Tecnologia e inovação

Por que sou um realista esperançoso com o metaverso

É muito dinheiro envolvido e especulado em um futuro incerto. Mas o metaverso pode gerar renda de verdade para o trabalhador de verdade
Eduardo Paraske é co-fundador e sócio da Deboo e 1601 - Consultoria. Tem mais de 16 anos de experiência em multinacionais, como Google, Waze, Samsung, Unilever, Roche Pharmaceuticals e Outback Steakhouse. Além disso, é mentor de startups pelo Google for Startups.
Eduardo Paraske é co-fundador e sócio da Deboo e 1601 - Consultoria. Tem mais de 16 anos de experiência em multinacionais, como Google, Waze, Samsung, Unilever, Roche Pharmaceuticals e Outback Steakhouse. Além disso, é mentor de startups pelo Google for Startups.

Compartilhar:

Em fevereiro de 2021, estávamos diante de uma caça por um convite para fazer parte da tendência da vez, o Clubhouse, rede social de áudio que chegou a atingir mais de 10 milhões de usuários globais e a ser avaliada em US$ 4 bilhões. Em poucos meses, não só desacelerou como caiu no ostracismo – o que é comprovado com o volume de buscas sobre o termo no Google. A onda durou muito pouco e talvez você nem se lembrava mais dele.

O modelo do Clubhouse acabou sendo assimilado pelos gigantes. Facebook e Twitter lançaram clones, e sua exclusividade deixou de ser um valor. Fora que, no auge da pandemia, um novo tipo de rede social parecia algo mais interessante. Depois, com o tempo e a propagação da covid-19 mais controlada, esse hábito não cabia mais na rotina de muita gente.

Então, por que será que tem tanta gente preocupada com o tal do metaverso se, como diz Ricardo Cavallini, fundador do Makers e autor de seis livros que abordam tecnologia, negócios e comunicação, o metaverso é, por enquanto, uma mentira que todo mundo finge que acredita e está tudo certo? A resposta está em uma outra citação sua: “Metaverso será muito relevante no futuro? Muito provavelmente”.

Essa espécie de “internet 3D” só estará concluída quando comunicação, entretenimento e negócios coexistirem de forma imersiva e interoperável. Ou seja, no momento em que você vai conseguir transitar com seus dados, histórico e login entre plataformas – o que hoje ainda não é possível.

Apesar de ser o futuro, ele está em construção já faz algum tempo. Desde o final dos anos 1970 e início dos anos 1980, muitos da comunidade de tecnologia imaginaram um estado futuro – se não quase sucessor – da internet, chamado de “Metaverso”. Previam que isso revolucionaria não apenas a camada de infraestrutura do mundo digital, mas também muito do físico.

Cravar essas definições é sempre muito difícil porque ainda transitamos e nos deparamos com contextualizações lunáticas. Mas, ao mesmo tempo, muito da teoria começa a parecer real. Em geral é isso o que acontece com mudanças que possuem um arco tão longo e imprevisível quando seu estado final é lucrativo.

Matthew Ball, especialista em Web 3.0, adiciona um ponto interessante ao surgimento do metaverso. Ele acredita que devemos também considerar o papel de mudar a capacidade do usuário. Nas suas palavras, “o primeiro iPhone poderia ter ignorado completamente o botão home, em vez de esperar até o décimo. Isso abriria mais espaço dentro do próprio dispositivo para hardware de maior qualidade ou baterias maiores. Mas o botão home foi um importante exercício de treinamento para o que era um celular muito mais complexo e capaz do que os consumidores estavam acostumados. Afinal, fechar um telefone em concha era uma maneira segura, fácil e tátil de ‘reiniciar’. Levou uma década para que os consumidores pudessem não ter um botão home dedicado.”

Essa ideia é superimportante. Com o passar do tempo, os indivíduos se familiarizam cada vez mais com a tecnologia avançada e, portanto, tornam-se mais capazes de adotar novos avanços – alguns dos quais poderiam ter sido possíveis há muito tempo.

Nesse sentido, os esboços de soluções futuras são muitas vezes compreendidos e, de certa forma, acordados muito antes da capacidade técnica para produzi-los. Ainda assim, na maioria das vezes é impossível prever como eles se encaixarão, quais recursos importarão mais ou menos, que tipo de modelos de governança ou dinâmicas competitivas os conduzirão ou quais novas experiências serão produzidas.

Mas, então, afinal, se tudo ainda é uma grande promessa que começou a acontecer lentamente, mas ainda não atingiu real impacto para nós, em nosso dia a dia, por que é que esse tal de metaverso importa?

As cifras estimadas podem dar uma resposta breve. Segundo o Citi, a economia do metaverso pode alcançar um valor de mercado entre US$ 8 trilhões e US$ 13 trilhões até 2030, com até 5 bilhões de usuários. Já uma projeção do Morgan Stanley mostra que, se as empresas descobrirem como engajar uma nova geração de consumidores, as vendas digitais anuais podem chegar a 50 bilhões de euros até 2030.

Sim, é dinheiro demais envolvido para um futuro que ainda é incerto. Mas a resposta que importa, de verdade, é o potencial de transformação atrelado a essa nova plataforma de computação ou meio de conteúdo.

Nos últimos 20 anos, quase todos os setores contrataram, reestruturaram e se reorientaram em torno de fluxos de trabalho, produtos ou linhas de negócios móveis. Essa transformação é tão significativa quanto qualquer inovação de hardware ou software e, por sua vez, cria o caso de negócios para inovações subsequentes.

Agora, em sua visão completa, o metaverso se torna a porta de entrada para a maioria das experiências digitais, um componente-chave de todas as físicas e a próxima grande plataforma de trabalho. Ele tem o potencial de produzir a mesma diversidade de oportunidades que vimos ao longo do surgimento da web – novas empresas, produtos e serviços serão criados para gerenciar tudo, desde processamento de pagamentos até verificação de identidade, contratação, entrega de anúncios, criação de conteúdo, segurança e assim por diante. Ao mesmo tempo, na minha visão, ele vai alterar também a forma como alocamos e monetizamos os recursos modernos.

Os trabalhadores que optam por viver fora das cidades poderão participar da economia de alto valor por meio do trabalho virtual. À medida que mais gastos do consumidor mudam para bens, serviços e experiências virtuais, também veremos mais mudanças no local em que vivemos.

Que tal olharmos para uma aplicação real no presente? O Tominoya Casino, instalado no Decentraland, um mundo virtual 3D, paga pessoas reais para trabalhar como hosts, pessoas que recebem e atendem os clientes no cassino virtual. É uma função que os desenvolvedores de jogos geralmente reservam para bots.

A remuneração por uma jornada de quatro horas por dia chega a US$ 500 ao mês. É um valor 60% maior do que a hora trabalhada de um motorista de aplicativo em São Paulo, que chega a dirigir 60 horas por semana para conseguir tirar R$ 3 mil por mês.

Um belo de um chacoalhão nas relações de trabalho atuais, certo?
Criar verdadeiras plataformas, com comunidades que geram valor para si, será o fator fundamental para o metaverso cair na real e se tornar parte de nossas vidas, na minha opinião. Se você ainda não se convenceu de que o metaverso importa hoje, finalizo com a maravilhosa frase de Ariano Suassuna: “O otimista é um tolo. O pessimista é um chato. O bom mesmo é ser um realista esperançoso.”

Compartilhar:

Eduardo Paraske é co-fundador e sócio da Deboo e 1601 - Consultoria. Tem mais de 16 anos de experiência em multinacionais, como Google, Waze, Samsung, Unilever, Roche Pharmaceuticals e Outback Steakhouse. Além disso, é mentor de startups pelo Google for Startups.

Artigos relacionados

A tecnologia muda. A essência da advocacia permanece.

Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Chega de olhar pelo retrovisor

A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.

Empresas preparadas para a próxima década não usam IA. Elas se reorganizam ao redor dela.

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

O que separa empresas inovadoras das que apenas fazem inovação

Programas de startups, laboratórios de inovação e investimentos em inteligência artificial tornaram-se comuns nas grandes organizações. O problema é que poucas conseguem transformar experimentação em resultado de negócio. O artigo discute como estruturar processos que convertam conhecimento externo em decisões estratégicas capazes de gerar crescimento, adaptação e vantagem competitiva.

Pare de tentar prever o mundo. Construa uma empresa que aguenta vários.

Tarifas, conflitos geopolíticos, rupturas nas cadeias de suprimentos e mudanças regulatórias expõem uma fragilidade comum em muitas organizações: a dependência de um único cenário de futuro. Ao analisar os efeitos recentes do tarifaço sobre produtos brasileiros, o artigo argumenta que a verdadeira vantagem competitiva não está em prever corretamente o próximo choque, mas em construir operações capazes de se adaptar rapidamente a diferentes realidades sem comprometer resultados.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
25 de junho de 2026 08H00
Com o avanço da longevidade e a transformação demográfica, este artigo mostra por que o futuro das empresas depende menos de estratégias de atração e mais da capacidade de liderar diferentes ciclos de vida, repensando saúde, carreira e gestão de pessoas.

Felipe Calbucci - CEO Latam da TotalPass

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
24 de junho de 2026 15H00
Dados, modelo e experiência competem pelo mesmo backlog, e cada frente pode apresentar uma justificativa tecnicamente correta para receber o próximo investimento. Decidir entre elas, exige uma maturidade que poucos times de produto desenvolveram, e uma clareza estratégica que poucas empresas conseguem articular.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo, professor de MBA na USP/ESALQ e FIAP, palestrante e especialista em Inteligência Artificial, Transformação Digital e Produtos Digitais

9 minutos min de leitura
Liderança
24 de junho de 2026 08H00
Este artigo propõe um deslocamento essencial: mais do que acumular informação, a liderança precisa desenvolver discernimento - a capacidade de interpretar com clareza quando a pressão empurra para decisões automáticas.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Liderança
23 de junho de 2026 14H00
Uma meta mal definida não impulsiona, trava. Este artigo revela como metas mal calibradas podem desconectar equipes e comprometer resultados, mostrando que o verdadeiro desafio da liderança está em equilibrar ambição e viabilidade para sustentar desempenho ao longo do tempo.

Denise Joaquim Marques -Consultora de negócios especializada em Vendas e Marketing

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
23 de junho de 2026 08H00
Em organizações que cobram inovação, mas penalizam o erro, este artigo revela um paradoxo central: sem espaço para frustração e aprendizado, equipes deixam de evoluir, e a transformação que se busca nunca acontece de fato.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
22 de junho de 2026 15H00
Talvez o maior erro da inovação seja tentar adivinhar o futuro, em vez de entender o que já está diante de nós.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
22 de junho de 2026 09H00
Este artigo mostra como o avanço da IA e da computação em nuvem está redesenhando a eficiência operacional, e por que uma nova geração de gestão de custos se tornou estratégica.

Paulo Laurentys - Chief Commercial Officer (CCO) da A3Data

4 minutos min de leitura
Liderança
21 de junho de 2026 15H00
A partir de uma experiência em meio a mudanças estruturais no setor financeiro, este artigo mostra que, em cenários de alta complexidade, o papel da liderança vai além da operação, exigindo capacidade de sustentar cultura, alinhar expectativas e manter a confiança em meio à incerteza.

Victor Papi - General Manager da Transfeera

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
21 de junho de 2026 08H00
Pagar mais já não basta, médicos estão escolhendo onde trabalhar pelo “como”, não pelo “quanto”. Este artigo revela como a disputa por médicos qualificados está sendo redefinida por fatores estruturais, organizacionais e de experiência profissional.

Rafael Duarte - CEO e fundador do Grupo RD Medicine

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Tecnologia & inteligencia artificial
20 de junho de 2026 14H00
Se mais gente não significa mais resultado, o que ainda justifica equipes gigantes? Este artigo revela como a inteligência artificial está redefinindo estruturas, papéis e critérios de eficiência nas áreas de marketing e growth.

Brian Bittencourt - VP de Growth & Marketing da Woba

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo