica. Este artigo mostra que no fim das contas o cliente não quer encantamento, ele quer previsibilidade, simplicidade e pouco esforço.

Ana Flávia Martins - CMO da Algar

4 minutos min de leitura
Estratégia, Liderança
8 de abril de 2026 08H00
O bar já entendeu que o mundo virou parte do jogo corporativo. Conflitos, tarifas e decisões políticas estão impactando negócios em tempo real. A pergunta é: o CEO entendeu ou ainda acha que isso é “assunto de diplomata”?

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...