Ao longo de mais de três décadas de carreira, hoje à frente da agenda de Cultura e ESG do CESAR, vi muitas vezes a tecnologia se imaginar neutra, técnica e objetiva, como se algoritmos e dados não carregassem cor, gênero, território ou bagagem social. Ou como se o futuro pudesse ser programado sem qualquer acerto de contas com o passado. No entanto, toda tecnologia nasce de pessoas, e pessoas têm história, repertório e visão de mundo. Por isso, há anos uma pergunta me acompanha: quantos desses corpos diversos estão, de fato, dentro das empresas de tecnologia decidindo o que será criado e como será distribuído?
Sempre que entro em uma sala onde se definem os rumos de produtos, plataformas, projetos e sistemas que impactarão milhares de vidas, ela ressurge de forma silenciosa: quem não está aqui? Com o tempo, deixei de tratar essa inquietação apenas como reflexão e passei, junto ao meu time, a transformá-la em prática, propondo ações concretas para preencher, pouco a pouco, essas lacunas. Não se trata de um movimento individual, mas de uma mudança de direção que começa a ganhar força, ainda que de forma sutil, no mercado nacional.
O Brasil tem avançado na presença feminina na tecnologia, mas o setor que mais promete futuro ainda opera, em grande medida, como uma bolha que cresce, fatura e escala sem necessariamente refletir a diversidade da sociedade que pretende atender. Relatórios sobre representatividade feminina no mercado de TIC reforçam esse cenário. O Relatório de Diversidade da Brasscom aponta que as mulheres representam 34,2% da força de trabalho no setor, percentual que praticamente se repete nos cargos de diretoria e gerência. Entre 2019 e 2024, a presença feminina na liderança cresceu apenas um ponto percentual. É um avanço, mas revela o quanto ainda caminhamos lentamente quando o assunto é equidade de gênero.
No CESAR, aprendemos que crescimento, por si só, não é sinônimo de impacto positivo. Em 2025, ultrapassamos R$435 milhões em receita, crescemos 20% em relação ao ano anterior, entregamos mais de 130 projetos de alta complexidade e reunimos mais de 1.500 pessoas construindo soluções no Brasil e no exterior. Esses resultados demonstram solidez e consistência estratégica, mas não substituem o compromisso de olhar para a mesa de decisão e perguntar, novamente, quem não está aqui – e o que estamos fazendo para mudar essa realidade.
Para manter essa pergunta viva, estruturamos um Comitê de Diversidade e Inclusão com a missão de provocar mudanças contínuas, e não apenas cumprir formalidades. Assumimos compromissos públicos com o Pacto de Equidade Racial Brasil e nos tornamos signatários do Pacto Global da ONU, priorizando os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 4 e 10, porque entendemos que inovação e responsabilidade social não podem caminhar em trilhas separadas.
Se desejamos mais mulheres na tecnologia, precisamos olhar com honestidade para as barreiras que fazem tantas desistirem antes mesmo de começar. Foi dessa inquietação que nasceu o “Vem pra Dados, Mulher”, iniciativa que recebeu mais de 4.200 inscrições – histórias atravessadas por medo, coragem, maternidade, boletos, insegurança e, sobretudo, talento. Selecionamos 30 mulheres que mergulharam em estatística, SQL, Power BI, Python e machine learning. A média final de aprovação foi 86,6, mas o resultado mais importante foi a reconstrução da autoconfiança e a percepção de pertencimento a um espaço historicamente restrito.
Nosso compromisso, no entanto, não se limita à pauta de gênero. No programa FAST, que oferece formações gratuitas e aceleradas para pessoas de todo o Brasil, metade das vagas é ocupada por mulheres, pessoas trans e não-binárias. Até junho de 2025, foram mais de 40 mil inscrições e quase 10 mil certificados e microcertificados emitidos. O perfil das pessoas participantes revela a potência e a urgência dessa pauta: 67,1% são pessoas pretas e pardas; 47,9% se identificam como LGBTQIAPN+; 75,4% têm renda familiar de até dois mil reais.
A diversidade não está apenas no público atendido, mas também na equipe técnica e pedagógica, formada majoritariamente por mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIAPN+, 50+, neurodivergentes e PCDs.
No programa Florescendo Talentos, parte do TrilhaTec em parceria com o Governo de Pernambuco, já emitimos mais de 13 mil certificados para jovens da rede pública, majoritariamente negros e periféricos – muitos sendo os primeiros de suas famílias a acessar uma formação estruturada em tecnologia. Quando um jovem negro aprende a programar, ele não aprende apenas uma nova linguagem; amplia seu horizonte de possibilidades e ocupa um espaço que historicamente lhe foi negado.
É essa mesma lógica de ampliar acesso e permanência que orienta o InovAção PCD, iniciativa por meio da qual contratamos e estamos formando 29 pessoas com deficiência para atuar em projetos de desenvolvimento de software dentro do CESAR.
Vivemos em uma era em que algoritmos influenciam quem recebe crédito, quais currículos são filtrados e quais oportunidades são apresentadas a cada pessoa. Se esses sistemas são desenhados por grupos homogêneos, seus erros deixam de ser pontuais e passam a reproduzir desigualdades em escala. A tecnologia pode ampliar distâncias sociais com eficiência industrial, mas também pode ajudar a reduzi-las – desde que haja intenção, compromisso e capacidade de escala.
A pergunta, portanto, continua ecoando: quem pode estar ficando de fora do futuro da tecnologia? No CESAR, escolhemos não desviar o olhar. Ainda somos imperfeitos e seguimos em construção, mas entendemos que cada decisão de contratação, cada programa de formação e cada parceria ou meta assumidas publicamente são escolhas. E a nossa é participar da construção de um futuro mais diverso.




