Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
7 minutos min de leitura

IA não fracassa no modelo – fracassa no negócio

Muito além do algoritmo, o sucesso em inteligência artificial depende da integração entre estratégia, dados e times preparados - e é justamente essa desconexão que explica por que tantos projetos não geram valor.
Profissional com mais de 25 anos de experiência na área de Dados, com foco em Inteligência Artificial e Machine Learning desde 2013. É mestre e doutor em Inteligência Artificial pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ao longo da carreira, passou por grandes empresas como Microsoft, Deloitte, Bayer e Itaú. Neste último, liderou a estratégia de migração da plataforma de IA para a nuvem, entregando uma solução completa de desenvolvimento em IA para todo o banco.

Compartilhar:

A implementação de projetos robustos de Inteligência Artificial exige uma visão mais ampla do que a simples escolha de um modelo de aprendizado de máquina. A IA depende de uma estratégia estruturada que integra três pilares principais: objetivos de negócio bem definidos, dados de qualidade e evolução contínua das equipes.

Ainda é comum que gestores iniciem essa jornada acreditando que a adoção do algoritmo mais moderno seja suficiente para garantir o sucesso de um projeto. No entanto, a prática de mercado demonstra o contrário. Os dados constituem a base indispensável de qualquer sistema de IA. 

Sem informações confiáveis e bem estruturadas, até os modelos mais sofisticados tendem a gerar resultados irrelevantes ou enviesados. No melhor dos cenários, isso resulta em perdas financeiras decorrentes de iniciativas que não entregam valor.

Por isso, o ponto de partida deve ser sempre a definição clara de um problema de negócio específico. A partir dessa etapa, cabe à equipe técnica avaliar se os dados disponíveis possuem volume, qualidade e relevância suficientes para sustentar a solução proposta. Nesse contexto, a governança de dados se consolida como um dos principais pilares estratégicos para organizações que buscam maturidade digital e vantagem competitiva.

Além disso, a simples coleta passiva de dados já não atende às demandas atuais. É necessário encará-los como ativos dinâmicos, que exigem processos contínuos de limpeza, rotulagem e curadoria. Não por acaso, a etapa de preparação costuma consumir a maior parte do tempo em projetos de IA, mas é justamente ela que assegura a confiabilidade e a precisão dos resultados.

E isso não é novidade. Na década de 80 a Gartner popularizou o termo Business Intelligence como utilizamos até hoje. Já nos anos 90, Ralph Kimball popularizou a ideia de que projetos de Business Intelligence gastam cerca de 80% do tempo em preparação e entendimento de dados (como limpeza, integração e modelagem), em contraste com apenas 20% em análise real. Podemos dizer que essa regra de Pareto adaptada se mantém viva até hoje.

Potencializando a base de dados com Data Augmentation

Nem sempre as empresas possuem volumes massivos de dados disponíveis para treinar seus modelos de aprendizado de máquina. Nesses casos, a técnica de Data Augmentation surgiu como uma abordagem poderosa para expandir artificialmente as bases de conhecimento existentes. Ela permite criar novas variações de dados a partir das informações originais, aumentando a diversidade do treinamento.

Por exemplo, para dados não estruturados, como imagem, é possível aumentar o volume de dados através de transformações geométricas ou inserção de ruídos controlados. Já para dados estruturados, como informações transacionais, devem ser aplicadas técnicas que preservem as correlações estatísticas, restrições de integridade referencial e a cronologia lógica dos eventos originais. Para isso, em ambos os casos, o time de engenharia consegue gerar cenários que o modelo ainda não conhece.

Essa abordagem previne o problema do overfitting, que é um caso de sobreajuste do modelo onde a IA decora os exemplos em vez de aprender padrões gerais. Assim, a técnica possibilita que o sistema seja resiliente e capaz de lidar com imprevistos no mundo real. Além disso, o aumento de dados reduz drasticamente os custos de aquisição de novas informações externas. O uso inteligente de algoritmos de geração de dados sintéticos permite que pequenas empresas compitam com gigantes do setor.

O surgimento das abordagens AI-Driven Development

A evolução das ferramentas de automação transformou a rotina dos projetos, dando origem ao conceito de AI-Driven Development. Nesta nova realidade, o engenheiro de software não escreve apenas código manual, mas atua como um orquestrador de sistemas inteligentes. Essa mudança exige uma adaptação profunda das habilidades técnicas e mentais dos profissionais de tecnologia.

O foco desloca-se da sintaxe da linguagem de programação para a capacidade de escrever prompts com técnicas de engenharia mais eficazes. Além disso, o desenvolvedor precisa entender conceitos de probabilidade e estatística para validar as sugestões geradas pela IA. A produtividade aumenta significativamente, mas a responsabilidade sobre a segurança e a ética do código também cresce proporcionalmente.

As empresas valorizam agora o profissional que consegue integrar assistentes de IA em todo o ciclo de vida do software. Desde o planejamento até o deploy, a inteligência artificial otimiza testes unitários e identifica vulnerabilidades de forma proativa. Como resultado, o fluxo de trabalho torna-se mais ágil, permitindo que as equipes foquem em inovação arquitetural. 

E é importante ressaltar que a IA deve ser tratada como ferramenta, não como uma substituta para o ser humano. As atividades que podem ser desenvolvidas utilizando IA são as mais repetitivas, deixando o time de engenharia com foco nas estratégias e decisões de como as atividades serão implementadas pela IA.

Novas habilidades esperadas

Para sobreviver a essa transição, os profissionais de tecnologia precisam cultivar um conjunto híbrido de competências técnicas e comportamentais. O conhecimento profundo em Machine Learning Operations (MLOps) torna-se tão importante quanto o domínio do próprio desenvolvimento backend tradicional. Entender o ciclo de vida do modelo é essencial para garantir a manutenção de sistemas em produção. Outro aviso importante, os projetos de dados são diferentes dos projetos de software tradicionais, entender a diferença entre sistemas determinísticos e probabilísticos é o ponto inicial destas abordagens.

A capacidade de interpretar métricas complexas e explicar o comportamento da IA para stakeholders é um diferencial raro. Além disso, o pensamento crítico torna-se a principal defesa lógica contra as alucinações comuns em modelos de IA Generativa, e o uso de RAG que pode, de certa forma, ser considerado um Data Augmentation, e definições de Guardrail, são defesas físicas para evitar as alucinações.

O aprendizado contínuo deixa de ser um clichê para se tornar uma necessidade de sobrevivência técnica. Aqueles que ignorarem a integração da IA em seus fluxos de trabalho correm o risco de obsolescência rápida, além de demora em colocar seus produtos para o cliente na ponta.

A sobrevivência para projetos de IA

Saber implementar IA em um ambiente real de mercado exige mais do que conhecimento técnico isolado. O sucesso depende de uma estratégia clara que conecte a tecnologia aos objetivos financeiros e operacionais da companhia. Muitas iniciativas falham justamente por não possuírem um plano de sustentabilidade a longo prazo após o lançamento inicial. Começar pelo interesse de uso da tecnologia, como já expliquei no começo deste texto, é um fator de risco e deve ser mitigado pensando principalmente na solução de negócio que deve ser implementada.

Para a sobrevivência dos projetos, é ideal começar com a escolha de casos de uso que tragam retorno sobre investimento rápido. É recomendável começar com projetos pequenos e escaláveis antes de tentar transformar toda a infraestrutura da empresa. Essa abordagem iterativa reduz riscos e permite que a equipe aprenda com erros menores sem comprometer o orçamento. Tem abordagens que se mostram promissoras e são implantadas de forma BigBang, são casos raros mas existem! Para seguir no porto seguro, o ideal é implementar, validar de forma controlada, para só então, com sucesso no grupo controle, implantar toda a solução para os clientes.

A integração entre os times de ciência de dados, engenharia de dados e engenharia de software deve ser fluida e constante. O isolamento desses times costuma gerar modelos que funcionam em laboratório, mas falham miseravelmente em ambientes de produção. 

Compreender que a IA vai além do modelo permite que as organizações deixem de perseguir tendências superficiais e passem a construir soluções consistentes. A combinação entre uma base sólida de dados, técnicas de expansão bem aplicadas e profissionais preparados para um contexto orientado por IA cria as condições para transformar inovação em resultado concreto. O desafio atual não está na falta de tecnologia, mas na dificuldade de integrá-la a processos capazes de gerar valor de forma previsível e escalável.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Organizações vivas: o que o levain ensina a quem lidera?

Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Inovação farmacêutica brasileira: um ponto de inflexão nas análises do setor

Este é o quinto artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira. Após examinarmos a posição global do país, o acesso a medicamentos e a capacidade científica e industrial, a conversa com Norberto Prestes, da Abiquifi, amplia a investigação para as conexões entre empresas, pesquisadores, universidades e financiamento.
Como avaliar investimentos e resultados com informações pouco comparáveis? Entre orçamentos de P&D, incentivos acadêmicos e descobertas de pequenas equipes, buscamos parâmetros para examinar como o conhecimento se converte em aplicações, capacidade econômica e benefícios para a população.

O cliente não compra tecnologia. Compra conforto.

Recursos avançados, aplicativos e conectividade impressionam, mas raramente são o motivo principal de uma decisão de compra. O que as pessoas realmente buscam é uma solução capaz de tornar a vida mais simples e agradável. O artigo explora por que o sucesso de produtos inteligentes depende menos das funcionalidades e mais da capacidade de entregar uma experiência intuitiva e consistente.

Autoridade não se mede em decibéis

Em um momento em que denúncias de assédio, investigações internas e crises de liderança ganham cada vez mais espaço nas organizações, cresce a necessidade de diferenciar autoridade de poder. O texto analisa por que líderes que dependem do cargo ou da imposição para obter resultados acabam comprometendo justamente aquilo que mais precisam preservar: pessoas, confiança e performance.

ESG, Liderança
20 de outubro de 2026 08H00
Ao celebrar 13 anos de atuação, o Grupo Mulheres do Brasil reafirma seu compromisso com a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e diversa. Mas sua trajetória revela um impacto que vai além das causas e dos projetos: a força de uma rede capaz de conectar mulheres, criar oportunidades, fortalecer vínculos e promover desenvolvimento pessoal e coletivo.

Alexandra Segantin - CEO do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de outubro de 2026 14H00
Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

11 minutos min de leitura
Estratégia
19 de outubro de 2026 08H00
Este é o quinto artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira. Após examinarmos a posição global do país, o acesso a medicamentos e a capacidade científica e industrial, a conversa com Norberto Prestes, da Abiquifi, amplia a investigação para as conexões entre empresas, pesquisadores, universidades e financiamento. Como avaliar investimentos e resultados com informações pouco comparáveis? Entre orçamentos de P&D, incentivos acadêmicos e descobertas de pequenas equipes, buscamos parâmetros para examinar como o conhecimento se converte em aplicações, capacidade econômica e benefícios para a população.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
18 de outubro de 2026 15H00
Recursos avançados, aplicativos e conectividade impressionam, mas raramente são o motivo principal de uma decisão de compra. O que as pessoas realmente buscam é uma solução capaz de tornar a vida mais simples e agradável. O artigo explora por que o sucesso de produtos inteligentes depende menos das funcionalidades e mais da capacidade de entregar uma experiência intuitiva e consistente.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor responsável técnico da Hotfloor

5 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de outubro de 2026 09H00
Inclusão não se resume ao acesso ao emprego. Ela envolve reconhecimento, desenvolvimento, representatividade e perspectivas reais de carreira. O artigo reflete sobre os avanços conquistados, os desafios que persistem e o papel das organizações na construção de ambientes onde todas as pessoas possam prosperar.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
17 de outubro de 2026 15H00
Em um momento em que denúncias de assédio, investigações internas e crises de liderança ganham cada vez mais espaço nas organizações, cresce a necessidade de diferenciar autoridade de poder. O texto analisa por que líderes que dependem do cargo ou da imposição para obter resultados acabam comprometendo justamente aquilo que mais precisam preservar: pessoas, confiança e performance.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Estratégia
17 de outubro de 2026 09H00
O artigo propõe uma reflexão sobre como energia, bem-estar, desenvolvimento de lideranças e autonomia deixaram de ser temas periféricos para se tornarem elementos centrais da infraestrutura necessária para escalar negócios sem esgotar os recursos humanos que tornam esse crescimento possível.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

6 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
16 de outubro de 2026 15H00
Algoritmos, preferências pessoais e vieses cognitivos influenciam diariamente a forma como enxergamos o mundo, muitas vezes sem que percebamos. Em tempos de polarização, excesso de informação e mudanças rápidas, cultivar curiosidade, escuta ativa e abertura para pontos de vista diferentes pode ser um diferencial importante para quem deseja construir decisões mais inteligentes e sustentáveis.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de outubro de 2026 09H00
Entre previsões apocalípticas e promessas de produtividade ilimitada, os dados mais recentes sobre inteligência artificial publicados pela Gartner, MIT e Frontiers contam uma história mais complexa.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
15 de outubro de 2026 14H00
Inspirado pela trajetória de Rafael Nadal retratada no documentário Rafa, o artigo propõe uma reflexão sobre a forma como empresas constroem seus planejamentos estratégicos.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução