Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
5 minutos min de leitura

A Copa para os brasileiros passou. As bets ficaram. E o impacto no futuro do trabalho também.

Enquanto o sonho do hexa mobilizou milhões de brasileiros, outro fenômeno também ganhou força fora dos gramados. Este artigo discute como o avanço das apostas online está influenciando a relação dos jovens com dinheiro, educação e carreira, e por que empresas e líderes não podem ignorar seus efeitos sobre o futuro do trabalho.
Psicólogo e tutor educacional na Leapy

Compartilhar:

A Copa do Mundo é um dos momentos mais esperados pelos brasileiros. É uma das poucas competições capazes de parar o país, reunir famílias e mexer com o humor de uma nação inteira por algumas semanas. Isso não foi diferente nesta edição. Mesmo após a eliminação da seleção brasileira e o fim do sonho do hexa que mobilizou tantos torcedores, permanece um efeito que vai muito além dos resultados em campo: a explosão das apostas online.

Um levantamento da Creditas em parceria com a Opinion Box mostra que 56% dos brasileiros pensaram em participar de bolões ou bets durante o torneio, índice que chegou a 69% entre os jovens. E há um dado ainda mais revelador: um em cada cinco afirmou que toparia se endividar em busca do sonho do hexa, proporção que subia para 30% na faixa de 18 a 24 anos. A pergunta que devemos fazer é: o que acontece quando o sonho do dinheiro fácil passa a ser vendido com a mesma intensidade de uma campanha rumo ao título mundial?

Segundo a pesquisa “Raio X do Investidor Brasileiro”, da Anbima, 25% das pessoas entre 16 e 28 anos usaram aplicativos de apostas no último ano. A geração Z já responde por dois terços desses apostadores. O custo disso não é apenas financeiro e já aparece na saúde: no Programa Ambulatorial do Jogo (Pro-Amjo), do Hospital das Clínicas de São Paulo, o número de pacientes com menos de 30 anos saltou de apenas um, em 2015, para 58 em 2023 – mais de um terço de todos os atendidos.

Já um levantamento da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior mostrou que um terço dos jovens entrevistados deixou de iniciar uma faculdade por causa de gastos com apostas. Entre os das classes D e E, a proporção chega a 43%, o dobro da observada na classe A. Isso é especialmente preocupante em um cenário em que o diploma segue sendo um dos caminhos mais sólidos de mobilidade: análise da Fundação Getulio Vargas com dados da Pnad Contínua mostra que quem conclui o ensino superior ganha, em média, mais que o dobro de quem tem, no máximo, o ensino médio.

Ou seja, quando uma aposta tira o jovem da sala de aula ou do primeiro emprego, ela não drena apenas um orçamento já apertado; ela fecha uma das poucas portas de saída que ele tinha à frente. Não é só entretenimento. Nunca foi só entretenimento.

Estamos falando, em grande parte, dos mesmos jovens que as empresas contratam como aprendizes e estagiários. Para eles, esse período tem um peso específico: é quando muitos têm o primeiro salário, a primeira conta bancária, as primeiras decisões financeiras de verdade. É uma fase de construção, de descoberta sobre o que o dinheiro pode fazer. Só que, ao mesmo tempo, esses jovens vivem cercados por uma narrativa que promete o atalho. Por que esperar anos se uma aposta pode mudar tudo hoje? A disputa não é pelo dinheiro. É pelo imaginário.

Não é coincidência que essas plataformas falem tão bem a língua dos jovens. Elas patrocinam times, ocupam as transmissões e se associam aos ídolos que essa geração admira. Não por acaso, durante toda a trajetória da seleção e no período que antecedeu a Copa, alguns dos nomes mais populares do futebol brasileiro apareceram anunciando casas de apostas. O recado que fica é o de um sucesso rápido, fácil e referendado por aqueles que são admirados.

A resposta para essa sedução pode parecer óbvia para quem já tem experiência. Mas, para quem ainda está formando sua relação com o dinheiro e com o trabalho, ela é real. Construir patrimônio exige tempo, consistência, aprendizado e uma série de decisões que não têm nada de glamourosas. As apostas vendem exatamente o contrário.

Nada disso significa demonizar quem aposta, tratar cada jovem como vítima passiva ou, muito menos, torcer contra a festa que o futebol proporciona. Significa admitir que existe uma disputa em curso pela forma como uma geração imagina o próprio futuro.

Significa também constatar que não se trata apenas de uma questão social, mas de um problema que afeta diretamente os resultados das empresas. Outro levantamento da Creditas, realizado com mais de 400 gestores e profissionais de RH, mostra que 59% deles já perceberam queda de produtividade associada às apostas, enquanto 21% relatam aumento da rotatividade. Mais da metade também observa funcionários enfrentando dificuldades financeiras em decorrência das bets.

Reconhecer isso não cobra das empresas um papel de polícia, mas de formação. Na prática, significa criar espaços de conversa franca sobre dinheiro, risco e frustração; oferecer educação financeira como parte da jornada de desenvolvimento; e, sobretudo, dar a esse jovem aquilo que a aposta promete e não cumpre: uma possibilidade real de crescimento, com passos concretos e conquistas que se sustentam.

A Copa ainda não terminou, mas vai terminar, como todas terminam. O sonho do hexa ficou para uma próxima oportunidade. O que não pode acabar é o esforço de lembrar a esses jovens que existe um caminho mais lento e mais difícil, porém muito mais sólido do que qualquer aposta. Se as plataformas digitais vendem o sonho do ganho fácil, quem educa precisa continuar oferecendo – e construindo – o sonho possível.

Afinal, sonhar grande não é ilusão, mas direito.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Se o estagiário lidera a reunião, quem é o líder?

Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

A natureza da liderança: o que os patos, as formigas e as árvores podem nos ensinar?

A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza?

Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

RoT ou HoT: a métrica que vai separar os projetos de IA que geram valor dos que apenas consomem orçamento

Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

As empresas não estão tendo resultados com IA. E a culpa é toda delas! 

Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Liderança
12 de agosto de 2026 14H00
Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
12 de agosto de 2026 08H00
O artigo defende que o verdadeiro valor surge quando a IA deixa de operar de forma isolada e passa a integrar toda a jornada de negócio, conectando pessoas, processos, dados e governança em um único sistema de performance.

Guilherme Stefanini - CMO do Grupo Stefanini, CEO da Stefanini Marketing e sócio da W3haus e Gauge.

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de agosto de 2026 08H00
A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Marcelo Paiva - Diretor de Operações da Formel D

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
9 de agosto de 2026 14h00
Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Estela Brunhara - Sócia e Diretora de Consumer Behavior & Estratégia da FutureBrand São Paulo

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
9 de agosto de 2026 08H00
Ao recorrer a pensadores como Foucault, Hannah Arendt e Kant, o artigo mostra por que cultura, ética, reflexão crítica e capacidade de julgamento continuam sendo ativos indispensáveis para líderes e organizações que desejam tomar melhores decisões em um mundo cada vez mais automatizado.

Denilson Shikako - CEO e fundador da Fábrica de Criatividade

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Inovação & estratégia
8 de agosto de 2026 14H00
Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Flávio Pinheiro Neto - Sócio-fundador do escritório Flávio Pinheiro Neto Advogados

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo