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A Copa para os brasileiros passou. As bets ficaram. E o impacto no futuro do trabalho também.

Enquanto o sonho do hexa mobilizou milhões de brasileiros, outro fenômeno também ganhou força fora dos gramados. Este artigo discute como o avanço das apostas online está influenciando a relação dos jovens com dinheiro, educação e carreira, e por que empresas e líderes não podem ignorar seus efeitos sobre o futuro do trabalho.
Psicólogo e tutor educacional na Leapy

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A Copa do Mundo é um dos momentos mais esperados pelos brasileiros. É uma das poucas competições capazes de parar o país, reunir famílias e mexer com o humor de uma nação inteira por algumas semanas. Isso não foi diferente nesta edição. Mesmo após a eliminação da seleção brasileira e o fim do sonho do hexa que mobilizou tantos torcedores, permanece um efeito que vai muito além dos resultados em campo: a explosão das apostas online.

Um levantamento da Creditas em parceria com a Opinion Box mostra que 56% dos brasileiros pensaram em participar de bolões ou bets durante o torneio, índice que chegou a 69% entre os jovens. E há um dado ainda mais revelador: um em cada cinco afirmou que toparia se endividar em busca do sonho do hexa, proporção que subia para 30% na faixa de 18 a 24 anos. A pergunta que devemos fazer é: o que acontece quando o sonho do dinheiro fácil passa a ser vendido com a mesma intensidade de uma campanha rumo ao título mundial?

Segundo a pesquisa “Raio X do Investidor Brasileiro”, da Anbima, 25% das pessoas entre 16 e 28 anos usaram aplicativos de apostas no último ano. A geração Z já responde por dois terços desses apostadores. O custo disso não é apenas financeiro e já aparece na saúde: no Programa Ambulatorial do Jogo (Pro-Amjo), do Hospital das Clínicas de São Paulo, o número de pacientes com menos de 30 anos saltou de apenas um, em 2015, para 58 em 2023 – mais de um terço de todos os atendidos.

Já um levantamento da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior mostrou que um terço dos jovens entrevistados deixou de iniciar uma faculdade por causa de gastos com apostas. Entre os das classes D e E, a proporção chega a 43%, o dobro da observada na classe A. Isso é especialmente preocupante em um cenário em que o diploma segue sendo um dos caminhos mais sólidos de mobilidade: análise da Fundação Getulio Vargas com dados da Pnad Contínua mostra que quem conclui o ensino superior ganha, em média, mais que o dobro de quem tem, no máximo, o ensino médio.

Ou seja, quando uma aposta tira o jovem da sala de aula ou do primeiro emprego, ela não drena apenas um orçamento já apertado; ela fecha uma das poucas portas de saída que ele tinha à frente. Não é só entretenimento. Nunca foi só entretenimento.

Estamos falando, em grande parte, dos mesmos jovens que as empresas contratam como aprendizes e estagiários. Para eles, esse período tem um peso específico: é quando muitos têm o primeiro salário, a primeira conta bancária, as primeiras decisões financeiras de verdade. É uma fase de construção, de descoberta sobre o que o dinheiro pode fazer. Só que, ao mesmo tempo, esses jovens vivem cercados por uma narrativa que promete o atalho. Por que esperar anos se uma aposta pode mudar tudo hoje? A disputa não é pelo dinheiro. É pelo imaginário.

Não é coincidência que essas plataformas falem tão bem a língua dos jovens. Elas patrocinam times, ocupam as transmissões e se associam aos ídolos que essa geração admira. Não por acaso, durante toda a trajetória da seleção e no período que antecedeu a Copa, alguns dos nomes mais populares do futebol brasileiro apareceram anunciando casas de apostas. O recado que fica é o de um sucesso rápido, fácil e referendado por aqueles que são admirados.

A resposta para essa sedução pode parecer óbvia para quem já tem experiência. Mas, para quem ainda está formando sua relação com o dinheiro e com o trabalho, ela é real. Construir patrimônio exige tempo, consistência, aprendizado e uma série de decisões que não têm nada de glamourosas. As apostas vendem exatamente o contrário.

Nada disso significa demonizar quem aposta, tratar cada jovem como vítima passiva ou, muito menos, torcer contra a festa que o futebol proporciona. Significa admitir que existe uma disputa em curso pela forma como uma geração imagina o próprio futuro.

Significa também constatar que não se trata apenas de uma questão social, mas de um problema que afeta diretamente os resultados das empresas. Outro levantamento da Creditas, realizado com mais de 400 gestores e profissionais de RH, mostra que 59% deles já perceberam queda de produtividade associada às apostas, enquanto 21% relatam aumento da rotatividade. Mais da metade também observa funcionários enfrentando dificuldades financeiras em decorrência das bets.

Reconhecer isso não cobra das empresas um papel de polícia, mas de formação. Na prática, significa criar espaços de conversa franca sobre dinheiro, risco e frustração; oferecer educação financeira como parte da jornada de desenvolvimento; e, sobretudo, dar a esse jovem aquilo que a aposta promete e não cumpre: uma possibilidade real de crescimento, com passos concretos e conquistas que se sustentam.

A Copa ainda não terminou, mas vai terminar, como todas terminam. O sonho do hexa ficou para uma próxima oportunidade. O que não pode acabar é o esforço de lembrar a esses jovens que existe um caminho mais lento e mais difícil, porém muito mais sólido do que qualquer aposta. Se as plataformas digitais vendem o sonho do ganho fácil, quem educa precisa continuar oferecendo – e construindo – o sonho possível.

Afinal, sonhar grande não é ilusão, mas direito.

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