Estratégia e Execução
6 minutos min de leitura

Por que você deve reconsiderar a rota enquanto ela ainda funciona

Poucos elementos são tão perigosos quanto um sistema que parece funcionar bem o suficiente para não ser questionado. No universo das parcerias, resultados de curto prazo podem mascarar desalinhamentos estratégicos, limitações de escala e modelos que já não atendem às necessidades futuras da empresa.
Parcerias e ecossistemas podem deixar de ser iniciativas pontuais para se tornarem motores estratégicos de crescimento. A partir de experiências reais e aprendizados do dia a dia, entram em pauta temas como desenvolvimento de ecossistemas, escolha certa dos parceiros, modelos de colaboração, incentivos, governança e formas de medir resultados. Um espaço para discutir como estruturar, gerir e escalar parcerias capazes de gerar receita de forma mais previsível e sustentável.
Cofundadora do Ecossistema Octo e coautora do best-seller Ecossistema de Parceiros: Método Octo. Com mais de 25 anos de experiência em tecnologia, atuou por mais de duas décadas na Microsoft e foi CRO da RD Station. Hoje é conselheira, advisor, investidora e mentora de CEOs e executivos C-Level, ajudando empresas a construir motores de crescimento por meio de ecossistemas, IA e estratégias colaborativas de geração de receita.

Compartilhar:

Mudar quando tudo vai mal é quase uma obrigação. O difícil mesmo é mudar quando a versão atual continua funcionando.

Essas frases vieram de uma conversa sobre carreira, mas refletem o que vejo acontecer com frequência em programas de parceiros. As escolhas só são revisadas quando os números caem ou algo drástico acontece, e aí a oportunidade de agir pode ter passado.

Vivi essa escolha também na minha carreira. Depois de mais de 25 anos como executiva, eu poderia continuar em uma trajetória que ainda funcionava. A decisão de construir um portfólio de conselhos, investimentos e empreendedorismo não veio de uma crise, mas da percepção de que o modelo que havia me trazido até ali já não correspondia integralmente à forma como eu queria gerar impacto na etapa seguinte. 

Passei grande parte destes anos olhando para estruturas de máquinas de crescimento em empresas de tecnologia de diferentes portes, começando na Microsoft, depois na RDStation. Nelas os ecossistemas eram centrais no negócio e acabaram virando parte do meu “DNA”.

Nesse tempo, me deparei com muitos programas de parceiros que pareciam estar funcionando bem. Parceiros ativos, receita entrando, processos estruturados. Mas “funcionando” com relação ao quê? Pensando no que a empresa era alguns anos atrás? Ou para onde ela precisa chegar nos próximos seis meses? Quase ninguém faz essa pergunta e, como consequência, o programa fica parado no tempo enquanto o resto da empresa evolui – e rápido. 

Se pensarmos pelo aspecto de produto em uma empresa, ele nunca termina de ser feito. Product-market fit e go-to-market fit não são conquistas definitivas. O mercado, o produto e o comportamento do cliente continuam mudando.  Mas grande parte das empresas tende a preservar o programa de parceiros exatamente como ele foi desenhado no início. Isso acontece porque a receita atual mascara a perda gradual de aderência à estratégia. 

Já vi reestruturações acontecerem porque alguém na liderança teve a coragem de assumir que parceiros seguiam gerando receita, mas não estavam preparados para o próximo estágio da empresa. Antes de discutir quem são os parceiros ideais, a liderança precisa dar um passo atrás e revisitar a estratégia da empresa, para depois responder à pergunta de quem são os parceiros ideais.

Vou dar um exemplo concreto do que já vi acontecer. Chegou um momento em que começamos a avaliar o painel de um programa de parceiros. À primeira vista, tudo parecia bem, com parceiros ativos e receita entrando, mas quando olhamos com mais profundidade, a conta não fechava, e quase fazia sentido ter mais gente atuando diretamente. Foi necessário olhar tudo novamente, desde o perfil do parceiro ideal, aquele que ficava engajado ao longo do tempo, até comissões, níveis do programa e quantas pessoas havia na equipe. No fim, o programa estava gerando receita, mas menos do que deveria. E foi necessário olhar para a arquitetura da máquina de forma sistêmica — o que, anos depois, foi a semente para Nara e eu transformarmos este sistema no Método Octo.

Eu brinco que não tenho absolutamente nada contra usar parcerias para geração de demanda, só que é muito limitante você pensar em parceiros como canais transacionais. É uma forma de o parceiro poder ganhar dinheiro fazendo uma transação. Mas há diversas outras formas de o parceiro gerar valor ao longo da jornada do cliente. E quando o programa fica preso apenas nisso, a receita que entra todo mês cria uma ilusão de estabilidade, até o momento em que você percebe que está crescendo devagar demais, e que novos competidores estão escalando mais rápido, porque o modelo de distribuição que você tem não serve mais para o produto que vende hoje.

Antes de tentar acelerar o que já existe, se pergunte:

Se estivéssemos desenhando esse ecossistema do zero hoje, com o mercado, o produto e os objetivos atuais, seria exatamente esse programa? 

Na minha experiência, a resposta costuma ser não. Por isso, é preciso voltar ao início e se questionar por que você quer ter parceiros. Muitas empresas montam estratégias de parcerias porque acham que o parceiro vai resolver problemas que elas mesmas não conseguiram resolver, como gerar demanda, ativar clientes ou penetrar em novos mercados. O raciocínio parece fazer sentido: se eu não consigo fazer bem, vou passar isso para um parceiro que tem mais acesso, mais credibilidade, mais capilaridade.

Só que não funciona bem assim. Se você não tem clareza do que funciona no seu próprio modelo, não tem processo validado, não sabe o que medir, o parceiro não vai descobrir isso por você. Você não está passando uma oportunidade para a frente, está criando um problema em escala. Porque agora, em vez de um time confuso, você tem dez parceiros confusos, cada um fazendo do jeito dele, sem governança, sem resultado previsível.

Outras perguntas seguem:

Qual era o objetivo original do programa? Geração de demanda? Expansão geográfica? Onboarding de clientes? Muitas vezes o programa nasceu para resolver A, mas hoje a empresa precisa de B. 

Se o perfil do cliente ideal mudou, o perfil do parceiro ideal mudou também.

E aí, aqueles parceiros que não estão conseguindo performar bem acabam atraindo mais atenção do que aqueles que precisariam. A gente gasta energia demais tentando reativar quem nunca vai se engajar e pouca energia desenvolvendo quem já está gerando resultado.

Nossos parceiros estão ganhando dinheiro? Existe uma equação de valor clara para o parceiro?

Não é o que eu ganho, é como nós ganhamos agregando valor para o cliente. Se o parceiro não prospera, ele some, e você fica com um programa cheio de cadastros inativos. E, claro, você nunca pode pensar só no parceiro, você tem que pensar no valor gerado para o cliente também, e antes de qualquer coisa. 

É preciso analisar o que mudou no produto ou go-to-market que ainda não refletiu no programa de parceiros. Lançou produto novo? Mudou o pricing? Entrou em novo segmento? O programa de parceiros acompanhou ou continuou igual?

Essas perguntas te forçam a olhar para o que está funcionando no papel, mas não está escalando, ou está escalando na direção errada. 

Avalie onde a execução está travando sem parar a operação. Construa uma visão econômica específica do ecossistema, com custos, incentivos, receitas e margem de contribuição para a operação indireta.  

E o momento de fazer essa revisão é agora. A inteligência artificial tende a reduzir o tempo necessário para desenvolver produtos, reproduzir funcionalidades e executar táticas comerciais. Nesse cenário, a diferenciação não estará apenas no produto, mas também nas relações, nos dados, nos fluxos de trabalho e nas capacidades construídas ao redor dele. Um ecossistema consistente leva tempo para ser formado – e a beleza é que não pode ser copiado da noite para o dia.

Compartilhar:

Parcerias e ecossistemas podem deixar de ser iniciativas pontuais para se tornarem motores estratégicos de crescimento. A partir de experiências reais e aprendizados do dia a dia, entram em pauta temas como desenvolvimento de ecossistemas, escolha certa dos parceiros, modelos de colaboração, incentivos, governança e formas de medir resultados. Um espaço para discutir como estruturar, gerir e escalar parcerias capazes de gerar receita de forma mais previsível e sustentável.

Artigos relacionados

Por que você deve reconsiderar a rota enquanto ela ainda funciona

Poucos elementos são tão perigosos quanto um sistema que parece funcionar bem o suficiente para não ser questionado. No universo das parcerias, resultados de curto prazo podem mascarar desalinhamentos estratégicos, limitações de escala e modelos que já não atendem às necessidades futuras da empresa.

Diversidade não é tendência. É teste de autenticidade.

Dados recentes mostram uma queda significativa na representação de grupos historicamente sub-representados na comunicação das empresas. Mais do que uma questão de imagem, a mudança reacende discussões sobre consistência, coragem institucional e a capacidade das marcas de sustentar seus valores quando eles deixam de ser consenso.

O que o gestor intermediário recebe, além da cobrança?

Lideranças são constantemente cobradas a desenvolver equipes engajadas, seguras e resilientes. Mas o que acontece quando elas recebem a responsabilidade pela mudança sem tempo, recursos ou autonomia para promovê-la? Uma reflexão sobre o limite entre responsabilidade individual e responsabilidade organizacional.

Headless: a empresa precisa funcionar fora da própria tela

Conversar com um assistente para resolver uma demanda parece simples para o usuário. Para as organizações, porém, isso exige uma transformação muito mais profunda: explicitar processos, organizar capacidades de negócio e construir uma arquitetura capaz de conectar intenção, decisão e execução de forma confiável. É nesse encontro entre inteligência artificial e arquitetura headless que surge uma nova lógica para o futuro das operações empresariais.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 18H00
A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

Oferecido por:
10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de agosto de 2026 14H00
A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.

Valter Roldão - CEO da Luuna

Oferecido por:
5 minutos min de leitura
Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

Oferecido por:
6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

Oferecido por:
6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
29 de agosto de 2026 07H00
Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Ísis P. Fontenele - Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP

Oferecido por:
8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de agosto de 2026 17H00
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

Oferecido por:
7 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de agosto de 2026 12H00
Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG
28 de agosto de 2026 07H00
O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

Ana Carolina Viana - Vice-Presidente de Operações Industriais da Braskem no Brasil

Oferecido por:
3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução