Inovação & estratégia, Finanças, Marketing & growth
4 minutos min de leitura

Tarifaço e o marketing: como transformar impacto econômico em conexão com o consumidor

Em tempos de tarifas, volta de impostos e tensão global, marcas que traduzem o cenário com clareza e reforçam sua presença local saem na frente na disputa pela confiança do consumidor.
Carolina Fernandes (Caru) é executiva com mais de 20 anos de experiência em marketing e comunicação, com passagem por multinacionais, agências e universidades. É CEO da Cubo Comunicação, professora na PUC-RS, autora do livro "A Tecla SAP do Marketês" e host do podcast homônimo - em parceria renovada com o Pinterest -, além de colunista no Economia SP e ex-colunista da Exame. Caru alia estratégia, didática e autoridade na criação de conteúdo relevante para o ambiente B2B.

Compartilhar:


O anúncio da tarifa adicional de 50% sobre alguns produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos movimentou o noticiário. Mas antes de sair aumentando preços ou mudando estratégia às pressas, vale lembrar: cerca de 44,6% das exportações ficaram de fora dessa medida, entre elas, aviões, celulose e suco de laranja. Ou seja, o impacto não é igual para todos os setores. O próprio governo brasileiro já indicou que vai levar o caso à OMC.

Para quem está no marketing, a questão central é: como transformar um tema macroeconômico, cheio de números e siglas, em algo que faça sentido para o consumidor comum? Esse é o ponto em que a comunicação deixa de ser apenas informativa e passa a ser estratégica.

O que realmente muda na vida das pessoas

O consumidor brasileiro é sensível a preço, sim, mas não vive só de desconto. Ele também valoriza qualidade, confiança e experiência de compra.

A pesquisa Tendências de Bens de Consumo 2024 confirma que custo pesa, mas o CX Trends 2025 mostra que atendimento, propósito e conveniência têm tanto peso quanto o valor na etiqueta.

A “taxa das blusinhas” é um bom exemplo: a cobrança de 20% sobre importações de até 50 dólares reduziu em 42% as compras internacionais já no primeiro mês. Resultado? Mais gente migrando para opções nacionais ou estoques locais, quando eles oferecem conveniência e qualidade no mesmo nível, ou até acima, dos importados.

Localismo 2.0: ser brasileiro além do discurso

O tarifaço reforça um movimento que já vinha crescendo: o localismo. Mas aqui não estamos falando de colocar uma bandeirinha na embalagem e tocar o hino nacional na propaganda. O novo “compre local” é sobre resolver problemas reais: ter peça de reposição no dia seguinte, cumprir prazo de entrega e resolver qualquer problema na língua do cliente, sem tradutor e sem robô.

O setor automotivo entendeu rápido: a volta dos impostos sobre elétricos e híbridos estimulou investimentos e produção de modelos híbridos flex no Brasil. A narrativa é de inovação e proximidade, e isso conecta.

Estratégia: transformar tarifaço em oportunidade

É hora de fazer do limão uma limonada (bem brasileira). Em períodos de pressão econômica, marcas inteligentes ajustam o foco para mercados e nichos menos impactados, onde o poder de compra se mantém. É jogar luz onde a demanda continua forte, em vez de gastar energia onde ela está mais fraca.

Outra adaptação é intensificar campanhas com foco em resultado mensurável, publicidade digital e conteúdo que converte. Isso dá mais controle sobre o investimento e permite corrigir rota rapidamente se algo não performar.

Startups e tech: global na ambição, brasileiro na entrega

Com investidores estrangeiros mais cautelosos, especialmente os americanos, startups e empresas de tecnologia precisam falar a língua da própria comunidade. Isso não significa perder visão global, mas incorporar referências locais e provar eficiência com números em real.

Suporte no Brasil, dados hospedados aqui e integração com o ecossistema nacional deixam a proposta mais tangível e mostram que a operação se mantém estável mesmo com mudanças externas.

Do discurso político para o carrinho de compras: soberania que o cliente sente

A palavra “soberania” ganhou os holofotes nos últimos anos, principalmente nos discursos políticos. Mas no marketing, ela precisa sair do palanque e entrar no dia a dia do consumidor. Não é sobre “hastear bandeiras”, é sobre resolver problemas reais.

Soberania no marketing é quando o cliente liga para o SAC e fala com alguém que entende seu sotaque. É quando a peça quebrou e tem reposição na mesma semana, não em três meses. É quando seus dados estão protegidos por leis brasileiras, e não por regulações que você nem consegue ler. Em tempos de instabilidade global, isso cria confiança, traz previsibilidade de custo recorrente e diferencia a marca.

O papel do marketing agora

O marketing precisa funcionar como o tradutor oficial dessa história. Isso significa:

  • Explicar impactos de forma simples e direta
  • Direcionar esforços para mercados mais estáveis
  • Mostrar valor além do preço
  • Ser transparente sobre prazos, origem e disponibilidade
  • Usar dados para embasar a narrativa e fortalecer a confiança


O tarifaço pode estar no noticiário como um movimento macro, mas, para o consumidor, ele se traduz em algo muito mais simples: quanto eu vou pagar, quando vou receber e quem vai me atender se eu precisar. Marcas que souberem responder a isso com clareza, consistência e proximidade vão sair desse cenário mais fortes, e mais conectadas ao seu público.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Essa reunião podia ser um agente

Enquanto agendas lotam e decisões patinam, este artigo mostra como a ascensão dos agentes de IA expõe a fragilidade das arquiteturas de decisão – e por que insistir em reuniões pode ser sinal de atraso estrutural.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
2 de maio de 2026 13H00
Relações de poder, saúde relacional e o design das conversas que as organizações precisam ter. Este artigo parte de uma provocação simples: e se o problema não estiver em quem fala, mas em quem detém o poder de ouvir?

Daniela Cais - TEDx Speake e Designer de Relações Profissionais

8 minutos min de leitura
Liderança
2 de maio de 2026 07H00
Neste artigo, a figura do Justiceiro, anti-herói da Marvel Comics, serve como metáfora para discutir o que realmente define o legado de um líder: a capacidade de sustentar princípios quando resultados pressionam, escolhas difíceis se impõem e o custo de fazer o certo se torna inevitável.

Cristiano Zanetta - Empresário, escritor e palestrante TED

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
1º de maio de 2026 14H00
Se o trabalho mudou, o espaço precisa mudar também. Este artigo revela por que exigir presença física sem intencionalidade cultural e cognitiva compromete saúde mental e produtividade.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

16 minutos min de leitura
Liderança, Marketing & growth
1º de maio de 2026 07H00
Os melhores líderes internacionais não se destacam apenas pela estratégia. Destacam-se por perceber cedo os pequenos sinais de desalinhamento entre a matriz e os mercados, antes que eles virem problemas caros.

François Bazini - CMO e Consultor

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Bem-estar & saúde
30 de abril de 2026 18H00
A nova norma exige gestão contínua de risco, mas só a inteligência artificial permite sair da fotografia pontual e avançar para um modelo preditivo de saúde mental nas organizações. Esse artigo demonstra por que a gestão de riscos psicossociais exige uma operação contínua, preditiva e orientada por dados.

Leandro Mattos- Expert em neurociência da Singularity Brazil e CEO da CogniSigns

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia, Liderança
30 de abril de 2026 15H00
Este artigo desmonta o mito de que “todo mundo já chegou” na inteligência artificial - os dados mostram que não é verdade. E é exatamente aí que mora a maior oportunidade desta década (para quem tiver coragem de começar).

Bruno Stefani - Fundador da NERD Partners

6 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
30 de abril de 2026 11H00
O futuro não é humano nem artificial: é combinado. O diferencial está em quem sabe conduzir essa inteligência. Este artigo propõe uma mudança radical de mentalidade: na era em que a inteligência deixou de ser exclusiva do humano, o diferencial competitivo não está mais em saber respostas - mas em fazer as perguntas certas, reduzir a fricção cognitiva e liderar a combinação entre mente humana e IA.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

6 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
30 de abril de 2026 08H00
Quem nunca falou e sentiu que o outro “desligou”? Este artigo recorre à neurociência para explicar por que isso acontece - e sugere o que fazer para trazer a atenção de volta.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
29 de abril de 2026 18H00
Este é o primeiro artigo de uma série de cinco que investiga o setor farmacêutico brasileiro a partir de dados, conversas com líderes e comparações internacionais, para entender onde estamos, como o capital vem sendo alocado e até que ponto a indústria nacional consegue, de fato, gerar inovação e deslocamento tecnológico.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

17 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
29 de abril de 2026 13H00
Sua empresa tem um lab de inovação, patrocina hackathon e todo mundo fala em "mindset de crescimento". Mas o que, concretamente, mudou no seu modelo de negócio nos últimos dois anos?

Atila Persici Filho - CINO da Bolder e Professor FIAP

8 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão