Inovação & estratégia, Aprendizado
3 minutos min de leitura

Todo ano é de aprendizado, mas 2025 foi ainda mais

Crédito caro, políticas públicas em transição, crise dos caminhões e riscos globais expuseram fragilidades e forçaram a indústria automotiva brasileira a rever expectativas, estratégias e modelos de negócio em 2025
Idealizado em parceria entre Learning Village, CESAR e Automotive Business, o Hub Mobilidade do Learning Village se posiciona como um epicentro de inovação e tecnologia no setor.
Jornalista e editor de negócios do site Automotive Business. No setor automotivo desde 2015, viu o nascimento de políticas públicas, a chegada de novos fabricantes e observa com atenção a produção local de veículos elétricos.

Compartilhar:


No setor automotivo, todo ano é de aprendizado, mas 2025 ficará marcado como um período de lições mais profundas para a indústria local. Mais do que números absolutos, o período revelou limites estruturais, dependências históricas e a necessidade de adaptação a um ambiente econômico, político e geopolítico mais complexo.

Do ponto de vista do mercado, a produção de veículos cresceu 4% no acumulado até novembro, alcançando 2,459 milhões de unidades, desempenho superior ao de 2024, mas insuficiente para atingir a projeção das montadoras: 2,7 milhões de unidades.

O descompasso entre expectativa e realidade pode ensinar às montadoras que nem sempre projeções otimistas provocam efeitos positivos no mercado – e na opinião pública. Se a ideia era injetar ânimo, não deu certo. O crédito caro e a retração vista em segmentos importantes passou um recado de que o tempo é de se ligar alertas.

A crise dos caminhões foi o principal exemplo: enquanto o volume de veículos leves avançaram nas linhas, a produção de caminhões caiu cerca de 9%, com impactos diretos sobre empregos, turnos de fábrica e confiança do setor.

Esse contraste deixou claro que o mercado brasileiro passou a operar em duas velocidades. De um lado, os leves sustentados por vendas diretas (e não pelo varejo), promoções e pelo Programa Carro Sustentável; de outro, os pesados travados pela Selic elevada, que adiou a renovação de frotas mesmo diante de uma safra agrícola robusta.

Sem crédito acessível, a demanda simplesmente não se materializa, independentemente da necessidade econômica. Claro que o controle da Selic não está nas mãos das fabricantes e sua cadeia de suprimentos, mas em 2025 ficou aquela sensação no ar de que o setor não conseguiu ser criativo a ponto de mudar o panorama.

No campo das políticas públicas, 2025 também foi pedagógico. A regulamentação do Programa Mover, o anúncio do IPI Verde e a criação do Carro Sustentável mostraram um Estado mais ativo, disposto a usar instrumentos fiscais para induzir descarbonização, eficiência energética e reciclabilidade.

Ao mesmo tempo, a lentidão na implementação e as incertezas regulatórias ensinaram à indústria que o timing das políticas é tão relevante quanto seu conteúdo. Programas ajudam, mas não substituem estabilidade macroeconômica.

Outro aprendizado relevante veio da diversificação de negócios. A entrada da Stellantis no mercado de autopeças recicladas simboliza uma mudança de mentalidade: em um cenário de margens pressionadas no veículo novo, novas fontes de receita – pós-venda, economia circular, serviços – tornam-se estratégicas. 2025 deixou claro que sobreviver apenas da venda do zero quilômetro é um risco crescente.

A crise dos semicondutores, reacendida pelo caso Nexperia, reforçou talvez a lição mais sensível do ano: a dependência externa. Mesmo chips de baixa complexidade, essenciais para veículos a combustão e elétricos, expuseram a vulnerabilidade da cadeia local diante de disputas geopolíticas. A indústria aprendeu, novamente, que eficiência global sem resiliência local cobra seu preço.

Por fim, eventos climáticos extremos, como o vendaval que paralisou fábricas da Toyota, e tensões internacionais que pressionaram o petróleo, completaram o quadro.

Em 2025, a indústria automotiva aprendeu que planejamento precisa considerar não apenas mercado e tecnologia, mas também clima, diplomacia e cadeias globais frágeis. Foi um ano menos de celebração e mais de amadurecimento – e isso, em si, pode ser seu maior legado.

Compartilhar:

Idealizado em parceria entre Learning Village, CESAR e Automotive Business, o Hub Mobilidade do Learning Village se posiciona como um epicentro de inovação e tecnologia no setor.

Artigos relacionados

Parte IV – Futuros em prompts: como disputar e construir realidade

Este é o quarto texto da série “Como promptar a realidade” e aprofunda como futuros disputam processamento antes de existir como evidência – mostrando por que narrativas constroem organizações, reescrevem culturas ou colapsam democracias, e como reconhecer (ou escolher) o prompt que está rodando agora.

A era do “AI theater”: estamos fingindo transformação?

Nem toda empresa que fala de IA está, de fato, se transformando. Este artigo expõe o risco do AI theater – quando a inteligência artificial vira espetáculo – e mostra por que a vantagem competitiva está menos no discurso e mais nas mudanças invisíveis de estratégia, governança e decisão.

Parte III – APIs sociotécnicas versus malwares mentais… e como recuperar a soberania imaginal

Este é o terceiro texto da série “Como promptar a realidade”. Até aqui, as duas primeiras partes mapearam o mecanismo: como contextos são instalados, como narrativas disputam processamento e como ficções ganham densidade de real. A partir daqui, a pergunta muda: o que fazer com esse conhecimento? Como reconhecer quando você está sendo instalado – e como instalar, conscientemente, o prompt que você escolhe?

O esporte que você ama mudou – e isso é uma ótima notícia

Do vestiário aos dados, o esporte entrou em uma nova era. Este artigo mostra como tecnologia, ciência e informação estão redefinindo decisões, performance, engajamento de torcedores e modelos de receita – sem substituir a emoção que faz o jogo ser o que é

Parte II – Hyperstition: a tecitura ficcional da realidade

Este é o segundo artigo da série “Como promptar a realidade” e investiga como ficções, ao entrarem em loops de feedback, deixam de descrever o mundo para disputar ontologia – reorganizando mercados, política, tecnologia e comportamento antes mesmo de qualquer evidência.

Estratégia
28 de março de 2026 06H00
Em um mundo em que pandemias, geopolítica, clima e regulações desmontam cadeias de fornecimento inteiras, este artigo mostra por que a gestão de riscos deixou de ser operação e virou sobrevivência - e como empresas que ainda tratam sua cadeia como “custo” estão, na prática, competindo de olhos fechados.

André Veneziani - VP Comercial Brasil e Latam da C-MORE

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
27 de março de 2026 13H00
Investir em centros de P&D deixou de ser opcional: tornou‑se uma decisão estratégica para competir em mercados cada vez mais tecnológicos.

Eline Casasola - CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional, Estratégia
27 de março de 2026 07H00
Medir saúde organizacional deveria estar no mesmo painel que receita, margem e eficiência. Quando empresas tratam bem-estar como benefício e não como gestão, elas não só ignoram dados alarmantes - elas comprometem produtividade, engajamento e resultado.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

4 minutos min de leitura
ESG
26 de março de 2026 15H00
A capitulação da SEC diante das regras climáticas criou dois mundos corporativos: um onde ESG é obrigatório e outro onde é opcional. Para CEOs de multinacionais, isso não é apenas questão regulatória, é o maior dilema estratégico da década. Como liderar empresas globais quando as regras do jogo mudam conforme a geografia?

Marceli Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de março de 2026 09H00
À medida que desafios logísticos se tornam complexos demais para a computação tradicional, este artigo mostra por que a computação quântica pode inaugurar uma nova era de eficiência para o setor de mobilidade e entregas - e como empresas que começarem a aprender agora sairão anos à frente quando essa revolução enfim ganhar escala.

Pâmela Bezerra - Pesquisadora do CESAR e professora de pós-graduação da CESAR School e Everton Dias - Gerente de Projetos

7 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
25 de março de 2026 15H00
IA executa, analisa e recomenda. Cabe ao líder humano decidir, inspirar e construir cultura.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
ESG
25 de março de 2026 09H00
Quando propósito vira vantagem competitiva, manter impacto e lucro separados é mais que atraso - é miopia estratégica.

Ana Fontes - Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora e Instituto RME, VP do Conselho do Pacto Global da ONU

5 minutos min de leitura
Finanças, Estratégia
24 de março de 2026 14H00
Quando a geopolítica esquenta, o impacto não começa nos noticiários - começa na planilha: energia mais cara, logística pressionada, insumos instáveis e margens comprimidas. Este artigo revela por que guerras longínquas se tornam, em poucos dias, um problema urgente de precificação, estratégia e sobrevivência financeira para as empresas.

Alexandre Costa - Gerente de Pricing e Inteligência de Mercado

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
24 de março de 2026 07H00
À medida que a China eleva a inteligência artificial incorporada e as interfaces cérebro‑máquina ao status de indústrias estratégicas, uma nova disputa tecnológica global se desenha - e o epicentro da inovação pode estar prestes a mudar de coordenadas.

Leandro Mattos - Expert em neurociência da Singularity Brazil e CEO da CogniSigns

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
23 de março de 2026 14H00
Entre inovação, sustentabilidade e segurança regulatória, o modelo de concessões evolui para responder aos novos desafios da mobilidade urbana no Brasil.

Edson Cedraz - Sócio-líder para a indústria de Government & Public Services e Fernanda Tauffenbach - Sócia de Infrastructure and Capital Projects

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...