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Quando a intenção bloqueia a conexão: precisamos falar sobre ética do cuidado nas organizações

Quando a comunicação é excessivamente controlada, a autenticidade se perde - e a espontaneidade vira privilégio. Este artigo revela por que a ética do cuidado é chave para transformar relações, lideranças e estruturas organizacionais.
Designer de relações profissionais, Daniela fundou a Consultoria Daniela Cais, especialista em Comunicação Interpessoal aplicada a ambientes corporativos e hubs de inovação. Mestre em Fonoaudiologia pela PUC-SP, TEDx Speaker e facilitadora de treinamentos de renomadas instituições nacionais e internacionais. Mentora de programas de desenvolvimento de carreiras e negócios, como BNDES Garagem, RME - Rede Mulher Empreendedora e Wadhwani Foundation.

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No segundo artigo da trilogia sobre Design Relacional e Ética do Cuidado como meios de transformação organizacional, avançamos sobre o enlace entre intenção e espontaneidade no comportamento comunicativo, com reconhecimento de que a espontaneidade emerge da preparação intencional.

Neste momento, a proposta foi investigar se o excesso de controle intencional pode ter efeito bloqueador da conexão autêntica. 

A preparação intencional que sustenta a espontaneidade, é como uma dança relacional que se beneficia do comportamento aberto, livre e expressivo, reconhecido como consciente e presente. Os riscos se tornam altos quando experiências comunicativas apresentam excesso de formatação, provocando obstrução da comunicação autêntica. Ou seja, quando estamos demasiadamente preocupados e vigilantes em controlar a imagem que projetamos, em forjar resultados, em causar determinados efeitos, frequentemente perdemos a presença, a escuta, a disponibilidade para o outro. A conexão fica comprometida.

Byung-Chul Han (2017) diagnostica esse fenômeno como característico da “sociedade do cansaço” e da “sociedade da transparência”. Em sua crítica à cultura digital contemporânea, Han aponta como a exigência de exposição constante, de performance comunicativa incessante e de transparência total cria paradoxalmente uma opacidade relacional – estamos sempre “nos comunicando”, mas raramente em presença completa.

A hipervisibilidade produz exaustão e esvaziamento do encontro real. Essa ditadura da positividade e da otimização esgota a capacidade de simplesmente estar com o outro, substituindo a espontaneidade pela curadoria calculada da própria imagem, do discurso meticuloso para impressionar e não para conectar.

As pesquisas de Turkle (2017) sobre tecnologia e intimidade, documentam esse empobrecimento: pessoas que passam horas por dia na comunicação digital relatam sentir-se mais solitárias e menos capazes de conversas face a face. A mediação tecnológica, embora prometa eficiência comunicativa, nos priva da dimensão não-planejada, dos silêncios, dos ritmos orgânicos que caracterizam o diálogo legítimo.

Newport (2021) complementa esse diagnóstico ao demonstrar que a quantidade exponencial de interações digitais corrói a qualidade da atenção necessária para presença — estamos parcialmente ausentes, sempre divididos entre múltiplas conversas simultâneas.

Para melhor entender, podemos recorrer a Buber (2006) que descreve dois modos distintos de relação: Eu-Tu e Eu-Isso. Ele explica que a relação dialógica autêntica se caracteriza por reciprocidade e presença que não podem ser totalmente premeditadas ou instrumentalizadas. Quando se objetifica o outro como meio para fins comunicativos específicos, escorrega-se para este lugar utilitário que fere o espírito de conexão em que as pessoas se enxergam, se aceitam e se entregam.

Em outras palavras, a espontaneidade carrega a condição para o encontro real, enquanto a formatação excessiva funciona como obstáculo para a conexão.

Muitas vezes, nos distanciamos um do outro por conta da assimetria relacional. Paulo Freire (1987), no contexto da educação e da comunicação popular, fala sobre o perigo da “comunicação bancária”, isto é, aquela que trata o receptor como depositário passivo de conteúdos premeditados pelo emissor. Contraposto a isso, valoriza a “comunicação colaborativa”, construção conjunta de significados que não podem ser totalmente controlados por nenhum dos polos interlocutores. A autenticidade comunicativa exige renunciar ao controle sobre os efeitos da comunicação, muito embora devamos ter responsabilidade solidária em todas as relações.

Freire e Buber, em campos distintos, alertam que a dinâmica das interações pode facilitar ou obstruir as oportunidades de conexão e precisamos cuidar disso intencionalmente.

Imaginemos: “Em uma negociação tensa entre departamentos, um facilitador nota que cada lado está tão focado em “vencer” o argumento que ninguém está realmente ouvindo. As falas são calculadas, estratégicas, defensivas. Ele propõe uma pausa e sugere que cada pessoa compartilhe, sem rebater, uma proposição. A mudança da vigilância estratégica para uma presença mais espontânea abre espaço para a escuta e o entendimento real.”

A ética do cuidado é um ativo organizacional

A conversa verdadeira tem autonomia, o que significa que não somos senhores absolutos de seus rumos e desfechos, ainda que tenhamos intenções claras ao entrar nela. E, ao mesmo tempo que nos conforta, essa percepção também se caracteriza por uma tensão, pois, se há um valor na espontaneidade relacional, há também um imperativo ético de responsabilidade pelo que comunicamos, e não devemos desconsiderar.

Essa tensão convoca atenção à ética do cuidado comunicativo – não se trata de controle sufocante nem de irresponsabilidade impulsiva (“falei sem querer”), mas, da responsividade atenta, fruto da presença intencional e da consciência sobre as consequências potenciais suscitadas por nossas palavras, gestos e expressões.

O cuidado, nessa visão, funciona para analisar a condição de possibilidades, principalmente em ambientes em que as assimetrias de poder existem. Nas organizações, onde vínculos empregatícios criam vulnerabilidades, a ausência de cuidado comunicativo pode escalar para violências estruturais, como nos casos de assédio moral, em que “brincadeiras” de quem detém poder tornam-se opressão e ofensa para quem não o tem.

Em sua crítica sobre aspectos de justiça e equidade, Gilligan (1993) propõe que o cuidado não seja visto como “valor feminino”, que se dê a ele a dimensão fundamental da responsabilidade relacional. No âmbito profissional, isso significa perguntar-se não apenas “o que eu quero comunicar?” mas, “como minha comunicação afeta concretamente quem me escuta, considerando as diferenças de poder e contexto entre nós?”.

Portanto, cultivar cuidado comunicativo é um ativo organizacional estratégico, porque relações saudáveis, onde há confiança, segurança psicológica e reciprocidade, são condições indispensáveis para legitimar a colaboração, a criatividade, a inteligência coletiva e a sustentabilidade das relações profissionais.

Espontaneidade como privilégio

Contudo, é bom reconhecer que a espontaneidade não é autorizada igualitariamente – (novamente) em contextos de assimetria de poder, ela torna-se privilégio de alguns. A exemplo disso, mulheres em ambientes masculinizados precisam gerenciar suas emoções mais do que os homens; negros em organizações de maioria branca podem ser considerados mais reativos ou agressivos; pessoas LGBTQIAP+ em ambientes heteronormativos hostis calculam suas expressões para não serem desrespeitadas e perseguidas. Ou seja, pessoas que ocupam lugares de vulnerabilidade estrutural não se permitem relaxar e consideram que cada palavra ou gesto traz um risco desproporcional para suas relações profissionais.

A vigilância, muitas vezes confundida com desconfiança, falta de espontaneidade, de autenticidade ou excesso de perfeccionismo, é uma estratégia de sobrevivência.

Neste sentido, Crenshaw (1991) nos apresenta o conceito de interseccionalidade, que determina como marcadores sociais (raça, gênero, classe, orientação sexual, idade, entre outros) se combinam para criar experiências opressoras. Na comunicação organizacional isto significa que a mesma espontaneidade valorizada em um líder branco pode ser punida se exercida por uma mulher negra na mesma posição.

Quanto a isso, Ibarra (2004) complementa em suas pesquisas sobre desenvolvimento de liderança, um outro paradoxo relevante: profissionais em transição de carreira — especialmente aqueles que ascendem a posições de liderança, frequentemente experimentam um conflito entre “ser autêntico” (comunicar espontaneamente, sustentando quem se é) e “agir como líder” (adotar novos padrões comunicativos estratégicos e funcionais).

A autora sinaliza que a autenticidade não é um estado fixo a ser “preservado”. Ela a descreve como a capacidade de sustentar-se e de transitar entre diferentes registros conforme o contexto, o que exige simultaneamente intencionalidade (escolher conscientemente como se apresentar) e abertura (permitir que novos modos de relação emerjam).

Isso complexifica ainda mais a questão para grupos marginalizados, que precisam transitar entre registros, enquanto navegam vieses e expectativas estereotipadas.

Negligenciar a dimensão ética implica custos humanos e materiais: adoecimento, rotatividade, processos judiciais, deterioração do clima organizacional – consequências concretas e extensas.

Outrossim, criar condições para que os funcionários possam ser espontâneos não é uma questão individual de desenvolvimento comunicativo, é um imperativo de justeza no campo integral e coletivo.

Portanto, identificamos uma necessidade urgente de transformação estrutural das relações de poder que não acontecerá somente com intervenções e treinamentos para desenvolver a comunicação autêntica dos profissionais. É preciso olhar e agir sobre as relações, propondo novos designs relacionais que oportunizem inclusão e pertencimento.

Com o olhar mais focado, reconhecemos que o excesso de controle comunicativo pode bloquear a conexão autêntica. Percebemos que a ética do cuidado emerge como responsabilidade essencial, especialmente diante das assimetrias de poder que transformam a espontaneidade em privilégio de alguns.

Este entendimento indica que precisamos reconhecer as dimensões inconscientes da comunicação, e assim determinar que a linguagem é o principal agente de transformação social e organizacional.


Referências bibliográficas

BUBER, Martin. Eu e Tu. Tradução de Newton V. de Paiva. São Paulo: Centauro, 2006.

CRENSHAW, Kimberlé. Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence against Women of Color. Stanford Law Review, Stanford, v. 43, n. 6, p. 1241-1299, jul. 1991.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

GILLIGAN, Carol. Uma voz diferente: para uma teoria psicológica e o desenvolvimento feminino. Tradução de Maria Costa. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1993.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução de Enio Paulo Giachini. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.

HAN, Byung-Chul. Sociedade da transparência. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2017.

IBARRA, Herminia. Identidade de trabalho: estratégias não convencionais para reinventar sua carreira. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

NEWPORT, Cal. Trabalho focado: regras para o sucesso em um mundo distraído. Tradução de George Schiessl. Rio de Janeiro: Alta Books, 2021.

TURKLE, Sherry. Juntos e sozinhos: por que esperamos mais da tecnologia e menos uns dos outros? Tradução de Maria Cláudia de Oliveira. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

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