Cultura organizacional
5 minutos min de leitura

Seu valor termina quando sua performance cai?

Uma promoção, uma nova função, um momento difícil ou uma fase de adaptação podem mudar temporariamente a performance de qualquer profissional. A questão é saber se as organizações conseguem enxergar essas oscilações como parte da trajetória humana ou se passam a avaliar pessoas apenas pelo resultado do momento.
Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

Compartilhar:

Há uma contradição que me chama atenção na forma como muitas empresas dizem reconhecer seus profissionais. Valorizam as pessoas enquanto elas entregam, mas, se a performance cai, passam a olhar para elas como se toda a história anterior tivesse perdido importância.

É uma lógica silenciosa, porque costuma aparecer disfarçada de meritocracia, gestão de desempenho ou até uma suposta cultura de alta performance. Afinal, empresas têm de gerar resultados, temos responsabilidades e metas para cumprir. Mas se o reconhecimento deixa de ser consequência de uma contribuição para funcionar unicamente como uma espécie de recompensa que precisa ser conquistada novamente a cada nova demanda, aqui está o problema.

Nesse modelo, o profissional não recebe apenas a mensagem de que precisa melhorar um resultado. O que chega até ele, ainda que indiretamente, é um aviso perigoso: seu valor dentro da organização depende da capacidade de continuar entregando no nível esperado, quase como máquina. É nesse ponto que, para mim, está a armadilha do reconhecimento condicionado.

Quando a trajetória deixa de contar?

Uma pesquisa da Unicamp trouxe uma contribuição importante para essa discussão. Na tese “Reconhecimento no ambiente de trabalho: indo além da justiça organizacional”, desenvolvida na Faculdade de Ciências Aplicadas, o pesquisador ouviu trabalhadores operacionais e identificou, entre outros aspectos, um fenômeno que chamou de disjuntividade: o apagamento da trajetória profissional quando as contribuições anteriores deixam de ser consideradas.

Penso que esse conceito ajuda a nomear algo que acontece com mais frequência do que imaginamos. Uma pessoa pode passar anos em uma organização, aprender, assumir responsabilidades, atravessar momentos difíceis e contribuir para resultados importantes. Mas basta uma mudança de função, uma nova competência que ainda não domina ou um período em que sua performance cai para que todo esse passado pareça perder valor.

É como se a cada novo ciclo o profissional precisasse provar novamente que merece o espaço que conquistou. Isso afasta o profissional e, nem sempre, gera um pedido de demissão imediato. Esse afastamento pode ter início quando alguém deixa de propor uma ideia porque não quer se expor, evita assumir um desafio porque teme que um erro comprometa sua reputação ou quando passa a trabalhar mais para se proteger do que para contribuir. A pessoa continua presente, mas o vínculo começa a desaparecer antes mesmo de ela sair.

Uma outra pesquisa, realizada pela Gallup e pela Workhuman, identificou que trabalhadores que se sentem reconhecidos têm 45% menos probabilidade de deixar a organização dois anos depois. Entre aqueles que recebem feedbacks relevantes, a chance de permanecerem engajados é cinco vezes maior.

Os números tiram essa conversa do campo da subjetividade e ajudam a mostrar que reconhecimento não é somente uma questão de satisfação. Ele interfere na relação que as pessoas constroem com o lugar onde trabalham, e essa relação pode começar a se fragilizar quando o profissional percebe que seu valor acompanha pura e simplesmente a sua capacidade de entregar.

Querem inovar, mas não há espaço de verdade para o novo

Há ainda uma outra contradição relacionada ao reconhecimento dos profissionais, e ela está diretamente ligada ao desenvolvimento e à inovação. Mais da metade (56%) das empresas brasileiras têm inovação entre seus valores institucionais, mas apenas 7,7% delas apresentam uma cultura inovativa dominante.

O dado é do levantamento do DNA Cultural Brasileiro 2026, feito pela consultoria Santo Caos, e traz como uma das conclusões para esse descompasso entre os dois índices o fato das empresas declararem um valor sem criar as condições para colocá-lo em prática. E isso envolve, por exemplo, punir erros.

Uma cultura que reconhece apenas aquilo que já está pronto pode ter dificuldade para construir o que ainda não domina, ou seja, inovar. Aprender uma nova habilidade, assumir uma posição diferente ou desenvolver uma nova forma de trabalhar exige um período de adaptação em que a performance nem sempre será a melhor.

Se reconhecemos somente a excelência já alcançada, corremos o risco de criar uma cultura que valoriza o resultado, mas não entende o processo que permite chegar a ele. Pessoas que sentem que precisam estar permanentemente provando seu valor podem começar a operar em estado de alerta. O aprendizado dá lugar à autoproteção e, assim, a confiança diminui.

O problema não é cobrar performance

Não defendo aqui uma cultura em que resultados deixem de importar, pelo contrário. A responsabilidade sobre entregas faz parte de qualquer relação profissional saudável, mas a questão que precisamos enfrentar é outra. O que acontece com a percepção de valor de uma pessoa quando a performance dela muda?

Uma liderança madura tem que conseguir dizer que um resultado precisa melhorar sem transformar essa conversa em uma sentença sobre o valor daquele profissional. Isso implica olhar para uma trajetória inteira antes de definir o significado de um resultado pontual.

Para mim, reconhecer alguém é também preservar a memória daquilo que essa pessoa já construiu e mostrar, nas decisões cotidianas, que a performance importa, mas não é tudo o que ela representa. Reconhecer a entrega, sem apagar a trajetória, permite a uma organização engajar talentos e ir além, criando condições para que as pessoas possam aprender e contribuir sem precisar escolher entre performar e continuar sendo humanas.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Seu valor termina quando sua performance cai?

Uma promoção, uma nova função, um momento difícil ou uma fase de adaptação podem mudar temporariamente a performance de qualquer profissional. A questão é saber se as organizações conseguem enxergar essas oscilações como parte da trajetória humana ou se passam a avaliar pessoas apenas pelo resultado do momento.

A contradição que desafia a ONU: É possível falar em inclusão global sem Taiwan?

Em um momento em que a ONU afirma buscar a reconstrução da confiança internacional, o debate sobre a exclusão de Taiwan recoloca uma questão fundamental para a governança global: como defender representatividade, cooperação e direitos universais quando milhões de pessoas permanecem à margem de importantes fóruns internacionais? O artigo analisa as implicações jurídicas, geopolíticas e econômicas dessa controvérsia e seus impactos sobre a estabilidade global.

O próximo Pix será de competências

Imagine carregar, em um único ambiente digital, diplomas, cursos, certificações e qualificações profissionais, todos verificáveis em segundos. O artigo explora como a combinação entre credenciais digitais, blockchain e identidade digital pode redefinir a forma como pessoas comprovam suas competências e como o país acompanha a evolução da educação e da empregabilidade.

Thought leadership: quando a ideia vale mais que a visibilidade

Palcos, entrevistas e redes sociais ampliam alcance, mas não constroem autoridade por si só. O artigo explora como empresas e executivos podem desenvolver influência genuína em um cenário em que a confiança se tornou mais pessoal, mais seletiva e cada vez mais vinculada à qualidade do pensamento que produzem e compartilham.

A IA não vai tornar o trabalho mais humano. Nós é que precisamos fazer isso.

A tecnologia está mudando a forma como criamos, trabalhamos e tomamos decisões. Mas existe uma diferença fundamental entre processar informação e acumular vivência. O artigo propõe uma reflexão sobre pensamento crítico, criatividade e o papel das chamadas “power skills” em um cenário onde a inteligência artificial amplia capacidades, mas não substitui experiências humanas.

Inovação & estratégia
3 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a pergunta mais importante já não é qual solução de IA adotar, mas quem está definindo os limites, os objetivos e as regras de uso dessa tecnologia dentro da organização.

Erick Rezende - Diretor de Delivery na Cognitivo AI

Oferecido por:
5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
2 de setembro de 2026 14H00
À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de repensar o papel da experiência nas organizações e na sociedade. Tomando o comportamento do eleitor 70+ como ponto de partida, o artigo questiona o que faz alguém continuar contribuindo quando já não é obrigado a fazê-lo e por que essa pode ser uma das perguntas mais importantes para empresas que desejam se preparar para a era da longevidade.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services

Oferecido por:
6 minutos min de leitura
User Experience, UX, Marketing & growth
2 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a Connected TV se tornou uma peça central na economia da atenção. Em um cenário de audiências fragmentadas, a combinação entre conteúdo de alta qualidade, segmentação baseada em dados e métricas avançadas transforma a televisão conectada em um dos ambientes mais estratégicos para marcas que buscam equilibrar alcance, relevância e performance.

Bruno Almeida - CEO da US Media

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 15H00
Em momentos de retração econômica, cortar custos costuma ser uma resposta imediata. O problema é que algumas das perdas mais importantes não aparecem nas planilhas. Conhecimento acumulado, confiança, experiência e capacidade de inovação formam um patrimônio invisível que pode levar anos para ser reconstruído.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 08H00
O artigo utiliza a clássica fábula dos três porquinhos para mostrar por que organizações que apostam apenas em estruturas robustas, sem capacidade de adaptação, podem se tornar mais vulneráveis justamente quando o ambiente exige flexibilidade e aprendizado contínuo.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

Oferecido por:
10 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 20H00
Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

Oferecido por:
5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 18H00
A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

Oferecido por:
10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de agosto de 2026 14H00
A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.

Valter Roldão - CEO da Luuna

Oferecido por:
5 minutos min de leitura
Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

Oferecido por:
6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

Oferecido por:
4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução