ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
5 minutos min de leitura

Os rumos da agenda de diversidade, equidade e inclusão nas empresas brasileiras em 2026

Os números de assédio e a estagnação das carreiras de pessoas com deficiência revelam uma verdade incômoda: a inclusão no Brasil ainda para na porta de entrada. Em 2026, o desafio não é contratar, mas desenvolver, promover e garantir permanência - com método, responsabilidade e decisões que tratem diversidade como estratégia de negócio, e não como discurso.
CEO e fundadora do Grupo Talento Incluir.

Compartilhar:

Um levantamento recente da Justiça do Trabalho, no fim do ano passado, mostrou que nos últimos cinco anos, cerca de 450 mil ações na categoria de assédio moral já foram julgadas. Esse número de processos cresceu 28% de 2024 para 2025. Para os especialistas, a solução para a melhora deste cenário está no investimento em treinamentos corporativos em diversidade.

A inclusão da diversidade, seja de pessoas com deficiência, diferentes orientações sexuais, etnias, idades ou religiões, no ambiente corporativo não é agenda política. É uma demanda da sociedade. As empresas agora, passam a receber essa cobrança social e não se sustentam mais se a inclusão estiver apenas no discurso bonito e não se confirmar na prática.

Nosso 2026 começa com uma pergunta urgente para o mercado de trabalho brasileiro: estamos realmente avançando na inclusão produtiva de pessoas com deficiência ou apenas mantendo estruturas que perpetuam desigualdades? A pesquisa Radar da Inclusão 2025, realizada pela Talento Incluir e Pacto Global da ONU – Rede Brasil, traz uma resposta importante para esse tema: as pessoas com deficiência continuam estagnadas em seus cargos e raramente são promovidas, permanecendo por anos nas mesmas funções, com poucas oportunidades de desenvolvimento ou ascensão nas empresas.

De acordo com o levantamento, 2 em cada 3 profissionais com deficiência entrevistados nunca foram promovidos, e apenas 1% ocupa alta liderança, apesar da alta escolaridade. Como as empresas podem reduzir os vieses de promoção e criar trilhas de carreira inclusivas.

A reflexão é que a inclusão já não se define pela porta de entrada, mas pela ‘porta de desenvolvimento’. O desafio está em atingir a maturidade de inclusão com ações intencionais como: transformação das estruturas, comunicação alinhada com os objetivos estratégicos neste tema, critérios de avaliação e práticas de liderança que ainda operam sob vieses capacitistas.

A Radar da Inclusão mostra que, embora o discurso das empresas avance, os processos de desenvolvimento ainda seguem pouco acessíveis e altamente excludentes, com barreiras como: falta de acessibilidade em todas as suas dimensões e não apenas dimensão arquitetônica; critérios de performance baseados em modelos tradicionais de produtividade; lideranças despreparadas para conduzir equipes diversas; falta de intencionalidade na evolução profissional de pessoas com deficiência. É preciso sempre lembrar que sem disposição para enfrentar essas barreiras, a inclusão permanece superficial e injusta.

Em 2025, foi necessário reforçarmos nossa atuação, baseada em quatro pilares fundamentais: método, acompanhamento, intencionalidade e responsabilidade, nas empresas em que colabora com o fortalecimento da cultura de inclusão, desde o recrutamento até a permanência da pessoa com deficiência contratada.

Os resultados comprovam que inclusão consistente é inclusão estruturada. Foram mais de 700 pessoas com deficiência inseridas no mercado de trabalho em 2025 por intermédio da Talento Incluir. Esse número não representa apenas contratações. Representa processos conduzidos com respeito às habilidades, experiências e aspirações de cada pessoa candidata, muito além do cumprimento da Lei de Cotas.

Para desenvolver esse trabalho, mapeamos as barreiras organizacionais, preparamos as lideranças, adaptamos os processos com acessibilidade para todas as pessoas, definimos de forma clara a trajetória de desenvolvimento das pessoas contratadas, acompanhamos o pós-contratação para garantir permanência e não apenas entrada. Esse modelo permite que as empresas deixem de tratar inclusão como obrigação e passem a enxergá-la como estratégia de negócio, inovação e justiça social.

A partir da análise da Radar e dos resultados obtidos com nossos clientes, algumas tendências se consolidam para 2026:

  • Inclusão como indicador de governança corporativa

Empresas começam a incorporar dados de promoção, acesso ao desenvolvimento e permanência de pessoas com deficiência em seus indicadores ESG.

  • Desenvolvimento como eixo central da inclusão

Não basta contratar: é preciso garantir trilhas acessíveis, equânimes, práticas pedagógicas diversas e acompanhamento das lideranças.

  • Acessibilidade como inovação organizacional

Tecnologias acessíveis deixam de ser exceção e passam a ser premissas de eficiência e produtividade.

  • Lideranças como agentes transformadores

A maturidade da agenda depende diretamente de gestores conscientes, preparados e responsabilizados.

  • Promover ambiente seguro para saúde mental das pessoas com deficiência


Acessibilizar a forma de mapear e de oferecer recursos para saúde mental da pessoa com deficiência é essencial, pois equipe de saúde que não conhece o capacitismo estrutural não consegue atender pessoas com deficiência com efetividade.

Com base nos dados da pesquisa Radar da Inclusão 2025 e nos impactos concretos observados nas organizações que atendemos, algumas diretrizes se tornam inadiáveis:

  • Revisar critérios de promoção para eliminar vieses e ampliar oportunidades.
  • Incorporar acessibilidade ao desenho de trilhas de desenvolvimento.
  • Implantar acompanhamento especializado após a contratação.
  • Estabelecer metas de crescimento interno para pessoas com deficiência.
  • Formar lideranças em gestão inclusiva com foco em intencionalidade e corresponsabilidade.
  • Formar equipe de saúde e liderança para compreender o capacitismo estrutural e promover ambiente seguro para saúde mental das pessoas com deficiência.


A inclusão verdadeira não deve ser medida por contratações, mas pela trajetória  e pela permanência das pessoas com deficiência nas empresas. É preciso garantir que elas tenham acesso às oportunidades de desenvolvimento de carreira, liderem, contribuam e tenham suas trajetórias valorizadas.

Os dados da pesquisa Radar da Inclusão são um alerta. Os resultados que alcançamos junto às empresas em 2025 mostram que o caminho existe e funciona, com método, intencionalidade e responsabilidade. Agora, a pergunta que fica para 2026 é simples e inegociável: sua empresa vai liderar essa transformação ou vai seguir sustentando estruturas que mantêm pessoas com deficiência estacionadas?

A carreira estacionada não promove a dignidade das pessoas com deficiência e sem dignidade não há entrega que justifique nossa potência e contribuição para o negócio.  E o alerta aqui é: culpabilizar pessoas com deficiência por não performar é uma fuga das empresas que não investiram suficientemente em inclusão.

Incluir pessoas com deficiência no trabalho não é “cumprir cota”. É decidir, todos os dias, que talento não será desperdiçado por falta de acesso, por vieses ou por conveniências. Às empresas que ainda não praticam uma inclusão intencional e equânime, vale relembrar que a omissão também é uma escolha e ela cobra preço em reputação, inovação, clima, performance e justiça.

O ano de 2026 não pede discursos melhores; pede método, atitude, responsabilidade e metas que se traduzam em promoção, desenvolvimento e permanência da diversidade. Porque o futuro do trabalho não será inclusivo “por acaso”, será por decisão de mudanças tomada hoje.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Contratar, promover ou buscar fora: a decisão que separa o líder do gestor

Promover talentos internos, contratar no mercado ou recorrer a executivos por projeto são decisões cada vez mais frequentes em empresas que crescem e se transformam. Mas a escolha mais importante acontece antes disso: compreender qual problema realmente precisa ser resolvido. O artigo discute por que muitas organizações se concentram em preencher posições rapidamente, quando deveriam dedicar mais tempo a entender a natureza, a duração e a complexidade dos desafios que enfrentam.

O retorno ao escritório e a ilusão do controle

O retorno obrigatório ao trabalho presencial tem sido defendido como uma solução para desafios de gestão, colaboração e produtividade. O artigo propõe uma reflexão: organizações de alta performance gerenciam pessoas pela presença ou pelo valor que entregam?

O RH precisa parar de provar que é importante

Durante um dos maiores congressos de RH do mundo, uma provocação ganhou destaque: o futuro da área não será definido por sua capacidade de justificar sua relevância, mas por demonstrar, com dados e resultados, o impacto que gera para o negócio. Em um cenário marcado por inteligência artificial, novas formas de trabalho e pressão crescente por resultados, o RH é chamado a assumir um papel cada vez mais estratégico.

O que a Odisseia pode ensinar às empresas sobre liderança e crise

Christopher Nolan levou a Odisseia de volta às conversas contemporâneas. Este artigo aproveita a trajetória de Odisseu para discutir um dos desafios mais invisíveis das organizações: reconhecer quando estratégias que garantiram sobrevivência no passado passaram a limitar confiança, aprendizagem e crescimento no presente.

A confiança é a nova infraestrutura da velocidade

Por que relações saudáveis deixaram de ser apenas uma questão de clima organizacional para se tornarem um fator estratégico de competitividade? O artigo mostra como a confiança entre pessoas e áreas influencia diretamente a velocidade de execução dos negócios.

Liderança
27 de junho de 2026 08H00
Na estreia da coluna do Grupo Mulheres do Brasil, este artigo mostra que a liderança do futuro não será construída por decisões individuais, mas pela capacidade de mobilizar diversidade, escuta e inteligência coletiva para enfrentar desafios que já não cabem em uma única visão.

Andrea Gasques - Diretora de Comunicação do Grupo Mulheres do Brasil

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de junho de 2026 14H00
Ao revisitar os 30 anos do CESAR, este artigo mostra por que, em um mundo cada vez mais automatizado, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de formar pessoas que saibam interpretar, conectar e dar sentido ao conhecimento.

Janaina Calazans - Gerente de Ensino Superior da CESAR School

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Lifelong learning, Tecnologia & inteligencia artificial
26 de junho de 2026 08H00
Este artigo revela por que o verdadeiro desafio da IA não é adoção, mas uso intencional, capaz de ampliar o pensamento, e não substituí-lo.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Estratégia, Gestão de recursos
25 de junho de 2026 15H00
A teoria dos jogos expõe o erro estrutural por trás do modelo reativo que consome bilhões sem gerar resultados proporcionais. Este artigo mostra que não falta dinheiro na saúde, falta estratégia para usar.

Dr. Jorge Luiz Andrade - Anestesiologista e vice-presidente da Unimed Nova Iguaçu

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
25 de junho de 2026 08H00
Com o avanço da longevidade e a transformação demográfica, este artigo mostra por que o futuro das empresas depende menos de estratégias de atração e mais da capacidade de liderar diferentes ciclos de vida, repensando saúde, carreira e gestão de pessoas.

Felipe Calbucci - CEO Latam da TotalPass

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
24 de junho de 2026 15H00
Dados, modelo e experiência competem pelo mesmo backlog, e cada frente pode apresentar uma justificativa tecnicamente correta para receber o próximo investimento. Decidir entre elas, exige uma maturidade que poucos times de produto desenvolveram, e uma clareza estratégica que poucas empresas conseguem articular.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo, professor de MBA na USP/ESALQ e FIAP, palestrante e especialista em Inteligência Artificial, Transformação Digital e Produtos Digitais

9 minutos min de leitura
Liderança
24 de junho de 2026 08H00
Este artigo propõe um deslocamento essencial: mais do que acumular informação, a liderança precisa desenvolver discernimento - a capacidade de interpretar com clareza quando a pressão empurra para decisões automáticas.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Liderança
23 de junho de 2026 14H00
Uma meta mal definida não impulsiona, trava. Este artigo revela como metas mal calibradas podem desconectar equipes e comprometer resultados, mostrando que o verdadeiro desafio da liderança está em equilibrar ambição e viabilidade para sustentar desempenho ao longo do tempo.

Denise Joaquim Marques -Consultora de negócios especializada em Vendas e Marketing

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
23 de junho de 2026 08H00
Em organizações que cobram inovação, mas penalizam o erro, este artigo revela um paradoxo central: sem espaço para frustração e aprendizado, equipes deixam de evoluir, e a transformação que se busca nunca acontece de fato.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
22 de junho de 2026 15H00
Talvez o maior erro da inovação seja tentar adivinhar o futuro, em vez de entender o que já está diante de nós.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo