Inovação & estratégia
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Quando o acesso vira a estratégia da indústria farmacêutica

Com Sérgio Frangioni e a Blanver como pontos de observação, o terceiro artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira investiga como decisões empresariais, PDPs, IFAs e produção local podem aproximar inovação farmacêutica da vida concreta dos pacientes.
Pesquisador e operador em Organizational Theory, com trajetória internacional marcada por decisões fora do roteiro tradicional. Atuou por mais de uma década na Ásia e também nas Américas e Europa, lidando com operações complexas, ambientes regulatórios adversos e contextos nos quais não há manual disponível. Autodidata e avesso a soluções de prateleira, atua na interseção entre economia, contratos sociais, tecnologia - com foco em processos, modelos descritivos e formulações matemáticas - e organização do trabalho. É membro do Comitê Global de Inovação da Fast Company e colaborador da HSM. Atualmente, lidera a RMagnago, apoiando acionistas e executivos em decisões estratégicas de alto risco e elevada ambiguidade.

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Quando as oito hipóteses¹ possíveis que seriam testadas para a análise do setor farmacêutico foram definidas, elas se dividiram entre políticas públicas, posição natural do Brasil por sua vocação e seu conjunto de valores, e finalmente pelo comportamento dos agentes econômicos privados.

As hipóteses 03, 05 e 06 tratam basicamente da mesma coisa, sendo complementares: querem avaliar se a inovação no setor farmacêutico tem dispersão, e consequente acesso pela população, ou se está concentrada em nichos e classes econômicas muito específicas; se a alocação dos recursos destinados à inovação medicamentosa segue padrões internacionais bem-sucedidos, realmente capazes de alterar o panorama nacional de acesso a tecnologias farmacêuticas pela população; e se a visão e as ações dos líderes empresariais e do poder público são dotadas de inteligência organizacional, coragem e visão de futuro suficientes diante do desafio brasileiro.

O lado humano da indústria

Neste artigo, começaremos pelo ser humano discretamente posicionado atrás das herméticas estruturas empresariais.

“Meu filho, que já atua na Blanver, tem visitado centros oncológicos… Muito em oncologia é sobre cuidados paliativos… É muito duro. É difícil aceitar essa realidade…”, contou-me Sérgio, com tom de voz entristecido.

Ao ser perguntado se ele era o responsável pela qualidade de vida de um de meus grandes amigos, no caso de uma doença específica, resistiu à vaidade. Logo depois, com a minha insistência, e com uma licença para sentir, Sérgio disse que sim. E lembrou o caso de um amigo dele mesmo, que sofreu pelos efeitos colaterais de tratamentos de 1ª geração para esse mesmo mal, e que, através da Blanver introduzindo novas gerações de tratamentos, teve esse efeito reduzido, melhorando significativamente sua qualidade de vida.

“Olhamos para o retorno líquido dos projetos, claro, mas consideramos o resultado como uma consequência natural.” Os fatores que mais influenciam a tomada de decisão, que é realizada em conjunto com um conselho consultivo, são relacionados a impacto, apreensão de tecnologias e geração de empregos, segundo ele. “É por isso que eu e meu pai temos o controle da empresa, para decisões importantes que levem em conta nossos valores”.

É o que me disse Sérgio, ao que me pareceu ser um adepto do pós-modernismo, capítulo do século 20 que questiona as certezas e os dogmas do homo economicus e busca humanizar temas que pareciam tratar unicamente de uma razão pragmática, que o ser humano nem de perto domina por inteiro.

Filho de Giuseppe Frangioni, espanhol da Catalunha que estudou engenharia elétrica em Buenos Aires e acabou imigrando para o Brasil, onde fundou a Blanver, Sérgio Frangioni percorreu comigo o caminho que leva à compreensão da visão de parte dos empresários do setor. Em outras palavras, o comportamento de uma parcela, que quero crer relevante, dos agentes econômicos privados.


Inovação, acesso e decisões de portfólio

Quando fala de inovação, Sérgio fala de dois vetores importantes para sua tomada de decisões em investimentos: necessidade médica não atendida, uma camada pequena que inicia em inovação e resulta em posição estratégica, e acesso, que acaba em inovação e resulta em escala. Ele frisa uma questão importante: embora as margens do setor sejam robustas, grande parte desse resultado, perto de 70% no caso da Blanver, precisa ser reinvestido em novas “apostas” de portfólio. E as perdas por esses investimentos em produtos inovadores são grandes. Algo a se pensar.

As decisões da liderança para as linhas de atuação da empresa, no caso da Blanver, já levam em conta mercados externos, o que demonstra a maturidade da organização. Sérgio cita que procura não desfocar seu portfólio, pelos perigos que a largura de catálogo demonstrou na história corporativa nos últimos 50 anos. No caso da Blanver, os esforços estão em HIV, hepatite C, osteoporose, oncologia, hematologia e doenças raras².

Falando de HIV, a experiência da Blanver é profunda e já goza do privilégio do olhar de longo prazo, muito em razão da importância que a empresa conquistou por sua utilidade como ator de suporte e cocriação de valor em áreas de interesse do poder público.

Foi a Blanver que, em 2014, em parceria com o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz), e através de uma PDP, fez a nacionalização produtiva das combinações para HIV³, um antirretroviral que associa dois princípios ativos em um único comprimido, e que naquele ano tratou-se da combinação do fumarato de tenofovir desoproxila 300 mg e lamivudina 300 mg, popularmente conhecido como 2 em 1. Com a iniciativa, houve um aumento considerável no acesso aos medicamentos pela população, um dos pontos que avaliamos nesse conjunto de artigos. Neste caso através do SUS.

Sérgio citou outro caso importante dentro da especialidade HIV. Em 2018, em outra parceria produtiva com o governo, via Ministério da Saúde, a Blanver participou da nacionalização produtiva de medicamentos para PrEP – profilaxia pré-exposição.

Tomada antes da exposição ao vírus, a PrEP é a combinação de dois medicamentos, o tenofovir e a entricitabina, que bloqueiam alguns “caminhos” que o HIV usa para infectar o organismo. Nesse caso, o governo celebra vários resultados importantes, como a redução do número de novos soropositivos, além da queda dos óbitos por HIV entre 2023 e 2024 e o menor número de mortes em 32 anos, além de outros ganhos importantes no conjunto de ações de enfrentamento4.

Sérgio comenta que o fator da resistência viral, fenômeno em que o HIV, por mutações acumuladas ao longo de sua replicação, reduz a sensibilidade a determinados antirretrovirais, ajuda a explicar por que o tratamento precisa ser contínuo e por que a indústria segue ajustando combinações, doses e formulações. É um esforço contínuo.

Em oncologia, outra área à qual a Blanver tem dedicado esforços, a lógica parece se repetir, indicando uma cultura empresarial já bastante definida. Sérgio comenta que trouxe um medicamento da França há quatro anos, e que durante todo esse tempo a empresa teve prejuízo financeiro nesse projeto. “Se quero ser relevante em oncologia, esse é o preço a pagar”, disse, com muita certeza sobre os caminhos escolhidos.

A Blanver está operando com medicamentos usados em cuidados paliativos oncológicos, o que, na visão de Sérgio, gera um impacto importante: o aumento do tempo de vida desses pacientes. “O que estamos trazendo é acesso, ofertando medicamentos genéricos, e também opções inovadoras, para gerar benefícios de custo para a população.”

Sérgio pensa que o governo está vendo a situação, se referindo às demandas em oncologia, e que está dando sinais que pretende atender a 75% desse quadro, em um novo modelo de encomenda tecnológica.

E, falando de relações com o governo federal, através do Ministério da Saúde, Anvisa e das PDPs, sente que a relação tem sido importante; e que acredita ter contribuído muitas vezes, como no caso dos medicamentos para HIV: “A gente trouxe, mostrou pro governo”.


A coordenação entre governo, indústria e acesso

A Blanver fabrica IFAs em uma unidade farmoquímica própria em Indaiatuba, no interior de São Paulo. São principalmente antirretrovirais e medicamentos estratégicos do SUS, com destaque para dolutegravir, tenofovir, entricitabina, lamivudina e efavirenz, em diferentes combinações terapêuticas. Segundo Sérgio, houve crescimento nos últimos cinco anos, algo na ordem de 300%, grande parte induzido pelas parcerias com o governo.

Sobre fabricar IFAs, Sérgio cita que as especialidades podem crescer no Brasil, no contexto setorial e para a Blanver, mas que não crescerão na mesma taxa da demanda e dos medicamentos prontos. Esse crescimento é importante se observado focalmente na organização experimentando tal fenômeno, ou se observada a importância como prova de conceito ou prova de valor, mas em números relativos às necessidades do país, tal crescimento é insuficiente, chegando a ser desprezível se comparado com a evolução de outros países, como China. Para a Blanver, o resultado é estratégico.

Sérgio considera as PDPs um grande alavancador de tecnologia, responsável por ampliar o acesso da população a medicamentos e tratamentos, com impacto direto no número de pessoas atendidas. Além disso, o programa cria uma agenda permanente entre empresas, laboratórios públicos e Ministério da Saúde, o que também tem valor institucional. E lembra que as PDPs pertencem à mesma família de instrumentos usados por governos desenvolvidos para transformar demanda pública em capacidade tecnológica: compras públicas de inovação, encomendas tecnológicas, contratos de desenvolvimento, compras antecipadas e mecanismos de compartilhamento de risco.

A Comissão Europeia tem uma página específica sobre Public Procurement of Innovation5, afirmando que compras públicas representam mais de 14% do PIB da UE e podem criar um grande mercado para produtos e serviços inovadores. A Comissão declara que busca melhorar práticas de compra pública, promover demanda por bens e serviços inovadores e integrar a demanda pública ao ecossistema de inovação europeu.

Mais especificamente para medicamentos, a União Europeia conta com a Pharmaceutical Strategy for Europe6, adotada em 2020, que declara objetivos como apoiar pesquisa e tecnologias que cheguem aos pacientes, tratar falhas de mercado, garantir acesso, fortalecer inovação, competitividade, sustentabilidade industrial e cadeias de suprimento seguras.

E logo depois vemos o Critical Medicines Act7, proposto em 2025. Ele é especialmente útil para esse artigo, porque fala explicitamente em melhorar disponibilidade, fornecimento e produção de medicamentos críticos dentro da UE, de criar projetos estratégicos para medicamentos ou ingredientes críticos, de facilitar acesso a financiamento, de usar compras públicas para incentivar resiliência de cadeias e de apoiar compras colaborativas entre Estados membros.

O governo americano usa a BARDA8 e o Project BioShield9 para financiar desenvolvimento avançado, contratar, comprar e estocar contramedidas médicas, incluindo medicamentos, vacinas e terapias.

Outra iniciativa importante, dessa vez reunindo a comunidade global, é o CARB-X10, que suporta a inovação através do desenvolvimento de novos antibióticos para combater bactérias resistentes às drogas tradicionais, e que tem como parceiros financiadores países como EUA, Alemanha, Reino Unido, Canadá, Japão, Itália e algumas organizações privadas, como a Gates Foundation, a fundação Novo Nordisk e a Wellcome11, uma instituição sem fins lucrativos que financia iniciativas em ciência. Reflito a ausência do Brasil.

De volta ao nosso país, as encomendas tecnológicas, segundo Sérgio, são uma combinação clássica entre ociosidade da indústria e déficits de medicamentos, e compõem uma equação muito difícil, que envolve problemas estruturais do país, incluindo orçamento público. Além disso, têm um caráter político muito forte.

Para ele, o governo aprendeu muito durante todos esses anos, e cita o caso da derrubada do parágrafo único do artigo 40 da Lei de Propriedade Industrial. Na avaliação de Sérgio, a regra transformava a demora do INPI em vantagem competitiva para titulares de pedidos de patente. Durante a fila de análise, o requerente já operava sob a sombra jurídica de uma futura exclusividade; depois da concessão, o titular ainda recebia um prazo mínimo de exploração contado a partir da decisão do INPI. Na prática, o gargalo administrativo, em função do acúmulo de pedidos, podia funcionar como barreira à entrada de concorrentes e como prolongamento econômico do monopólio, retardando o acesso da população a opções mais baratas.

Para Sérgio, o Brasil fez o que os países desenvolvidos fizeram, equalizando a questão das patentes, e o efeito desse movimento foi a possibilidade de internalizar a produção de medicamentos com níveis de acesso muito importantes.


Governança, decisões empresariais e lideranças do setor

Sérgio menciona que as parcerias com organismos públicos trouxeram outros ganhos para a Blanver e para o setor. Uma delas é a relação com o BNDES, que ajudou a estruturar práticas mais formais de governança. “O banco exigiu governança de fato e hoje temos um conjunto de boas práticas dentro da Blanver.”

Segundo Sérgio, é verdade que o setor tem acesso a boas taxas de juros e prazos de carência para financiamentos – mais baixas principalmente para projetos de pesquisa e desenvolvimento – o que facilita alocação e adequação a fluxos de caixa. Mas essa oportunidade vem com obrigações e escolhas que não são fáceis de fazer.

É preciso coragem para transferir os resultados positivos de linhas de produtos que já deram certo para cobrir os prejuízos de outras apostas que ainda não encontraram o ponto ótimo de volume e receita. E é o que a Blanver vem fazendo, citando um projeto de oncologia que vem gerando prejuízos há quatro anos e que Sérgio acredita que seja o preço natural a ser pago para uma posição relevante nessa classe de terapias.

Por outro lado, essas apostas podem trazer resultados importantes, como a parceria que a Blanver acaba de fazer com uma empresa sediada em Malta, com diversos centros de pesquisa distribuídos pelo mundo, e que é fruto da cultura de inovação e colaboração da empresa. Esse movimento tem o potencial de abrir mercado para a Blanver em mais de 50 países com demandas importantes, trazer escala e ganhos em competitividade, e Sérgio gosta da ideia do impacto que a Blanver pode levar a essas populações.

“Muitos no Brasil querem fazer mais do mesmo, mas acreditamos que estamos gerando riqueza”, comentou Sérgio quando discutíamos a origem do capital para esses projetos. A empresa tem o BNDES e o FINEP como grandes parceiros, e um 3º componente: sua própria geração livre de caixa, que é realocada nos projetos da empresa, criando uma linha contínua de continuidade e existência causal para a Blanver.


O amanhã ainda é uma escolha

Acreditando que a reforma tributária pode melhorar o ambiente de negócios, Sérgio cita a complexidade do país como uma das principais barreiras para a continuidade desse desenvolvimento, que percebemos claramente ter existido até aqui.

Ele reconhece que há uma desoneração federal relevante para parte dos medicamentos, a lista positiva, mas argumenta que isso não elimina o problema maior de acesso, porque continuam pesando ICMS, custo de distribuição, complexidade tributária e logística, os principais fatores que compõe o custo Brasil.

O objetivo deste artigo não é concluir, tarefa que provavelmente caberá ao conjunto da série sobre a indústria farmacêutica nacional. Mas a conversa com Sérgio Frangioni, e antes disso com Reginaldo Arcuri e Jaeder Morais, parece indicar a existência de um ecossistema rico e diverso, com empresários e atores conscientes de nossa situação, ainda que com visões diferentes, e uma estrutura pública que age, aprende e tenta acertar. Ministério da Saúde, Anvisa, BNDES e FINEP são apenas os exemplos mais visíveis de uma máquina institucional que, com suas limitações, já produziu vitórias indiscutíveis e resultados reais para a população.

Em certa medida, faz parecer que o amanhã é uma alternativa viável e dependente, em boa parte, de nossas próprias escolhas.

  1. Brasil, inovação e o setor farmacêutico – HSM Management
  2. BNDES aprova R$ 220 mi à farmacêutica Blanver para produção de medicamentos e IFAs Página Inicial | Agência BNDES de Notícias
  3. Farmanguinhos obtém registro de mais dois medicamentos estratégicos para o SUS – Notícia – UNA-SUS
  4. Brasil elimina transmissão vertical do HIV, da mãe para o bebê, e alcança menor taxa de mortalidade dos últimos anos — Ministério da Saúde
  5. Public Procurement of Innovation – Internal Market, Industry, Entrepreneurship and SMEs
  6. A pharmaceutical strategy for Europe – Public Health – European Commission
  7. Critical medicines Act – Public Health – European Commission,
  8. Medical Countermeasures | BARDA Project BioShield
  9. Project BioShield and the Biomedical Advanced Research Development Authority: A 10-Year Progress Report on Meeting US Preparedness Objectives for Threat Agents | Clinical Infectious Diseases | Oxford Academic
  10. Home – Carb-X
  11. Home | Wellcome

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