Tecnologia e inovação

Open banking: uma revolução muito além do setor financeiro

As mudanças provocadas pelo open banking irão abranger todos os setores. Assim, o termo mais correto para esse movimento é open business, pois os entraves que separam indústrias e negócios serão quebrados
É sócio da everis e especialista no setor financeiro.

Compartilhar:

No dia 1º de fevereiro, o Brasil iniciou a implementação de uma série de medidas e tecnologias que vão permitir o compartilhamento de dados, produtos e serviços financeiros dos clientes. O projeto, que já foi implementado em diversos países, foi chamado de open banking, uma vez que visa a tornar públicas as informações financeiras de clientes – mediante o consentimento do cliente.

As novas regras estão sendo vistas como transformadoras para o mercado financeiro – daí o nome open banking. No entanto, [limitar as transformações aos bancos é subestimar os impactos da novidade](https://mitsloanreview.com.br/post/sistema-financeiro-em-xeque-mate). O objetivo deste artigo é mostrar que a disrupção será muito maior e vai abranger inúmeros setores.
É por isso que preferimos chamar o movimento de open business, pois irá expandir os horizontes de inúmeros negócios.

## Por que open business?

As novas regras vão ampliar uma tendência no mundo dos negócios. Cada vez mais, as barreiras que separam as indústrias estão sendo quebradas. Como, por exemplo, enquadrar a Tesla, Google ou Amazon?

O open banking, ou open business, tem o potencial de tornar ainda mais difusas essas fronteiras.

Isso vai acontecer porque permitirá aos bancos ampliarem sua atuação e, principalmente, porque trará para o setor financeiro as empresas de outros segmentos, como varejistas, distribuidoras de energia, big techs ou de telecomunicações. O acesso aos dados financeiros do cliente é relevante para que qualquer indústria possa conhecê-lo melhor, além de potencializar o cross selling e por fim, conseguir uma vinculação maior com a marca.

### Muito além da conta corrente

Como funciona o sistema bancário hoje? Tradicionalmente, os bancos oferecem ao cliente primeiro uma conta corrente com um pacote de serviços associado, e, a partir dessa relação inicial, ou ancora, oferece outros serviços, como cartões, financiamentos, empréstimos, dentre outros.

Com o open business (a partir de agora vamos usar somente esse termo), esse novo ambiente competitivo, provocado pela desagregação vertical do setor, abre um universo de novas possibilidades estratégicas para os bancos e fintechs que poderão estender seu catálogo de produtos e serviços tradicionais.

Além disso, com open business, bancos e fintechs poderão atuar como plataforma ou market place, ser uma fábrica de produtos e processador para outros distribuidores e, logicamente, combinar todas as anteriores.

As novas mudanças permitirão que as pessoas tenham mais opções de escolha. Caso não se sintam bem atendidas, serão menos fiéis a uma instituição bancária e vão buscar serviços diversos em instituições diferentes, ainda que escolham consolidar as informações numa única instituição.

Isso traz uma grande conveniência. Imagine que uma pessoa poderá ter um financiamento imobiliário no Santander, seguro de automóvel do Bradesco, investimentos na XP e consolidar todas essas informações no aplicativo do Itaú. Além do cliente ter uma melhor experiência pela visão agregada, poderá receber melhores ofertas dos produtos e serviços que realmente precisa ou utiliza.

### Os novos mantras: personalização e fidelização

Como sobreviver e ganhar dinheiro nesse novo mundo onde será impossível para os bancos controlarem a cadeia de valor completa? Pela personalização.

Ser o banco de cada cliente quando cada cliente quer um banco diferente requer uma hiperpersonalização a um custo competitivo, que permita ao banco aproveitar os “momentos da verdade” com o cliente em qualquer canal, materializando novos negócios através de uma experiência diferencial.

A personalização demanda tempo, esforço e investimentos em tecnologias como inteligência artificial para conhecer de verdade o cliente, muito além do perfilado tradicional por renda, idade e perfil de investidor.

A personalização é a ferramenta para o encantamento do cliente e atingir a fidelização, e é isso que todos os bancos devem almejar. Uma forma simples de fidelizar um cliente: um banco tem acesso aos hábitos de consumo acessando as faturas do cartão de crédito. Se todo mês esse cliente compra vinhos em determinada loja, não faz sentido oferecer um desconto na compra através de uma [parceria com um varejista](https://www.revistahsm.com.br/post/varejo-e-fintech-em-um-relacionamento-serio)? É relativamente simples encontrar uma forma de estreitar o relacionamento a partir dessas informações.

## Os novos “banqueiros”

Além de ampliar os horizontes das instituições financeiras (fintechs e bancos tradicionais), o open business vai abrir o mercado para empresas que, hoje, têm pouca ou nenhuma relação com a atividade bancária.

Quais seriam essas empresas? As que detêm um ativo muito valioso atualmente: dados sobre hábitos de vida e consumo das pessoas e empresas.

Uma distribuidora de energia já tem uma relação com as pessoas ao oferecer um serviço que não pode ser interrompido. E tem informações sobre hábitos de pagamento e de consumo. E se essa distribuidora resolvesse ampliar essa relação criando uma “carteira digital” ou um market place que incluísse serviços como seguros ou empréstimos?

Uma grande varejista, como a Via Varejo, tem cadastrados CPFs de milhões de clientes. Tem acesso aos gostos, desejos, hábitos de compra e histórico de pagamentos deles. Estão numa posição muito vantajosa para criar um ecossistema com serviços hoje associados à indústria financeira.

Isso vale, em escala ainda maior, para big techs como Facebook ou Google. O que essas duas companhias sabem sobre todos nós representa um ativo imensurável. Sem falar na relação que bilhões de pessoas têm com elas. E se elas resolverem entrar na área financeira priorizando os principais mercados como o Brasil? Pelo tamanho que ostentam, e sendo plataformas e marcas de referência para os consumidores, elas têm a vantagem de poder suportar anos de prejuízo até consolidar um serviço financeiro lucrativo.

Até aqui estamos falando de open business, como se a grande mudança fosse a mera entrada de novos players. Contudo, o novo mundo pode ser ainda mais difuso: as empresas podem fazer parcerias com concorrentes ou companhias de outros setores. Determinada varejista pode querer estreitar a relação com a base de clientes criando uma carteira digital, mas delegando a gestão para um banco ou fintech.

Nesse novo campo de jogo incerto e rapidamente cambiante, e preciso repensar o posicionamento estratégico. As empresas, por sua vez, não podem amarrar as suas estratégias nas plataformas de negócios atuais. Na verdade, elas precisam reinventar a arquitetura de soluções evitando se prenderem em tecnologias ultrapassadas ou limitadoras, habilitando novas estratégias e com um time-to-market e eficiência operacional competitiva.

Como será o mercado em dez anos? Impossível saber. O que podemos dizer é que, com as mudanças que estão sendo implementadas, os negócios estarão muito mais abertos e com custos de serviços mais competitivos, beneficiando o consumidor brasileiro e acelerando a inclusão financeira de milhões de pessoas.

*Gostou do artigo do Francisco Murillo Larraz? Saiba mais sobre open banking assinando gratuitamente [nossas newsletters](https://www.revistahsm.com.br/newsletter) e escutando [nossos podcasts](https://www.revistahsm.com.br/podcasts) em sua plataforma de streaming favorita.*

Compartilhar:

Artigos relacionados

A IA está mudando o que significa ser um profissional sênior

Os profissionais de finanças foram treinados para dominar processos, consolidar informações e produzir análises complexas. Mas, em um mundo onde a inteligência artificial faz isso em segundos, a vantagem competitiva passa a estar em outro lugar: na capacidade de transformar informação em contexto, formular perguntas estratégicas e tomar decisões que nenhuma máquina consegue assumir sozinha.

Envelhescência: a dimensão subjetiva que a liderança ainda ignora

Profissionais maduros seguem acumulando repertório, capacidade de julgamento e conhecimento organizacional, mas frequentemente enfrentam uma perda silenciosa de reconhecimento e pertencimento. Ao abordar o conceito de envelhescência, o artigo discute como profissionais experientes podem perder espaço simbólico mesmo permanecendo altamente qualificados e por que reconhecer, valorizar e integrar o repertório acumulado se tornou um desafio estratégico para empresas que desejam preservar conhecimento, fortalecer a sucessão e construir culturas verdadeiramente intergeracionais.

A procuração algorítmica que desafia os conselhos

À medida que algoritmos passam a influenciar decisões cada vez mais relevantes, cresce uma questão que conselhos e lideranças não podem mais ignorar: quanto poder está sendo delegado à inteligência artificial sem supervisão adequada? O artigo propõe uma reflexão sobre a necessidade de incorporar a IA à agenda de governança corporativa.

Por que entender o orçamento hospitalar se tornou estratégico para as operadoras

O envelhecimento populacional, a incorporação de novas tecnologias e o aumento das demandas assistenciais estão pressionando os custos da saúde em níveis inéditos. Mais do que analisar despesas, entender a formação do orçamento hospitalar tornou-se uma competência estratégica para operadoras que buscam conciliar qualidade assistencial, eficiência operacional e sustentabilidade de longo prazo.

Liderança
14 de agosto de 2026 08H00
Após mergulhar em uma crise provocada por escândalos que abalaram sua credibilidade, a SOMPO Holdings encontrou na liderança de Mikio Okumura o impulso para redefinir sua identidade. Inspirado por aprendizados adquiridos no Brasil, o executivo promoveu uma transformação que combinou propósito, tecnologia e foco no cliente para reconstruir a confiança e conduzir a seguradora a resultados recordes.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

13 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de agosto de 2026 14H00
Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Marcos Gurgel - Diretor Comercial na divisão Avitum da B. Braun Brasil

4 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Vendas
13 de agosto de 2026 08H00
Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança
12 de agosto de 2026 14H00
Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
12 de agosto de 2026 08H00
O artigo defende que o verdadeiro valor surge quando a IA deixa de operar de forma isolada e passa a integrar toda a jornada de negócio, conectando pessoas, processos, dados e governança em um único sistema de performance.

Guilherme Stefanini - CMO do Grupo Stefanini, CEO da Stefanini Marketing e sócio da W3haus e Gauge.

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de agosto de 2026 08H00
A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Marcelo Paiva - Diretor de Operações da Formel D

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo