Cultura organizacional

Real skills, as competências do pós-pandemia

As habilidades comportamentais ganham importância e passam de soft para real, conforme preconizado por Seth Godin
Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios, com mais de 30 anos de experiência como redatora, repórter, editora e revisora. Colaboradora de HSM Management e de MIT Sloan Management Review Brasil.

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“A tarefa central da educação é implantar uma vontade e uma facilidade de aprendizagem; não deve produzir pessoas cultas, mas aprendizes. A sociedade verdadeiramente humana é uma sociedade que aprende… Em uma época de mudanças drásticas, são os aprendizes que herdam o futuro. Os eruditos geralmente se encontram equipados para viver em um mundo que já não existe mais.”

O filósofo e escritor norte-americano Eric Hoffer já ressaltava, nos anos 1970, em seu livro Reflections on the human condition, a necessidade de as pessoas serem eternas aprendizes para não ficarem obsoletas – e naquele momento as transformações não ocorriam no mesmo ritmo alucinado do mundo atual.

Fomos ainda assolados pela Covid-19, que impôs a necessidade de reinvenção imediata. Enquanto pessoas passaram a buscar organizações mais comprometidas com os aspectos social e ambiental, empresas têm exercitado um olhar diferente quanto ao que esperam dos atuais funcionários e de futuros candidatos.

HSM Management analisou estudos recentes, como o levantamento global do LinkedIn, o relatório de habilidades do Fórum Econômico Mundial e a pesquisa realizada pela consultoria de recrutamento Robert Half junto a líderes, e ouviu especialistas de carreira e desenvolvimento para descobrir quais são as habilidades mais esperadas a partir de 2021. Os especialistas apontaram 22 características.

## A hora das soft real skills
A principal conclusão é que o momento exige um conjunto de habilidades híbridas. As chamadas hard skills, relativas ao conhecimento técnico, seguem necessárias, mas deixam de ter peso maior ou exclusivo na contratação. Já as soft skills, reconhecidas como comportamentais, passam a ter o mesmo peso das técnicas.

Contudo, para o norte-americano Seth Godin, criador do altMBA e do Akimbo, blogueiro e escritor, devemos parar de chamar essas competências de “soft”, pois elas são igualmente “real”. Para ele, o termo “soft” minimiza a importância de aspectos fundamentais para o indivíduo e para os resultados.

Como não há uma taxonomia definitiva sobre real skills, Seth Godin considera cinco grandes categorias a serem avaliadas – autocontrole, produtividade, sabedoria, percepção e influência. Para Godin, a cultura sempre vence a estratégia. E as real skills sempre podem ser aprendidas.

Eric Hoffer escreveu sobre aprendizado no século 20, quando o modelo de construção da carreira se baseava quase exclusivamente no conhecimento técnico. Décadas depois do que apregoou Hoffer, o mundo exige capacidade de aprender, desaprender, reaprender, durante toda a vida. É isso que está no topo das habilidades mais importantes para quem almeja relevância no futuro do trabalho em curto prazo.

O lifelong learning, ou o aprendizado contínuo, em que a jornada de desenvolvimento nunca cessa, não é a skill número 1 apontada nos recentes estudos sobre competências e habilidades. É por meio dele, porém, que os profissionais vão adquirir ou refinar suas habilidades técnicas e comportamentais para serem desejados pelas empresas.

O conceito vai muito além do que se aprende em cursos. Diz respeito a ter uma mentalidade aberta ao conhecimento. Assim, o aprendizado pode vir de qualquer conversa, livro, filme e até ao observar-se uma cena ou situação qualquer no cotidiano. “O lifelong learning inclui cursos, sem dúvida, mas também envolve a curiosidade e a busca ativa para conectar as coisas e daí extrair o conhecimento”, explica Paulo Lira, gestor acadêmico da HSM University e da Escola Brasileira de Direito. “É uma mudança cultural que acontece aos poucos, começando pelas grandes empresas e cascateando até se tornar realidade.”

O ano de 2020 está sendo um excelente momento para se desenvolver nesse sentido. Desde o início da pandemia, várias iniciativas de aprendizagem têm sido oferecidas. Um bom exemplo é a parceria entre LinkedIn e Microsoft, que disponibilizou 95 cursos em português gratuitamente até o fim de março de 2021.
Os cursos foram desenvolvidos com base em análise de dados da rede social profissional para oferecer conteúdo com foco nas profissões e nas habilidades mais demandadas atualmente. Os temas são variados, de cientista de dados e gestão de projetos a trabalho remoto, diversidade, inclusão e pertencimento. “Capacidade de aprendizado contínuo é essencial. O que a pandemia nos ensinou foi que o que eu sabia fazer não será suficiente nos novos modelos”, avalia Milton Beck, diretor geral do LinkedIn para América Latina.

## Um movimento presente
Em todas as pesquisas conferidas por HSM Management, as real skills ganharam os holofotes, e não por acaso. Segundo Tatiana Iwai, pesquisadora e professora de comportamento organizacional e liderança no Insper, a pressão do mercado exige mudanças e reinvenção de negócios, trazendo a necessidade de profissionais com habilidades consideradas mais humanas. São essas competências (soft ou real) inclusive que nos farão imprescindíveis quando as máquinas ocuparem muitos postos de trabalho. “Os robôs farão tudo o que não depende da capacidade humana, e não só as tarefas repetitivas. Assim, as pessoas farão o que depende do talento, o que agrega valor, o que é inovador. As habilidades únicas do indivíduo não serão substituídas por máquinas; e um time terá de ser a soma dos talentos individuais”, prevê Neivia Justa, sócia e diretora geral da C-Level Diversity.

Para Beck, quem se deu melhor durante a pandemia foram aqueles com habilidades que estão em evidência, como a criatividade. “Muitas empresas precisaram mudar radicalmente seus modelos de negócio, e não me refiro somente a negócios sofisticados”, diz o diretor do LinkedIn.

Para ilustrar, ele contou que passou a comprar frutas de um feirante pela internet, o qual tem se destacado no relacionamento. A resiliência o levou a continuar vendendo mesmo com as feiras impedidas de funcionar, e a empatia o fez entender como garantir a satisfação de seu cliente – ambas habilidades consideradas comportamentais e, portanto, real skills.

“Quando se é exposto a uma realidade muito difícil, quando enfrentamos as turbulências, vamos criando cascas e, assim, a resiliência aflora”, avalia Iwai. Justa, por sua vez, acredita que a empatia, no sentido de querer entender a realidade do outro, de como ele se sente e de como ajudá-lo, é o que as pessoas vão precisar exercitar mais: “não é possível ter empatia por algo que não se conhece”.

## As nuances da comunicação
A pandemia também mostrou a importância da comunicação entre os stakeholders das empresas. Caio Arnaes, diretor de recrutamento da Robert Half, comentou quão desafiador é se comunicar, principalmente em home office. “A comunicação a distância é mais difícil, até porque, para se comunicar bem, tem que entender como a outra pessoa está recebendo a mensagem, o que é facilitado com o olho no olho”, avisa ele.

Para Marcelo Pimenta, sócio-fundador e líder de inovação do Laboratorium Consultoria e Projetos Inovadores e fundador da Liga dos Inovadores, o maior problema no quesito comunicação é o tom de voz. “A comunicação não violenta tem que ser voltada à conexão, ao entendimento”, diz.

Neivia Justa concorda, mas lembra que a comunicação não verbal também causa grande impacto. Ela cita a importância da escuta ativa no processo de entendimento e de compreensão verdadeira entre as pessoas.

Para Paulo Lira, a habilidade de comunicação tem de ser forte também para os líderes: “não é só saber se comunicar, mas se aproximar e entender o que cada um do time pode corroborar. Até pode haver resistência das pessoas no início, mas as barreiras caem, para então se criar uma conexão entre elas e o líder. Isso eleva a relação de confiança e a motivação, resultando em engajamento”.

Pimenta é enfático ao dizer que um gestor não consegue mais liderar ou motivar a equipe apenas com um bom salário. Para manter o engajamento, a motivação e criar sinergia, “três botões precisam estar ligados: além da empatia, experimentação/prototipação e colaboração. Esses são os pilares que vão sustentar o time”.

“Já era um desafio presencialmente e, quando o trabalho remoto foi adotado, enroscou”, continua. Para ele, a saída está no design centrado no ser humano, pois as atitudes esperadas têm a ver com design organizacional. “O time tem que ser ágil, como em uma corrida de revezamento. É esse o espírito de time que se espera.”

A capacidade em resolução de problemas, num período em que barreiras e contratempos não faltaram, como acentua Milton Beck, e a adaptabilidade, que foi colocada à prova a partir do momento em que o escritório físico foi substituído pelo trabalho remoto, também estão no radar das empresas. “São os tempos mais difíceis que nos levam ao desenvolvimento”, afirma Arnaes.

Como quase todos os negócios tiveram sua rentabilidade prejudicada pelo distanciamento social, situação que deve se estender ainda por 2021, as empresas precisaram – e continuarão precisando – de profissionais com expertise em inovação e criatividade. “Não no sentido de se inventar algo, mas fazendo diferente, mais barato e melhor”, explica o diretor da Robert Half.

Aqui entra também a agilidade, ou seja, fazer o que tem de ser feito, mas de forma mais rápida. Para amarrar todas essas competências, destaca-se quem é habilidoso em pensamento estratégico. “Como os recursos são escassos, onde estrategicamente deve-se apostar?”, enfatiza Arnaes.

## Desenvolvimento e consciência
Para conseguir adquirir ou refinar tantas hard e real skills necessárias no pós-pandemia, o profissional precisa ter pensamento crítico quase como um pré-requisito. “Com gestão 360, a decisão do produto ou do serviço que sairá no final depende de toda a equipe, numa visão holística. Como ler as necessidades do mercado, as mudanças ágeis que ocorrem, como resolver problemas não só com técnica ou inteligência emocional, sem pensamento crítico?”, questiona Paulo Lira, da HSM University. No ritmo da competitividade, afirma ele, a dupla pensamento crítico e criatividade leva à tão almejada capacidade de inovação.

Talvez uma das maiores mudanças trazidas pela Covid-19 seja o entendimento de que alguns comportamentos, antes vistos como fraquezas, agora são desejados. Entre eles, a capacidade de mostrar as vulnerabilidades quando o profissional, e também o líder, reconhece seus pontos fortes e fracos; e a compaixão com relação ao outro, já que não dá mais para fechar os olhos “diante de tantas desigualdades no mundo”, conta Pimenta.

Para Justa, colunista de HSM Management, a vulnerabilidade é um desafio maior para líderes homens do que para mulheres, porque “o modelo mental instalado é que se tem que ter todas as respostas e certeza de tudo, e que não se precisa de ajuda. Mas no mundo VUCA precisamos ser vulneráveis e nos mostrar como seres humanos”.

A boa notícia é que qualquer skill pode ser desenvolvida. E nunca na história tivemos tanto conhecimento disponível, até mesmo a um clique de distância. Justa vai além, acreditando que tudo começa na consciência coletiva. “No Brasil, somos individualistas. Com um planeta mais conectado, se não houver consciência coletiva, não se vai muito longe. Para mim, a consciência coletiva é a base, é onde começam as soft skills.”

Tatiana Iwai, do Insper, porém, chama a atenção para um ponto importante. “A pandemia não é igual para todos”, diz, se referindo, por exemplo, aos recursos que cada um tem disponível. “Alguns passam por ela em um barquinho ou em um bote salva-vidas, outros seguem em um transatlântico.”

## Hard skills mais desejadas
Segundo o último levantamento do LinkedIn, de outubro de 2020 – que apontou a retomada do nível de contratações no Brasil ao período pré-pandemia, embora não deva compensar o aumento do desemprego –, as habilidades digitais se destacam nos pré-requisitos de diversas vagas expostas na rede social.

As cinco profissões mais requisitadas no momento são consultor de negócios, engenheiro de software Java, desenvolvedor front-end, vendedor e desenvolvedor dotnet, ou seja, três das cinco são ligadas ao setor de tecnologia. Milton Beck, com base no levantamento do LinkedIn, dá destaque para as competências em gestão de negócios e em ciência de dados.

De acordo com Beck, as empresas intensificaram sua atenção para as tomadas de decisão baseadas em dados, o que já havia começado antes mesmo da pandemia. “Às vezes, os dados em quantidades absurdas estão dispersos e desorganizados. Como transformar toda essa selva em informações que sejam importantes para tomar decisões de negócio?”, diz ele. É onde entra a ciência de dados.

Explosão de empreendedores CEOs

Quem passeia pelo LinkedIn percebe que houve um crescimento no número de pessoas em cargos de CEO. A plataforma não faz essa medição, mas Tatiana Iwai, professora no Insper, concorda que essa impressão é real e a justificativa para ela pode estar no surgimento de startups “como uma grande onda”. Assim, muitos desses novos CEOs são empreendedores de empresas de um funcionário só, ele mesmo.
Essa onda teve início antes mesmo da pandemia, e nela já surfavam pessoas que queriam empreender e que, talvez, não tivessem encontrado propósitos claros nas empresas, pela percepção de Iwai. Com a chegada do novo coronavírus, a onda ganhou um empurrão final, aliado ao contexto econômico, que elevou o nível de desemprego. E empreender passou a ser a alternativa para muitos profissionais.
Para destacar a resiliência desses profissionais, Iwai dá cinco dicas de como o desenvolvimento das competências pode trazer vantagens e atrair negócios e clientes:

1 – Mindset de crescimento: saber lidar com os erros, não se desmotivar com fracassos iniciais.

2 – Autoeficácia: ser capaz de realizar uma tarefa específica.

3 – Força de vontade: ter garra para tocar o negócio, sem esmorecer diante dos obstáculos.

4 – Plano de negócios: um conjunto técnico de que não se pode abrir mão.

5 – Treinamento formal: buscar conhecimento onde há gaps em competências indispensáveis ao negócio, tanto hard como real skills.

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