Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Estratégia
6 minutos min de leitura

Quando o design estrutura a organização: o caso da Araujo

Com mais de um século de história, a Drogaria Araujo mostra que longevidade empresarial se constrói com visão estratégica, cultura forte e design como motor de inovação.
Pesquisador e operador em Organizational Theory, com trajetória internacional marcada por decisões fora do roteiro tradicional. Atuou por mais de uma década na Ásia e também nas Américas e Europa, lidando com operações complexas, ambientes regulatórios adversos e contextos nos quais não há manual disponível. Autodidata e avesso a soluções de prateleira, atua na interseção entre economia, contratos sociais, tecnologia - com foco em processos, modelos descritivos e formulações matemáticas - e organização do trabalho. É membro do Comitê Global de Inovação da Fast Company e colaborador da HSM. Atualmente, lidera a RMagnago, apoiando acionistas e executivos em decisões estratégicas de alto risco e elevada ambiguidade.

Compartilhar:


A Drogaria Araujo é uma organização com mais de 119 anos de vida.

A literatura profissional define diferentes linhas de transição para organizações: algumas falam de risco de morte no 1º ano, depois 5º e 12º, outras trazem números próximos a esse. O ponto em que todas as literaturas organizacionais concordam é que 119 anos de existência é raro, valoroso e requer cuidadosa observação.

A receita da empresa ultrapassará 5 bilhões de reais em 2025, com mais de 350 instalações de varejo, e usa tecnologias de ponta e modelos organizacionais sofisticados em sua rotina diária. Ainda mais: emprega mais de 12 mil pessoas, cresce a uma taxa acima do padrão de sua indústria – e da grande maioria delas – desde a virada do século. Seus índices de eficiência superam de longe as médias do setor.

A Araujo é uma organização comandada por uma família, que, para além de seu presidente, Modesto Araújo Neto, da 3ª geração da família no negócio, conta com Bruno Araujo, Silvia Araujo, Cristiana Araujo e Antônio Araujo, pertencentes à 4ª geração.

No corpo de executivos da liderança ainda figuram Rachel Rohlfs e André Giffoni. Modesto se juntou aos irmãos Eduardo e Marco Antônio na liderança da organização em meados dos anos 80, vindo de passagens pelo mercado financeiro, e a visão que Modesto trazia à época, segundo seu diretor de Estratégia Digital e Clientes, André Giffoni – que graciosamente construiu conosco esse artigo – era de eficiência no uso de recursos circulantes e necessidade urgente de informatização.

Modesto foi a Miami na década de 90 em busca de insights e treinamento, e observando as drugstores americanas, trouxe de lá conceitos que moldariam a organização nos anos vindouros.

Modesto já olhava profundamente para design – fluxos, processos, jornada, produto – e o resto é história.


O modelo de gestão e o papel do design

A Drogaria Araújo conta com lideranças nas áreas Comercial, Gente, Risco e Compliance, Finanças, Gestão e Controladoria, Logística e Cliente. Quem nos ajudou a compreender os mecanismos de funcionamento da empresa foi André, executivo com 25 anos de casa.

O portfólio da empresa é largo. Quer a prova? A empresa, uma rede de farmácias, é a 2ª maior varejista do país em quantidade de freezers da Coca-Cola. Medicamentos a qualquer hora para seus clientes e a segurança necessária ao setor? Sim. Mas a participação conveniente na jornada de seus consumidores antes de tudo. Falando sobre a presença de alimentos nas lojas da Araujo, André recorda de Modesto demandando a disponibilidade de pães nas lojas para ajudar seus clientes em suas jornadas de volta para casa ao final do dia. É para se pensar.

A diretoria se reúne 2 vezes na semana para decisões estratégicas e checagem tática. As reuniões ocorrem com ritmo e frequência em moldes de governança, embora ainda não tenham registros formais a exemplo de atas.

O Design, embora sempre presente na jornada de crescimento da empresa, foi ganhando contornos de importância ao longo do tempo, e a abordagem foi se alterando e se adaptando aos cenários. André lembra que o design foi uma preocupação presente desde os tempos da viagem a Miami, mas ganhou relevância com a chegada da ideia de “área de produto”, quando a presença online era mais exigida das empresas.

Websites, aplicativos e todo o conjunto de aplicações necessárias ao acesso do cliente à empresa através das telas – fase em que se recorria muito a design em front end – precisavam ganhar donos dentro da empresa. Esse foi um momento de indecisão nas organizações. Perguntava-se a quem pertencia a “turma da internet”. Na Araujo pertencia à unidade de produto.

Nessa esteira, vale a pena mencionar que o design de front end veio a se tornar o tema central do UX (User Experience) para a indústria nos anos posteriores. É nesse ponto que André relembra outra passagem. Embora a estruturação dessa área de produto olhasse para o “digital”, outra inovação também foi trabalhada nesse mesmo momento e pela mesma equipe: a adoção de armários (lockers) para a retirada de compras online por clientes. Embora proveniente de compras a distância, a questão toda era física.

Para André, pela preocupação centrada em resolver dores do cliente, estava nascendo ali uma unidade que no futuro receberia nome e carga de importância de departamento estratégico, como veremos adiante. Outro momento importante nos registros da empresa foi a chegada, em 2017, do premiado designer Gustavo Greco. Entre trabalhos de sinalização e embalagem, Gustavo criou a celebrada marca Mió, própria da Araujo, e que compõe parte importante do portfólio da empresa.

Juntos, Drogaria Araujo e Gustavo ganharam 8 prêmios iF Design Awards. Além disso, o design de alta qualidade de Gustavo foi absorvido pela cultura da empresa, e a Mió conta hoje com mais de 500 produtos diferentes, que vão de batatas-fritas a produtos de beleza e saúde.

Mas é a partir de 2020 que a coisa começa a ganhar contornos ainda mais corporativos.

O primeiro movimento foi a direção da Araujo conferir independência à área de Digital, e a unidade passar a ter orçamento e métricas próprias, dentro do planejamento plurianual da organização. Mais adiante, já em 2025, outro desdobramento que demonstra o nível de sofisticação estratégica da direção da empresa: o Digital é particionado e cria-se a área de Jornada.

A partir de agora a empresa passa, como disse André, “a juntar tudo pelos olhos do cliente”.


A responsabilidade do Design – a área de jornada

Tudo que se havia feito até agora se consolidara: a área de jornada do cliente Araujo era um norte comum, uma visão compartilhada e uma síntese organizacional. A área de Jornada ganhou orçamento próprio em 2025, mesmo que fora do plano plurianual, e em 2026 terá seu orçamento – quase com o mesmo nível de recursos do Digital – ao lado de todas as áreas estratégicas da empresa.

Com planejamento e metas próprias, a área tem vários designers – alguns especializados em experiência do usuário (UX) – utiliza-se de metodologias e ritos procedimentais pacificados na prática organizacional, e conta com apoio das equipes técnicas da empresa.

Mais do que isso, a unidade já tem sementes que começam a dar frutos. São 4 novas jornadas de clientes em teste nesse ano de 2025.

Quer mais?

O time de Jornada liderou nesse ano um workshop de processos e precificação que envolveu diversas áreas da empresa. E os clientes internos não param de crescer. Segundo André, não se faz mais projetos na empresa sem que essa unidade dê suporte pelas metodologias de Design. Até a área de TI já figurou como cliente interno da área de Jornada. Não há mais lugar para improviso. Para ele, esse novo ordenamento ajuda a empresa a manter o nexo causal de suas operações segundo as necessidades de seus clientes.

É importante mencionar que, segundo André, em todas as fases de construção e transformação dessas unidades, suas lideranças sempre tiveram acesso à diretoria de forma direta, a partir das reuniões semanais e de outros protocolos. Além disso, Modesto é o principal entusiasta e apoiador desse pensamento à frente do tempo. Sem a liderança comprada na ideia, nada disso faz sentido.

Finalmente, os lockers estão mais vivos do que nunca, hoje também utilizados por entregadores, e o design finalmente conquistou status de liderança estratégica.

Está claro que as Drogarias Araujo colocaram os dois pés no século 21 logo que os novos tempos se anunciaram.

Compartilhar:

Pesquisador e operador em Organizational Theory, com trajetória internacional marcada por decisões fora do roteiro tradicional. Atuou por mais de uma década na Ásia e também nas Américas e Europa, lidando com operações complexas, ambientes regulatórios adversos e contextos nos quais não há manual disponível. Autodidata e avesso a soluções de prateleira, atua na interseção entre economia, contratos sociais, tecnologia - com foco em processos, modelos descritivos e formulações matemáticas - e organização do trabalho. É membro do Comitê Global de Inovação da Fast Company e colaborador da HSM. Atualmente, lidera a RMagnago, apoiando acionistas e executivos em decisões estratégicas de alto risco e elevada ambiguidade.

Artigos relacionados

Posicionamento não é desculpa para ser do contra

Existe uma crença silenciosa nas empresas de que profissionais experientes precisam ter opinião sobre tudo e discordar de quase todos. O problema é que posicionamento não é sinônimo de oposição. Neste artigo, o autor provoca uma reflexão sobre como a necessidade de marcar território pode comprometer relacionamentos, confiança e crescimento na carreira, e por que profissionais verdadeiramente influentes são aqueles que contribuem para a qualidade das decisões, independentemente de quem trouxe a ideia para a mesa.

Por que o marketing precisa sair da própria bolha

As grandes ideias raramente surgem da repetição das mesmas referências. Em uma época de acesso democratizado à informação e às tecnologias, o diferencial competitivo passa a ser a qualidade das perguntas que fazemos. Ao refletir sobre arte, cultura e criatividade, o artigo argumenta que as marcas mais inovadoras serão aquelas capazes de formar pessoas que aprendam a observar, conectar e interpretar o mundo de formas que ainda não foram exploradas.

Por que alguns eventos entram para a história e outros são esquecidos na semana seguinte

Por trás dos maiores eventos do mundo existe um trabalho que começa muito antes da abertura dos portões. Leitura de cenário, curadoria estratégica, construção de comunidade e a capacidade de reunir as pessoas certas explicam por que alguns encontros se tornam plataformas de influência, inovação e negócios, enquanto outros permanecem apenas como eventos.

O fim da guerra fiscal: como a Reforma Tributária pode mudar a logística brasileira

Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Saudável, gostoso e acessível: a equação que desafia a indústria de alimentos no Brasil 

Reduzir açúcar, sódio e gorduras sem comprometer sabor, performance culinária e competitividade de preço tornou-se uma das equações mais complexas da indústria de alimentos. O artigo explora como mudanças regulatórias, comportamento do consumidor e inovação tecnológica estão redefinindo estratégias de produto, marketing, cadeia de suprimentos e crescimento no setor de bens de consumo.

A fadiga de decidir em tempos de excesso

Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.

Inovação & estratégia
31 de julho de 2026 14H00
Mais contatos, mais mensagens, mais reuniões e menos impacto. Em uma economia movida por redes e ecossistemas, a vantagem competitiva não está em estar conectado o tempo todo, mas em construir conexões capazes de gerar confiança, influência, inovação e transformação ao longo do tempo.

Tássia Galvão - Fundadora e CEO da Konne

8 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de julho de 2026 08H00
Este artigo propõe uma reflexão sobre por que atenção, presença, pensamento crítico e conexão humana podem se tornar os ativos mais valiosos de uma era cada vez mais dominada pela tecnologia.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

6 minutos min de leitura
Cultura organizacional
30 de julho de 2026 14H00
Tecnologias, processos e estratégias podem mudar rapidamente. O que diferencia organizações resilientes é a capacidade de preservar os princípios que orientam decisões e comportamentos, transformando a cultura em um elemento de coerência em meio à mudança contínua.

Diego Alegre - CEO do Arquipélago "Culturas que transformam"

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de julho de 2026 07H00
A agricultura é uma das grandes forças econômicas do Brasil, mas seus mecanismos de inovação ainda são pouco compreendidos fora do setor. Este artigo parte de uma conversa com Jonas Hipólito, CEO da Biotrop, para observar como ciência, bioinsumos, biodiversidade, dados e competição global começam a redesenhar a próxima etapa da produtividade agrícola.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

21 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
29 de julho de 2026 14H00
Enquanto parte do mercado ainda vê a indústria como “velha economia”, empresas como WEG e John Deere mostram uma realidade diferente: na era da inteligência artificial, o ativo mais valioso pode não ser o algoritmo, mas os dados únicos gerados por ativos físicos que ninguém mais consegue reproduzir.

Átila Persici - COO da Bolder

8 minutos min de leitura
Liderança
29 de julho de 2026 07H00
Embora a presença feminina no mundo do trabalho tenha avançado de forma consistente nas últimas décadas, os desafios permanecem. Neste artigo, a autora propõe uma mudança de perspectiva: menos foco nos obstáculos e mais atenção às alavancas capazes de impulsionar transformações. Entre elas, destaca-se uma competência cada vez mais valiosa em tempos de incerteza: a capacidade de administrar paradoxos e liderar pela lógica do “E”, integrando eficiência e inovação, resultado e cuidado, racionalidade e sensibilidade.

Betania Tanure - PhD, Sócia fundadora da BTA, membro do Conselho de Administração do Magalu e da MRV e cofundadora do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 14H00
Rampas, tecnologias assistivas e conformidade regulatória são apenas o ponto de partida da inclusão. Entre a conformidade técnica e a adoção real existe um elemento frequentemente negligenciado: a cultura. Este artigo explora como a Inteligência Cultural pode determinar o sucesso ou o fracasso de estratégias globais de inclusão.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor e Clara Choen - Fundadora da Savant Consulting

12 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
28 de julho de 2026 08H00
Inspirado pelo legado de Oscar Motomura, o artigo questiona uma das crenças mais difundidas da gestão contemporânea: a ideia de que a transformação acontece apenas por meio das pessoas. A verdadeira mudança, argumenta o autor, depende da capacidade de revisar as estruturas invisíveis que moldam comportamentos, decisões e culturas organizacionais.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
27 de julho de 2026 14H00
Após anos de perda de passageiros e desafios financeiros, o transporte coletivo brasileiro ganha um novo marco regulatório que busca ampliar fontes de financiamento, reduzir desequilíbrios tarifários e criar condições para mais investimentos em qualidade, eficiência e experiência do usuário.

Vinicius Ladeira - Diretor Adjunto Nacional do SEST SENAT

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
27 de julho de 2026 08H00
Enquanto o debate sobre inteligência artificial continua concentrado em modelos, automação e produtividade, uma outra transformação acontece nos bastidores: a tensão gerada entre a democratização e a concentração de poder que pode definir a próxima fase da economia global.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

8 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo