ESG, Cultura organizacional, Inovação & estratégia
5 minutos min de leitura

Quem está ficando de fora do futuro da tecnologia?

Num setor que insiste em se declarar neutro, este artigo expõe a pergunta incômoda que a tecnologia evita - e revela por que ampliar quem ocupa a mesa de decisões é urgente para que o futuro não repita o passado.
O CESAR é o mais completo centro de inovação e conhecimento do Brasil, referência no desenvolvimento de soluções tecnológicas de alta complexidade, com impacto para toda a sociedade. Atua, há quase 30 anos, integrando pesquisa, aceleração de negócios e tecnologia para elevar organizações a um novo patamar de competitividade, além de educação, por meio da CESAR School.
Diretora de Cultura e ESG do CESAR. Graduada em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco, com pós-graduação em Comunicação e Marketing pela UFPE e em Transformação Estratégica pela CESAR School. Há mais de 25 anos no CESAR, Roberta também possui formação executiva no Advanced ESG Program pela Saint Paul e é cofundadora e conselheira do Pacto de Promoção da Equidade Racial, além de membra do Comitê Consultivo do Movimento Elas Lideram 2030 Pacto Global da ONU – Rede Brasil. Com mais de 32 anos de experiência nas áreas de jornalismo, publicidade, comunicação corporativa e marketing, construiu uma trajetória sólida e multidisciplinar.

Compartilhar:

Ao longo de mais de três décadas de carreira, hoje à frente da agenda de Cultura e ESG do CESAR, vi muitas vezes a tecnologia se imaginar neutra, técnica e objetiva, como se algoritmos e dados não carregassem cor, gênero, território ou bagagem social. Ou como se o futuro pudesse ser programado sem qualquer acerto de contas com o passado. No entanto, toda tecnologia nasce de pessoas, e pessoas têm história, repertório e visão de mundo. Por isso, há anos uma pergunta me acompanha: quantos desses corpos diversos estão, de fato, dentro das empresas de tecnologia decidindo o que será criado e como será distribuído?

Sempre que entro em uma sala onde se definem os rumos de produtos, plataformas, projetos e sistemas que impactarão milhares de vidas, ela ressurge de forma silenciosa: quem não está aqui? Com o tempo, deixei de tratar essa inquietação apenas como reflexão e passei, junto ao meu time, a transformá-la em prática, propondo ações concretas para preencher, pouco a pouco, essas lacunas. Não se trata de um movimento individual, mas de uma mudança de direção que começa a ganhar força, ainda que de forma sutil, no mercado nacional.

O Brasil tem avançado na presença feminina na tecnologia, mas o setor que mais promete futuro ainda opera, em grande medida, como uma bolha que cresce, fatura e escala sem necessariamente refletir a diversidade da sociedade que pretende atender. Relatórios sobre representatividade feminina no mercado de TIC reforçam esse cenário. O Relatório de Diversidade da Brasscom aponta que as mulheres representam 34,2% da força de trabalho no setor, percentual que praticamente se repete nos cargos de diretoria e gerência. Entre 2019 e 2024, a presença feminina na liderança cresceu apenas um ponto percentual. É um avanço, mas revela o quanto ainda caminhamos lentamente quando o assunto é equidade de gênero.

No CESAR, aprendemos que crescimento, por si só, não é sinônimo de impacto positivo. Em 2025, ultrapassamos R$435 milhões em receita, crescemos 20% em relação ao ano anterior, entregamos mais de 130 projetos de alta complexidade e reunimos mais de 1.500 pessoas construindo soluções no Brasil e no exterior. Esses resultados demonstram solidez e consistência estratégica, mas não substituem o compromisso de olhar para a mesa de decisão e perguntar, novamente, quem não está aqui – e o que estamos fazendo para mudar essa realidade.

Para manter essa pergunta viva, estruturamos um Comitê de Diversidade e Inclusão com a missão de provocar mudanças contínuas, e não apenas cumprir formalidades. Assumimos compromissos públicos com o Pacto de Equidade Racial Brasil e nos tornamos signatários do Pacto Global da ONU, priorizando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 4 e 10, porque entendemos que inovação e responsabilidade social não podem caminhar em trilhas separadas.

Se desejamos mais mulheres na tecnologia, precisamos olhar com honestidade para as barreiras que fazem tantas desistirem antes mesmo de começar. Foi dessa inquietação que nasceu o “Vem pra Dados, Mulher”, iniciativa que recebeu mais de 4.200 inscrições – histórias atravessadas por medo, coragem, maternidade, boletos, insegurança e, sobretudo, talento. Selecionamos 30 mulheres que mergulharam em estatística, SQL, Power BI, Python e machine learning. A média final de aprovação foi 86,6, mas o resultado mais importante foi a reconstrução da autoconfiança e a percepção de pertencimento a um espaço historicamente restrito.

Nosso compromisso, no entanto, não se limita à pauta de gênero. No programa FAST, que oferece formações gratuitas e aceleradas para pessoas de todo o Brasil, metade das vagas é ocupada por mulheres, pessoas trans e não-binárias. Até junho de 2025, foram mais de 40 mil inscrições e quase 10 mil certificados e microcertificados emitidos. O perfil das pessoas participantes revela a potência e a urgência dessa pauta: 67,1% são pessoas pretas e pardas; 47,9% se identificam como LGBTQIAPN+; 75,4% têm renda familiar de até dois mil reais. 

A diversidade não está apenas no público atendido, mas também na equipe técnica e pedagógica, formada majoritariamente por mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIAPN+, 50+, neurodivergentes e PCDs.

No programa Florescendo Talentos, parte do TrilhaTec em parceria com o Governo de Pernambuco, já emitimos mais de 13 mil certificados para jovens da rede pública, majoritariamente negros e periféricos – muitos sendo os primeiros de suas famílias a acessar uma formação estruturada em tecnologia. Quando um jovem negro aprende a programar, ele não aprende apenas uma nova linguagem; amplia seu horizonte de possibilidades e ocupa um espaço que historicamente lhe foi negado.

É essa mesma lógica de ampliar acesso e permanência que orienta o InovAção PCD, iniciativa por meio da qual contratamos e estamos formando 29 pessoas com deficiência para atuar em projetos de desenvolvimento de software dentro do CESAR.

Vivemos em uma era em que algoritmos influenciam quem recebe crédito, quais currículos são filtrados e quais oportunidades são apresentadas a cada pessoa. Se esses sistemas são desenhados por grupos homogêneos, seus erros deixam de ser pontuais e passam a reproduzir desigualdades em escala. A tecnologia pode ampliar distâncias sociais com eficiência industrial, mas também pode ajudar a reduzi-las – desde que haja intenção, compromisso e capacidade de escala.

A pergunta, portanto, continua ecoando: quem pode estar ficando de fora do futuro da tecnologia? No CESAR, escolhemos não desviar o olhar. Ainda somos imperfeitos e seguimos em construção, mas entendemos que cada decisão de contratação, cada programa de formação e cada parceria ou meta assumidas publicamente são escolhas. E a nossa é participar da construção de um futuro mais diverso. 

Compartilhar:

O CESAR é o mais completo centro de inovação e conhecimento do Brasil, referência no desenvolvimento de soluções tecnológicas de alta complexidade, com impacto para toda a sociedade. Atua, há quase 30 anos, integrando pesquisa, aceleração de negócios e tecnologia para elevar organizações a um novo patamar de competitividade, além de educação, por meio da CESAR School.

Artigos relacionados

O que significa educar quando as máquinas também aprendem?

Ao revisitar os 30 anos do CESAR, este artigo mostra por que, em um mundo cada vez mais automatizado, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de formar pessoas que saibam interpretar, conectar e dar sentido ao conhecimento.

As pessoas vão permanecer mais tempo, sua empresa está pronta?

Com o avanço da longevidade e a transformação demográfica, este artigo mostra por que o futuro das empresas depende menos de estratégias de atração e mais da capacidade de liderar diferentes ciclos de vida, repensando saúde, carreira e gestão de pessoas.

A decisão mais difícil do roadmap de IA não é técnica

Dados, modelo e experiência competem pelo mesmo backlog, e cada frente pode apresentar uma justificativa tecnicamente correta para receber o próximo investimento. Decidir entre elas, exige uma maturidade que poucos times de produto desenvolveram, e uma clareza estratégica que poucas empresas conseguem articular.

Cultura organizacional, Empreendedorismo, Inovação & estratégia
2 de junho de 2026 08H00
Por que uma sociedade que partiu de uma base agrária se tornou referência global em execução ágil, iteração contínua e adaptação sistêmica? A resposta não está apenas em políticas industriais ou acesso a capital. Está em um código cultural que transforma simplicidade, memória organizacional e julgamento contextual em vantagem competitiva - e que cabe perfeitamente no radar da gestão brasileira. Este artigo apresenta cinco lições operacionais da China, com cases empresariais, dados de 2025-2026 e reflexões aplicáveis a conselheiros e executivos latino-americanos.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor e Rael Mairesse - Cofundador e diretor da Luming

13 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
1º de junho de 2026 14H00
A IA não está otimizando empresas, está testando se elas ainda fazem sentido. Este artigo demonstra que bons agentes inteligentes podem reconstruir o que antes exigia uma organização inteira.

Bruno Stefani - Fundador da NERD Partners

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
1º de junho de 2026 09H00
Em um ambiente saturado de narrativas, este artigo revela por que confiança não é construída pela comunicação - mas pela consistência entre discurso, cultura e decisões.

Karen Fontana - CCSO e sócio-diretora da FutureBrand São Paulo

3 minutos min de leitura
Estratégia
31 de aio de 2026 15H00
Em um cenário de excesso de informações e alta volatilidade, este artigo questiona a falsa sensação de clareza que os dados oferecem, e mostra por que o verdadeiro desafio das organizações está em transformar volume em leitura qualificada e decisão relevante no tempo certo.

João Roncati - CEO da People+Strategy

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de maio de 2026 09H00
Este artigo revela por que a competitividade no setor automotivo está migrando da produção para a capacidade de prever, integrar e governar dados com precisão.

Lorena França - Account manager da A3Data

4 minutos min de leitura
Estratégia, User Experience, UX
30 de maio de 2026 14H00
Com o avanço do PL 5605/2019, este artigo mostra como a gestão de garantias e o pós-obra ganham nova centralidade no setor imobiliário, exigindo mais organização, rastreabilidade e maturidade operacional para reduzir conflitos e fortalecer a confiança do cliente.

Jean Ferrari - Engenheiro civil e CEO da FastBuilt

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
30 de maio de 2026 08H00
Este artigo mostra que o problema não está na tecnologia, mas na manutenção de estruturas organizacionais inchadas e pouco preparadas para extrair valor da nova lógica do trabalho.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

4 minutos min de leitura
Empreendedorismo
29 de maio de 2026 15H00
O problema não é a falta de empreendedoras, é um sistema que ainda não foi feito para elas. Este artigo mostra por que a formalização ainda é um obstáculo estrutural - e como redesenhar o sistema para transformar negócios invisíveis em motores reais de desenvolvimento econômico.

Ana Fontes - Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora e Instituto RME, VP do Conselho do Pacto Global da ONU

6 minutos min de leitura
Marketing, Inovação & estratégia
29 de maio de 2026 12H00
No ritmo do mundo, só permanece quem sabe se adaptar. Este artigo mostra por que a relevância das marcas não depende mais de presença ou investimento, mas da capacidade de interpretar o tempo, integrar diversidade e transformar propósito em ação concreta.

Pedro Del Priore - CEO da Agência Ginga

4 minutos min de leitura
Estratégia, Marketing
29 de maio de 2026 08H00
Este artigo revela por que o diferencial das marcas deixou de ser produção e passou a ser sensibilidade - a capacidade humana de interpretar cultura, criar significado e, sobretudo, ser lembrada.

Maurício Mansur - Fundador da IAMKT

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão