Empreendedorismo, Cultura organizacional, User Experience, UX
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Se o evento é sobre cultura, por que a decisão ainda é sobre logística?

À medida que os eventos se consolidam como ferramentas de cultura, engajamento e construção de relacionamentos, a escolha dos destinos deixa de ser uma decisão operacional. Este artigo explora como experiências, conexões humanas e identidade local estão redefinindo o papel dos encontros corporativos e transformando cidades em plataformas de desenvolvimento econômico e cultural.
Idealizador e cofundador do Oxigênio Ilhabela

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Um evento corporativo revela muito sobre uma empresa. Mais do que transmitir conteúdo, ele expõe prioridades, estilos de liderança e a forma como uma organização escolhe construir relações entre suas pessoas. Por isso, a discussão sobre onde esses encontros ocorrem deixou de ser apenas operacional.

Durante muito tempo, a escolha de um destino esteve concentrada em critérios como infraestrutura, capacidade hoteleira, número de salas, equipamentos disponíveis e facilidade de acesso. Esses fatores continuam relevantes, mas já não são suficientes para explicar as decisões de organizações que passaram a enxergar seus eventos como ferramentas de cultura.

A consolidação do trabalho híbrido, a crescente preocupação com engajamento e pertencimento e a necessidade de fortalecer conexões humanas fizeram com que os encontros presenciais ganhassem uma nova função. Quando a empresa reúne lideranças, equipes, parceiros ou clientes, ela não está apenas organizando uma agenda. Está criando um ambiente capaz de influenciar comportamentos, estimular trocas e reforçar valores que dificilmente são absorvidos por apresentações, campanhas internas ou comunicados institucionais.

Nesse contexto, o espaço físico precisa fazer parte da experiência. O ambiente influencia a qualidade das conversas, a disposição para colaborar, a criatividade e até o nível de atenção dos participantes. A escolha do destino passa a ter impacto direto sobre os resultados que a organização espera alcançar.

Assim, cidades tradicionalmente associadas ao turismo de lazer começam a despertar o interesse do mercado corporativo.

Infraestrutura pode ser construída em qualquer lugar. Hotéis, auditórios e equipamentos podem ser replicados. O que não se reproduz com a mesma facilidade é a combinação entre identidade local, natureza, cultura, hospitalidade e experiências autênticas.

Ilhabela ilustra bem esse movimento. A proximidade com São Paulo, sem a necessidade de deslocamentos aéreos, a rede de hospedagem consolidada, a gastronomia, as experiências ligadas ao mar, a Mata Atlântica preservada e a diversidade cultural criam um ambiente que favorece a presença, a interação e a conexão entre as pessoas. Não se trata de mudar o cenário do evento, mas de oferecer condições para que a experiência seja diferente.

Essa mudança também abre uma discussão importante sobre desenvolvimento econômico. Em muitos destinos turísticos, a ocupação de hotéis, restaurantes e serviços está concentrada em finais de semana, feriados e períodos de alta temporada. Fora dessas datas, existe uma estrutura pronta para operar, mas frequentemente subutilizada.

Essa oportunidade ganha ainda mais relevância diante da dimensão do setor.O ano de 2025 foi de recorde para o setor de viagens corporativas. O Levantamento de Viagens Corporativas (LVC), realizado pela Alagev em parceria com a FecomercioSP, mostra que, no acumulado do ano, o segmento encerrou o ano com faturamento de R$ 147,8 bilhões, um crescimento de 6,3% e sendo o maior nível já registrado na série. Trata-se de uma demanda que busca cada vez mais experiências capazes de gerar engajamento, fortalecer relacionamentos e produzir resultados que vão além da agenda formal dos encontros.

A oportunidade não está apenas em atrair mais visitantes. Está em atrair visitantes que gerem valor para diferentes setores da economia local ao longo de todo o ano. Para destinos turísticos, isso representa uma estratégia capaz de reduzir os efeitos da sazonalidade e distribuir melhor a atividade econômica ao longo do calendário. Mesmo uma participação pequena nesse mercado pode gerar impactos significativos para hotéis, restaurantes, transportadoras, receptivos e prestadores de serviço locais.

Todavia, existe uma condição para que esse modelo funcione. O território precisa deixar de atuar de forma fragmentada. Quando hotéis, restaurantes, operadores turísticos, espaços para eventos, profissionais locais e iniciativas culturais trabalham de maneira isolada, o potencial da experiência fica limitado. Quando atuam de forma coordenada, o destino passa a oferecer algo muito mais difícil de replicar.

Talvez esteja aí uma das transformações mais relevantes na indústria de eventos. Durante muito tempo, o mercado foi estruturado a partir da venda de ativos específicos. Um hotel precisava ocupar quartos. Um espaço precisava preencher datas. Um fornecedor precisava comercializar seus serviços. Hoje, cresce a demanda por experiências desenhadas a partir dos objetivos da organização e não dos produtos disponíveis.

Nesse modelo, a curadoria ganha protagonismo. Hospedagem, conteúdo, experiências locais, bem-estar, gastronomia e atividades de integração deixam de ser decisões isoladas para compor uma narrativa única. No lugar de uma sequência de atividades, o evento se torna uma experiência construída intencionalmente.

A vocação para eventos apoiados em experiências já pode ser observada em diferentes segmentos. Somente em 2025, Ilhabela sediou 237 casamentos, reunindo cerca de 32 mil convidados e movimentando aproximadamente R$ 48 milhões na economia local. Mais do que os números, esse resultado evidencia a capacidade do destino de atrair pessoas em busca de vivências que combinam hospitalidade, território e conexões significativas.

Os sinais dessa nova proposta também podem ser observados em diferentes iniciativas espalhadas pelo país. Em Ilhabela, por exemplo, o TEDx Ilhabela reuniu mais de 300 participantes e foi considerado um dos eventos mais bem avaliados de seu ciclo. O Fórum de Afroturismo e Economia Criativa conectou lideranças nacionais para discutir desenvolvimento territorial, diversidade e novas economias. Mais do que eventos bem executados, iniciativas como essas mostram como conteúdo, território e relações humanas podem atuar de forma integrada para gerar experiências com impacto duradouro.

O que permanece na lembrança dos participantes raramente é o tamanho do palco ou a quantidade de telas instaladas, mas as conversas, os encontros e as relações construídas ao longo do caminho.

Talvez por isso o futuro dos eventos corporativos esteja menos relacionado à capacidade de reunir pessoas em um mesmo espaço e mais à capacidade de criar contextos que transformem a maneira como elas se relacionam. A infraestrutura continuará sendo importante, mas dificilmente será o principal diferencial.

Com os eventos se tornando uma ferramenta de cultura, a questão que começa a surgir para empresas, organizadores e destinos é outra: por que tantas decisões ainda são tomadas como se eles fossem apenas um desafio de logística?

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